Proudhon: aspectos biográficos e contextualização histórica

Proudhon and His Children (1865), Petit Palais, Paris, by Gustave Courbet

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), filho de um cervejeiro rural, nas proximidades de Besançon, e de mãe oriunda de família camponesa. Entre os autores anarquistas e socialistas proeminente é praticamente o único que nasceu entre os mais pobres.[1] Trabalhou com o pai na fabricação de cerveja e, depois, no pastoreio. Desperta o interesse pela leitura e alterna a vida de pastor com idas ao colégio e a biblioteca da cidade. Suas ausências no trabalho de pastoreio rendem-lhe cobranças familiares, mas sua mãe o apoia. Em 1825, sua família perde a propriedade rural e ele inicia os estudos em filosofia com o padre Astier. Frequenta o colégio por cerca de um ano. Em 1827, passa a trabalhar como aprendiz de impressor na tipografia de Gauthier, atividade que o aproxima dos livros e da imprensa. Em 1830, após trabalhar como tipógrafo em Neuchâtel, Marselha e Draguignan, fica desempregado e muda-se para Paris. Na capital francesa, completa a leitura da Bíblia e das obras teológicas. Três anos depois, regressa a Besançon e ao trabalho na tipografia dos Gauthier. Em sociedade, monta a própria tipografia, mas sem êxito. Endividado, seu sócio suicida-se. Proudhon busca refúgio na vida rural e escreve Essai de grammaire génèrale. Envia a obra ao Instituto de Ciências Morais e Políticas e recebe menção honrosa, o que o ajuda a conseguir uma bolsa de estudos concedida pela academia de Besançon. Retorna a Paris e passa a trabalhar no jornal L`Aurore, além de assistir cursos na Sorbonne, no Collège de France e na École d`Arts et Métiers. Com 29 anos, cursa o bacharelado e recebe bolsa.

Em 1839, participa de concurso com a obra De la célèbration du dimanché e ganha medalha de bronze. No ano seguinte, escreve e publica Qu`est-ce que la proprieté? A reação à obra é imediata. Considérant, fourierista, a critica; Proudhon responde com o texto Avertissement aux propriétaires. As forças da ordem censuram-no, a réplica é retirada de circulação e a Academia de Besançon suspende a bolsa e Proudhon é processado, acusado de incitar contra o governo e ultrajar a religião e os bons costumes. Em contrapartida, recebe o elogio de Marx.[2] Proudhon deixa Paris e vai para Lyon, volta a trabalhar na tipografia dos Gauthier. A partir de Lyon, mantém contato com a capital francesa, em constantes idas e vindas. Em 1843 publica De la creation de l`ordre dans l`humanité. Bakunin, Herzen e Marx, entre outros, à época exilados em Paris, apresentam-no a filosofia alemã, notadamente Hegel. O convívio com Marx não dura e o rompimento ocorre em 1845.[3] Em 1846, Proudhon publica a Philosofhie de la misère, ridicularizada por Marx em Miséria da Filosofia.

Amigo de Bakunin e Herzen, suas ideias terão repercussão nas correntes do socialismo-anarquismo internacional e, inclusive, no populismo russo. Em 1847, Proudhon inicia a publicação de Le Representant du Peuple, no qual polemiza com a concepção socialista de Louis Blanc. Com a Revolução, em 8 de junho de 1848 Proudhon é eleito para a Assembleia Nacional (recebe 77 mil votos). Considerado ultra-esquerdista, critica os decretos-leis do governo provisório e condena a repressão. Seu jornal é proibido. Em 21 de julho, discursa na Assembleia Nacional, afirma o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, critica burgueses e socialistas e passa a ser considerado um inimigo da sociedade, o homem-terror. Baudelaire o apoia. Seu discurso é publicado no ano seguinte com o título de Les confessions d`un revolutionnaire. Em 1849, vota contra a Constituição e funda o Banco do Povo, cujo objetivo é oferecer crédito às associações operárias que proliferam na França. Com a eleição de Luis Bonaparte, o sobrinho, Proudhon publica vários artigos críticos. Será processado, condenado à prisão e a pagar multa. Ele foge para Bruxelas, mas ao retornar a Paris para casar-se é preso e encarcerado em Saint Pelagie, em 6 de junho de 1849. Por ser preso político, tem o direito de sair uma vez por semana. Isto permite-o fundar o La Voix du Peuple. O primeiro número é publicado em novembro de 1849, com críticas a Louis Blanc e Frédéric Bastiat. Em maio de 1850, o jornal é fechado. É libertado em 1852.

Em 1854, ele e sua família são atingidos pelo cólera e uma das suas filhas morre. Nesta época, um publicista católico, E. de Mirecourt, publica várias biografias, entre as quais a de Proudhon, com severas críticas e respaldo do cardeal de Besançon. Proudhon responde com a obra De la justice dans la révolution et dans l`Église, em três volumes. A obra é confiscada e o autor é condenado ao cárcere e a pagar multa de 4 mil francos, por ultraje à religião e à moral. Proudhon escreve sua defesa, mas não encontra editor disposto a publicar. Exila-se na Bélgica, onde residirá entre 1858-1861. Diante das dificuldades financeiras, participa de concurso no cantão de Vaud e ganha o prêmio com o artigo “Théorie de l`impôt”. Tenta regressar à Franca, mas não é permitido: a lei de anistia não incluía os que atentavam contra a moral. Escreve La guerre et la paix, cujo impacto leva Tolstói a homenageá-lo com obra clássica homônima.

