Em defesa dos simples!

“Às vezes os simples entendem melhor as coisas do que os doutos”
Umberto Eco
(2012, p. 331)

Assembleia Unificada UEM, realizada em 26 de junho de 2019 – Foto do autor.

Em “O nome da rosa”, Umberto Eco faz o decrépito Jorge de Burgos afirmar: “Os simples não devem falar. Este livro teria justificado a ideia de que a língua dos simples é portadora de alguma sabedoria. Era preciso impedir isso, foi o que fiz. Tu dizes que sou o diabo: não é verdade. Eu fui a mão de Deus” (Ibidem, p. 550-551). O assassino age em nome de Deus, imagina cumprir os desígnios divinos, ser o seu instrumento. Considera-se, portanto, isento de culpa.

À busca da legitimação na transcendência, traço característico comum nos fanáticos religiosos e/ou seculares, soma-se a postura intelectualista e elitista que nega validade ao saber dos vulgos. De fato, rejeitam-se os saberes e a linguagem relacionados ao senso comum. Com efeito, é ingenuidade reduzir a linguagem a apenas meio de comunicação. Mais do que isto, ela expressa relações de poder e força simbólica entre os interlocutores. Esta força é determinada pela importância que se adquire enquanto autoridade, isto é, pelo lugar que o comunicador ocupa na estrutura social. Como escreve Bourdieu:

“A língua não é somente um instrumento de comunicação ou mesmo de conhecimento, mas um instrumento de poder. Não procuramos somente ser compreendidos, mas também obedecidos, respeitados, acreditados. Daí a definição completa da competência como direito à palavra, isto é, a linguagem legítima como linguagem autorizada, como linguagem de autoridade. A competência implica o poder de impor a recepção.”[1]

Tomar a linguagem apenas no plano da expressão, em sua forma pura e erudita, significa silenciar “sobre as condições sociais de possibilidades da instauração do discurso”, das relações de poder que determinam quem tem autoridade para falar. Esta autoridade está presente, por exemplo, no discurso profético, mas também no discurso institucionalizado, que supõem uma autoridade pedagógica ou sacerdotal que “só prega para os convertidos” (Ibidem).

Para os doutos, a fala dos simples não é passível de importância. Ela está destituída de poder e da legitimidade dos que detêm os poderes. Em outro trecho de “O nome da rosa”, a jovem mulher é condenada, a priori, por suposta bruxaria. As palavras do inquisidor expressam a verdade, por mais absurdas que sejam – mesmo aos seus contemporâneos – pois são legitimadas pela posição que ele ocupa na estrutura social. Ele representa o poder, a douta sabedoria reconhecida socialmente. Já a pobre moça: “Embora falasse, estava como muda. Há palavras que dão poder, outras que deixam mais desamparados, e dessa espécie são as palavras vulgares dos simples, a quem o Senhor não concedeu o saber exprimir-se na língua universal da sabedoria e do poder” (ECO, 2012, p. 393).

Na verdade, os simples são excluídos da “língua universal da sabedoria e do poder”. Isto nada tem a ver com atribuição divina, mas sim com processos históricos e sociais. Está relacionado, entre outros fatores, à divisão do trabalho nas sociedades, é uma construção social humana. Não obstante, o livro sagrado reconhece e consagra esta distinção. “A sabedoria do escriba se adquire em horas de lazer, e quem está livre de afazeres torna-se sábio”, afirma o Eclesiástico (Eclo 38: 25). Ora, como poderá se tornar sábio quem labuta em atividades físicas fatigantes, quem se ocupa dos trabalhos manuais? Como os trabalhadores podem ter acesso à sabedoria da qual se refere o autor bíblico se estão submetidos ao reino da necessidade? Por acaso, o seu trabalho tem importância? Sim, tem. O escriba não cansa de louvar os que se ocupam das tarefas manuais: “Todos esses depositam confiança em suas mãos e cada um é hábil na sua profissão. Sem eles nenhuma cidade seria construída, não se poderia nem instalar-se nem viajar” (Eclo 38: 35-36). Mas sua conclusão ilustra bem o lugar que cabe ao trabalhador, à trabalhadora: “Mas eles não se encontram no conselho do povo e na assembleia não sobressaem. Não sentam na cadeira do juiz e não meditam na lei. Não brilham nem pela cultura nem pelo julgamento, não se encontram entre os criadores de máximas” (Eclo 38: 37-38).

A inferiorização da atividade manual, ou mesmo sua desqualificação, está presente nas diversas sociedades humanas. Os gregos antigos, por exemplo, tinham uma concepção negativa sobre o trabalho manual, próprio dos escravos. Da mesma forma, na Idade Média, a cultura erudita era privilégio da nobreza. Paradoxalmente, foi a burguesia, os que moravam nos burgos, que passou a valorizar o trabalho.[2] No Brasil, durante séculos, o trabalho manual também foi desqualificado porque estava relacionado à escravidão. Esta herança persiste em nossos dias. Aliás, um dos efeitos positivos da pandemia foi o fato de lançar luz sobre as pessoas que desempenham tarefas comuns na sociedade.[3] De repente, os invisíveis ganharam visibilidade. Todavia, temo que isto não seja duradouro.

