Será o altruísmo uma forma de egoísmo?

A leitura de O gene egoísta (DAWKINS, 2007) e Mãe Natureza: uma visão da evolução: maternidade, filhos e seleção natural (HRDY, 2001) sugere que não é possível compreender a vida humana em sociedade a partir de critérios disciplinares isolados em áreas específicas do conhecimento. A superespecialização fragmenta e isola o saber até mesmo no interior de uma dada área do conhecimento. A complexidade da vida humana não cabe em escaninhos disciplinares, nem nos doutos conceitos que desconsideram outros saberes ditos do senso comum. A vida não cabe em um livro, em um autor, por mais importantes que sejam – ou mesmo que os consideremos sagrados. A vida real é , interdisciplinar, multidisciplinar, transdisciplinar e holística.

Nós, das Ciências Sociais e Humanas, tendemos a desconsiderar os aspectos biológicos que nos caracterizam enquanto animais, acentuando a cultura, a linguagem e a racionalidade. Sim, somos diferentes, mas nem tanto. A nossa pretensa superioridade sobre os animais não-humanos, alicerçada em valores sociais, culturais e, sobretudo, religiosos, acalenta o nosso ego. Não obstante, não escapamos da morte inerente a todo ser vivo. O fato de criarmos símbolos e acreditarmos na vida post mortem não anula a mais simples verdade que nos iguala a qualquer outro animal: somos matéria orgânica, perecível e destinada a ser incorporada na natureza pelo trabalho de vermes e outros seres vivos que se alimentarão da nossa carne. Claro, há a opção da cremação! De qualquer forma, nossas cinzas de nada nos servirão e, com elas, nosso corpo será devolvido à natureza. Se pensássemos nestes aspectos e no quanto somos frágeis, enquanto corpo orgânico, talvez fôssemos mais humildes e capazes de respeitar não apenas a nossa espécie, mas as demais espécies dos animais. Talvez, então, conseguíssemos equilibrar as nossas tendências egoístas.

Humanamente, a forma que encontramos para contrabalançar o egoísmo é o altruísmo. Agir em função do bem de outrem, praticar a caridade e a filantropia, amar o próximo, ser abnegado, são consideradas atitudes altruístas que confrontam o egoísmo. Mas não seriam estas ações uma forma dissimulada do ser egoísta? Por que será que fazer o bem faz bem?[1] Afinal, praticamos o bem pelo outro ou por nós mesmos, para nos sentirmos melhor enquanto seres humanos? Não será sintomático o fato de os indivíduos terem necessidade de divulgar o bem que fazem aos outros? Ou você ainda não viu atitudes do tipo “doando sangue” e outras serem disseminadas nas redes sociais? Por acaso, você nunca presenciou alguém se vangloriando das boas ações? Os proselitistas que assumem a missão de salvar as almas reforçam as suas crenças e a certeza das suas próprias salvações. A caridade resgata o necessitado da sua condição miserável ou o humilha? As boas intenções caridosas e filantrópicas não mascaram a consciência culpada?

Pensemos nos moradores de rua: em que medida o trabalho voluntário, a caridade, etc., são eficazes para fazê-los superar a condição na qual vivem? Não nego a importância da ajuda que garante a sobrevivência dessas pessoas. É mesmo louvável o altruísmo que motiva as dezenas de voluntários envolvidos ou não em projetos institucionais de cunho religioso ou laico. Josimar Priori pesquisou e escreveu sobre este tema. Vale a pena ler a sua tese de doutorado: A construção da cidade: a vida nas ruas, religião, voluntariado e Estado. A leitura fortalece a impressão de que outro nome para o altruísmo é, paradoxalmente, egoísmo. A quantidade de pessoas envolvidas com este trabalho caridoso talvez supere os que se encontram na condição de moradores de rua. E, no entanto, esta triste realidade persiste e se aprofunda. Contraditoriamente, a caridade e a filantropia, por mais bem-intencionadas que sejam, tendem a reproduzir e reforçar as estruturas que produzem o necessitado.