Em 1861, o imperador Louis Bonaparte concede anistia e Proudhon regressa a Paris. Enfermo, concentra-se em concluir a obra De la capacite politique des classes ouvrières, publicado postumamente. Com esta obra, ele influencia decisivamente a I Internacional e os socialistas revolucionários que defenderão o absenteísmo eleitoral. Proudhon falece em 19 de dezembro de 1864, após a fundação da I Internacional.

Proudhon foi um autodidata. Aprendiz de impressor e revisor de provas, assimilou parte dos conhecimentos a partir do trabalho e estudo das obras que devia revisar. Nesta atividade, supervisionou a impressão de Le nouveau monde industriel et sociètaire, de Charles Fourier, aproximando-se das ideias deste autor – o qual negará mais tarde. Ele foi um leitor voraz de todos os tipos de livros e escrevia com frequência. Observador perspicaz da cena contemporânea, publicou vários artigos e livros. Manteve-se fiel à sua origem social, da qual se orgulhava. Foi um crítico dos construtores de sistemas sociais utópicos regulamentadores da vida humana. Sua deusa era a liberdade, desdenhava dos que exaltavam a autoridade. Ao valorizar a liberdade individual, desconfiava até mesmo da palavra “associação”.

Considerado por Bakunin como o “mestre de todos nós”, influenciou os homens do seu tempo e as gerações posteriores. “Foi baseado em suas ideias”, afirmam Resende e Passetti, “que o anarcossindicalismo francês forjou a CGT. O mutualismo proudhoniano também exerceu influência sobre os espanhóis, em 1870, e os narodniki russos. Foi o primeiro a utilizar o termo anarquismo no sentido de consolidação da liberdade e da igualdade a partir da dissolução dos governos” (RESENDE; PASSETTI, 1986, p.13).

Suas ideias expressam o que viria a ser o anarquismo moderno e influenciaram os operários franceses fundadores da Primeira Internacional (Associação Internacional dos Trabalhadores) e vários dos líderes da Comuna de Paris (1871)

 

Referências

COLE, G. D. H. Historia del pensamiento socialista – I – Los precursores (1789-1850). México: Fondo de Cultura Economica, 1974.

MOTTA, Fernando C. Prestes. Burocracia e Autogestão (a proposta de Proudhon). São Paulo: Brasiliense, 1981.

RESENDE, Paulo Edgar A.; PASSETTI, Edson (Orgs.). Proudhon. São Paulo: Ática, 1986.

WOODCOCK, George. Anarquismo: uma história das ideias e movimentos libertários – A ideia. Vol. 1. Por Alegre: L&PM, 1983.

[1] Etienne Cabet também nasceu de pais pobres, porém recebeu instrução superior e estudou direito.

[2] Em “Nota necrológica” (1865), mesmo após anos da polêmica e rompimento, Karl Marx faz justiça a Proudhon e reconhece que a obra O que é a Propriedade? “é de longe a melhor. Marca uma época, tanto pela novidade do que diz, quanto pela maneira radical como se exprime. Os socialistas franceses, cujos escritos conhecia, tinham, como sabemos, não só criticado a propriedade de diversos pontos de vista, mas encontrado a via para suprimi-la utopicamente. Neste livro, Proudhon está aproximadamente para Saint-Simon e Fourier, como Feuerbach está para Hegel”. Marx elogia “a audácia provocante com que Proudhon ataca o santuário da economia política; o sarcasmo que utiliza para troçar do estúpido senso comum burguês; a sua crítica corrosiva; a sua ironia amarga, com um profundo e verdadeiro sentimento de revolta contra as infâmias da ordem de coisas estabelecidas; o seu espírito revolucionário, eletrizou os leitores de O que é a Propriedade? e imprimiu, desde a sua publicação, uma poderosa impulsão ao livro”. Marx, Karl, in Gurvitch, Georges, Proudhon e Marx, Editorial Presença, s/d, p.23-24, apud MOTTA, 1981, p. 40.

[3] Sobre a polêmica entre Marx e Proudhon, ver ANSART (1969) e MOTTA (1981), especialmente o capítulo “Uma polêmica histórica”, p. 39-65.

2 comentários sobre “Proudhon: aspectos biográficos e contextualização histórica

  1. Não sabia dessa trajetória sistemática do Proudhon: pelo ícone que é, a impressão é que tinha sido menos organizada a sua vida. Não porque esteja confundindo a anarquia, no sentido do senso comum, com o anarquismo sistematizado, mas achava que ele fosse mais subversivo e incomum. Coisas de quem não faz aprofundamento no assunto, mas lê coisas pinceladas. Valeu!
    A propósito, a questão da propriedade é uma elaboração que penso ser de leitura indispensável.
    Abraço!

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    • Boa tarde.
      Obrigado por ler e comentar.
      Proudhon foi o primeiro a se declarar anarquista, dando ao termo um sentido positivo. Talvez o meu texto tenha passado uma impressão involuntária. Seja como for, vale a pena ler a sua obra.
      Abraços e tudo de bom

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