A desqualificação do trabalho manual caminha pari passu com a depreciação do saber oriundo da experiência cotidiana, das tradições e da religiosidade, denominada pelo douto como senso comum. Este procedimento é, com o perdão da redundância, senso comum nos campi. A linguagem dos simples é desqualificada, seu saber é desconsiderado. A linguagem professoral, formalista, árida, incompreensível é a norma. A regra é dificultar o entendimento: quanto mais difícil, mais parece inteligente. Dessa forma, o saber do senso comum é nulificado, preconceituosamente identificado como algo que não vale a pena se ocupar. Ora, a inteligência dos pretensos doutos, talvez por um efeito perverso da própria arrogância e vaidade, desdenha o fato de que todos estamos imersos no senso comum. A vida concreta da maioria das pessoas se fundamenta no cotidiano, na rotina e previsibilidade das ações, diferentemente dos conceitos, teorias e abstrações. É este saber comum que fornece a “segurança ontológica”[4] de que precisamos.

É a própria vida que pulsa, dilemas referentes ao ser humano, cujo significado prescinde da ciência. Max Weber observou este aspecto ao falar sobre a ciência como vocação aos jovens estudantes alemães. O sociólogo chama a atenção para o processo de desencantamento do mundo e questiona o “progresso”, do qual a ciência é um elemento essencial, “tem significação que ultrapasse essa pura prática e essa pura técnica?” Ele responde recorrendo ao escritor russo Leon Tolstói:

“Esse problema mereceu exposição vigorosa na obra de Leon Tolstói. Tolstói a ele chegou por uma via que lhe é própria. O conjunto de suas meditações cristalizou-se crescentemente ao redor do tema seguinte: a morte é ou não é um acontecimento que encerra sentido? Sua resposta é a de que, para um homem civilizado, aquele sentido não existe. E não pode existir porque a vida individual do civilizado está imersa no “progresso” e no infinito e, segundo seu sentido imanente, essa vida não deveria ter fim. (…). E porque a morte não tem sentido, a vida do civilizado também não o tem, pois a “progressividade” desprovida de significação faz da vida um acontecimento igualmente sem significação. (…) Qual é, afinal, nesses termos, o sentido da ciência enquanto vocação, se estão destruídas todas as ilusões que nela divisavam o caminho que conduz ao “ser verdadeiro”, à “verdadeira arte”, à “verdadeira natureza”, ao “verdadeiro Deus”, à “verdadeira felicidade”? Tolstói dá a essa pergunta a mais simples das respostas, dizendo: ela não tem sentido, pois que não possibilita responder à indagação que realmente nos importa – “Que devemos fazer? Como devemos viver?” De fato, é incontestável que resposta a essas questões não nos é tornada acessível pela ciência” (WEBER, 1993, p. 31 e 35-36)

O senso comum, enquanto conhecimento dos simples, está no nível pré-teórico, antecede a teoria. Este saber pré-teórico, segundo Peter L. Berger e Thomas Luckmann (1985, p. 90):

“É a soma de tudo aquilo que “todos sabem” a respeito do mundo social, um conjunto de máximas, princípios morais, frases proverbiais de sabedoria, valores e crenças, mitos, etc., cuja integração teórica exige considerável força intelectual, conforme comprova a longa linha de heroicos integradores, de Homero aos últimos construtores de sistemas sociológicos. No nível pré-teórico, porém, toda instituição tem um corpo de conhecimento transmitido como receita, isto é, conhecimento que fortalece as regras de conduta institucionalmente adequada.”

Este conhecimento é reconhecido objetivamente, pois estabelece padrões e funda-se na rotina. É um saber socialmente constituído “como um corpo de verdades universalmente válidas sobre a realidade”, que não admite desvios. É um conhecimento estruturante da vida, “apreendido no curso da socialização e que serve de mediação na interiorização pela consciência individual das estruturas objetivas do mundo social”. É este o ponto de partida da Ciência.

A Ciência expressa um tipo de conhecimento distinto, mas não necessariamente superior. Assim, longe de representar um saber inócuo, para a maioria das pessoas o saber pré-teórico é suficiente e responde às questões essenciais da vida. Ainda que a ciência esteja presente no cotidiano, não é preciso ser cientista para viver. Invertendo o mito da caverna platônico, talvez devêssemos considerar a hipótese de que são eles – os cientistas, intelectuais, etc. – que estão acorrentados na caverna. Talvez concedamos importância exagerada às nossas “cavernas”, isto é, aos ambientes acadêmicos e intelectualizados e aos nossos saberes temáticos e científicos.