Todavia, penso que a natureza egoísta do animal-humano não se explica apenas pela condição biológica animal. Como escreve Richard Dawkins (2007, p. 10): “Não há nada de errado em ensinar a generosidade e o altruísmo, mas dizer que “nascemos egoístas” é uma afirmação falaciosa”. Diferentemente de outros animais não-humanos, somos constituídos social e culturalmente. Como admite Dawkins:

“Os nossos genes podem nos instruir a sermos egoístas, mas não somos necessariamente forçados a obedecê-los a vida toda. (…) Entre os animais, o homem é dominado de uma maneira muito singular pela cultura, por influências aprendidas e transmitidas de geração em geração” (Ibidem, p. 40-41).

As Ciências Sociais contribuem – e muito – para apreendermos, analisarmos e refletirmos sobre os aspectos que ultrapassam a mera natureza animal da nossa existência. Por outro lado, precisamos estar abertos a aprender com as demais áreas do conhecimento humano. Sobretudo, não sejamos ingênuos a ponto de supervalorizar a racionalidade humana e desconsiderar e/ou menosprezar os instintos que determinam a nossa natureza biológica. O ser humano não é tão “humano” quanto pretendemos, o animal habita em nós e também determina o nosso ser.

Quando o mal se apodera de nós e/ou agimos pelo instinto, não falta quem nos compare aos animais não-humanos. Esquecemos, então, que também somos animais. De fato, a crença na nossa vã superioridade humana faz com que desqualifiquemos os outros animais. Se pensarmos bem, há aspectos em que os animais não-humanos se mostram superiores a nós. Porém, devemos admitir que os seres humanos matam racionalmente, não apenas por instinto. Como relata a antropóloga Sarah Blaffer Hrdy (2001, p. 262):

“Lembranças pavorosas, quer derivem dos yanomamis ou da Bósnia, suscitam problemas especiais. “Atores racionais” parecem comportar-se tão brutalmente quanto os chimpanzés, eliminando machos e fêmeas velhas, raptando fêmeas férteis e matando os imaturos…”.

Talvez, portanto, seja mais sábio reconhecer que somos seres complexos, ou, como diria Nietzsche, “humano, demasiadamente humano”. Seja como for, talvez seja ingenuidade acreditar demasiadamente no altruísmo dos animais humanos. Como escreve Dawkins (2007, p. 43): “O exame mais detalhado revela, muitas vezes, que atos de altruísmo aparente são, na realidade, atos de egoísmo disfarçados”. De qualquer forma, salvo circunstâncias específicas, é salutar praticar o altruísmo. Pautar nossos atos pela solidariedade, empatia, amor ao próximo – seja qual for o nome que adotamos – nos faz bem e faz bem a quem precisa. Sem ilusões, mas sem cairmos no extremo do cinismo. A indiferença cínica é o extremo oposto do altruísmo, mesmo quando este é uma máscara do nosso egoísmo.

 

Agradecimento

Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, pelas correções, comentários e as sugestões instigantes. A propósito, foi uma demonstração de altruísmo. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade.

Referências

DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

HRDY, Sarah Blaffer. Mãe Natureza: uma visão da evolução: maternidade, filhos e seleção natural. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

PRIORI, Josimar. A construção da cidade: a vida nas ruas, religião, voluntariado e Estado. (Tese de Doutorado). Universidade Federal de São Carlos, UFSCAR, 2018. Orientador: Gabriel de Santis Feltran.

[1] Por outro lado, será que fazer o mal faz bem? O sádico não extrai prazer do sofrimento alheio? É preciso, portanto, levar em consideração a dimensão psíquica do ser humano.

4 comentários sobre “Será o altruísmo uma forma de egoísmo?

  1. Colocacoes muito interessantes, Ozai’. De maneira geral, acho que as pessoas sao boas, e fazem algo bom para os demais pelo prazer de fazer o bem. Mas com psicopatas, a gente nao pode ter certeza. Entre as muitissimas pessoas boas tambem sempre tem aquelas que sentem prazer em ver a dor alheia. Pra essas pessoas, fazer o mal deve trazer muito prazer. Mas sao a minoria. O grande problema e’ que em geral essas pessoas psicopatas sempre se “encostam” em gente fraca e sem miolos que os seguem. Nem precisamos ir muito longe pra achar exemplos no Brasil de hoje… infelizmente.

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