Devemos, ainda, considerar o que Bourdieu denomina de “senso comum douto, que atribui o nome de ciência a uma simples transcrição do discurso do senso comum” (Bourdieu, 2000, p. 44). A ignorância não é privilégio dos simples. Da mesma forma que o inquisidor profere uma sabedoria que só se sustenta pelas armas do poder espiritual e secular, o moderno intelectual profissional propaga um saber dito científico que só destoa dos simples mortais pela auréola que obscurece a verdade e o faz parecer mais sábio do que realmente o é. Em outras palavras, sob o verniz de um saber que se pretende científico, o douto apenas traduz o senso comum numa linguagem pretensamente científica. Afirma o que todos sabem, mas com um discurso doutoral e a legitimação dos títulos acadêmicos e da instituição autorizada.

Não obstante, os pretensos cientistas desprezam o saber comum, menosprezam o vulgo. Recusam-se a descer ao chão social no qual a vida desencadeia-se, com todas as suas riquezas e misérias. Permanecem no Olimpo, no paraíso das abstrações, constroem para si um mundo de ideias, conceitos. Habitam os livros, vivem como se estes fossem a própria realidade. Não se misturam com a gentalha! Na universidade, seus pupilos imitam-nos, demonstram ojeriza ao senso comum, agem como se a vida fora da sala de aula representasse um outro mundo; imbuídos pelo espírito de introspecção pretensamente científica, esquecem de si próprios enquanto partícipes do mundo real, o mundo dos vulgos. Retornam às suas residências e, plenos de verdades inacessíveis aos simples mortais, mostram-se impacientes com seus familiares, amigos e pessoas comuns que não compartilham das verdades aprendidas no campus. As diferenças de saber, ou melhor, as ênfases sobre os diversos conhecimentos, tornam-se focos de discórdias, conflitos. Mundos diferentes se confrontam, formas de expressar o ser-no-mundo tornam-se irreconciliáveis. A linguagem que deveria servir para comunicar, ligar, torna-se fator de distanciamento. Falam línguas diferentes, embora o mesmo idioma. A rejeição do senso comum resulta no afastamento das pessoas comuns que vivem sob a lógica da imediatez cotidiana. No entanto, é neste nível que se produz o saber necessário à vida.


* Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade.


Referências

ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, 1988 (Coleção Primeiros Passos).

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1985.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000.

ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Record, 2012.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

ORTIZ, Renato. (Org.) Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983.

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações; tradução de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 1993.

[1] In ORTIZ, 1983, p. 161.

[2] Não é possível se estender sobre o tema. Mas ao leitor (a) interessado (a), sugiro a leitura de “A ética protestante e o “espírito” do capitalismo” (WEBER, 2004). Para uma leitura introdutória, sugiro “O que é trabalho” (ALBORNOZ, 1988).

[3] Sobre isto sugiro a leitura de “Há vagas para lixeiro!”, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2007/08/24/ha-vaga-para-lixeiro/

[4] O conceito de “segurança ontológica” diz respeito ao “ser-no-mundo”, à confiança. “A expressão se refere à crença que a maioria das pessoas têm na continuidade de sua auto-identidade e na constância dos ambientes de ação social e material circundantes”, escreve Giddens (1999, p. 95). Ainda segundo o sociólogo: “A “segurança ontológica” relaciona-se ao sentimento que temos sobre a continuidade das coisas e das pessoas; um sentimento inculcado desde a infância. A “segurança ontológica” vincula-se, portanto, à rotina, à “influência difusa do hábito” (Ibidem, p.100).

9 comentários sobre “Em defesa dos simples!

  1. Belas reflexões!!!
    Fiquei com ainda mais vontade de ler “O nome da rosa”. Um dos livros que está na minha lista há um bom tempo.

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  2. Olá, Ozaí. Boa tarde! Encontrei o que eu havia visto. Copiei e colei: De fato, rejeita-se os saberes e a linguagem relacionados ao senso comum. Pela norma a forma seria “rejeitam-se”, no plural. Esse “se” é partícula apassivadora. Se você quiser conferir, faça assim: “os saberes e a linguagem são rejeitados”, em que saberes e a linguagem determinaram o verbo no plural. Então na voz passiva sintética, que é o caso, o verbo flexiona no plural. E assim com as placas que vemos: é certo dizer “Vende-se casa”, mas se houver mais de uma à venda, a frase fica assim: “Vendem-se casas” (casas são vendidas). Abraço!

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  3. Os simples ou os invisíveis sociais acabam inseridos na ideia implícita do “não é porque não tem”. A relação de causa e consequência se inverte. Penso que a lógica muitas vezes seria: “Não é porque não lhe foi dada a oportunidade de ter”. E também o “não ser” é carregado de equívocos e depende do olhar de quem vê. Melhor dizendo, depende da visão de quem olha. Neste caso, a retratação deveria ser de inverter os valores vigentes de quem vale, a partir da ideia de quem merece.

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  4. Bom dia, professor Antônio Ozaí. Esse conceito de segurança ontológica era o que eu precisava hoje. Tentei lembrar a ideia e as fontes, que haviam me fugido. Obrigada!

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