Crítica à Ciência!

Devo esclarecer, em especial aos pretensos filósofos da ciência e outros cientistas não menos autorizados, que não me incluo nem entre os apologistas da racionalidade científica e nem entre os que negam sua importância. Não se trata de negar o caráter emancipador da ciência, especialmente, desde as suas origens, o significado esclarecedor, a superação das superstições e da ignorância. Não obstante, o saber científico é apenas um entre outros saberes, os quais são costumeiramente deslegitimados e desqualificados pelos que absolutizam o saber científico. Esta é a tentação totalitária da ciência – no sentido da sua ambição em abarcar todo o conhecimento humano e também enquanto significado político de poder autoritário e colonialista.*[1]

É preciso refletirmos sobre as verdades absolutas que, à maneira religiosa, recebem o manto da “ciência”; que, sob os auspícios da razão, se impõem enquanto padrão que reina absoluto e, em geral, desqualifica qualquer saber que não tenha a sua sanção. Desde a aurora da modernidade, e caminhando pari passu com o poder político e econômico ocidental colonialista, legitimando e legitimado por este, a predominância deste padrão significou a negação de qualquer racionalidade a outros saberes fora do “campo científico”. Mesmo a crítica a determinados aspectos da razão moderna ocidental transita em referência ao mesmo padrão. Entre outros efeitos negativos, impôs-se o silêncio ao “outro”, o colonizado.[2]

É evidente que o conhecimento científico produziu imensos progressos técnicos e possibilitou a melhoria das condições de vida para parcela considerável da humanidade. Como salienta Morin (2003, p. 15-16): “A ciência é, portanto, elucidativa (resolve enigmas, dissipa mistérios), enriquecedora (permite satisfazer necessidades sociais e, assim, desabrochar a civilização; é, de fato, e justamente, conquistadora, triunfante)”.

No entanto, a ciência não é a única manifestação de saber presente e atuante na sociedade. A experiência do senso comum, e mesmo manifestações culturais e religiosas, expressam saberes fundamentais à vida humana.[3] A desqualificação do senso comum pela intelectualidade revela o elitismo e desconsidera o pequeno detalhe de que o próprio conceito também é uma construção histórica:

O senso comum, enquanto conceito filosófico, surge no século XVIII e representa o combate da burguesia emergente contra o irracionalismo do ancien regime. Trata-se, pois, de um senso que se pretende natural, razoável, prudente, um senso que é burguês e que, por uma dupla implicação, se converte no senso médio em senso universal. A valorização filosófica do senso comum esteve, pois, ligada ao projeto político de ascensão da burguesia, pelo que não surpreende que, uma vez ganho o poder, o conceito filosófico de senso comum tenha sido correspondentemente desvalorizado como significando um conhecimento superficial e ilusório. É contra ele que as ciências sociais nascem no século XIX. Mas, ao contrário das ciências naturais, que sempre recusaram frontalmente o senso comum sobre a natureza, as ciências sociais têm tido com ele uma relação muito complexa e ambígua. (SANTOS, 1989, p. 36-37).[4]

Ora, a imaginação, e mesmo as manifestações caracterizadas e rejeitadas como irracionais, também fazem parte do pensar e agir da humanidade, na qual, se não me engano, se incluem os cientistas e os doutos. Será que são racionais full time? A ciência nem sempre é tão racional quanto se presume, mesmo porque também tem a influência da sociedade, do poder econômico e político e da subjetividade do cientista. Basta olhar para o século XX e pensar sobre o que se realizou em nome da razão! Portanto, também é premente se interrogar sobre a pretensão absolutista da racionalidade científica, questionar o seu poder e desvelar os seus aspectos negativos. Nas palavras de Edgar Morin (2003, p. 16):

E, no entanto, essa ciência elucidativa, enriquecedora, conquistadora e triunfante, apresenta-nos, cada vez mais, problemas graves que se referem ao conhecimento que produz, à ação que determina, à sociedade que transforma. Essa ciência libertadora traz, ao mesmo tempo, possibilidades terríveis de subjugação. Esse conhecimento vivo é o mesmo que produziu a ameaça do aniquilamento da humanidade.

É preciso, portanto, fazer a crítica do fetichismo do saber racional científico!


Referências

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

MIGNOLO, Walter D. “Os esplendores e as misérias da “ciência”: colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Cortez, 2004, pp. 667-709.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.


* Este texto é parte modificada de “O Alienista: Literatura, Ciência e Poder”, publicado em maio de 2007, em http://www.espacoacademico.com.br/072/72ozai.htm (site desativado).

[1] Ver “A tentação totalitária da ciência”, de 03/10/2007, publicado em https://antoniozai.wordpress.com/2007/10/03/a-tentacao-totalitaria-da-ciencia/

[2] Mignolo (2004) observa que o processo de imposição da razão científica eurocêntrica é histórico e político. Ele define essa opressão epistêmica, que age sob a capa da cientificidade, como colonialidade.

[3] Sugiro a leitura de “Em defesa dos simples!”, de 05/05/2020, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2020/05/03/em-defesa-dos-simples/

[4] Dado o escopo deste trabalho, não me estenderei sobre a discussão da relação entre Ciência e Senso comum. Contudo, e antes que o leitor me acuse de fazer apologia do senso comum, penso que é preciso refletir sobre esta relação para além da dicotomia Ciência X Senso comum. Só assim é possível superar o elitismo, muitas vezes indisfarçável, contra as manifestações que não se enquadram na cultura acadêmica e, simultaneamente, reconhecer a legitimidade e importância dos saberes em sua pluri-universalidade. Por outro lado, como alerta Pierre Bourdieu (2000), também é necessário refletir sobre o senso comum douto que, com ares de superioridade, se pretende científico. Sugiro a leitura de “Em defesa dos simples”, de 03 de maio de 2020, publicado em https://antoniozai.wordpress.com/2020/05/03/em-defesa-dos-simples/ 


Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade.

6 comentários sobre “Crítica à Ciência!

  1. Sim, Raymundo tem razao tambem, e eu lamento muito seu estado de espirito, que e’ compartilhado por tantas pessoas no mundo, infelizmente.

    Mas, olhando somente o texto, ha’ uma diferenca entre esta anticiencia de hoje, e o que o Ozai’ esta’ sugerindo, voce nao acha? A ciencia e’ importante, fundamental, e uma conquista da humanidade, mas tambem nao e’ a dona de todas as verdades. So’ que, logicamente, como estamos num tempo em que o obscurantismo esta’ jogando suas asas sobre a patria amada, provavelmente voltaremos ao tempo em que sacricaremos dos “curandeiros” que fazem operacoes, usam mascaras (devem ter alguma coisa escondida!), e dao pocoes ao povo.

    Mas nao vamos desanimar! Temos que seguir adiante e nao deixar que esta onda de estupidez que assola o pais nos derrote! Adiante! Podemos escrever! Podemos nos manifestar! Nao sei se poderemos mudar alguma visao dos que foram hipnotizados pelo canto da sereia/olhos da medusa, mas podemos ter animo entre nos. Podemos nos apoiar.

    Espero, sinceramente, que tal seja. Nao vamos nos imolar por causa de um mentecapto que esta’ no poder neste momento.Vamos nos cuidar. Vamos nos festejar, e festejar o que temos de bonito e bom.

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  2. Seu texto me fez lembrar dos anos da ditadura, quando eu estudava no Colegio Gastao Vidigal, ai’ mesmo em Maringa’. Havia um “endeusamento” dos “cientistas” entre nos, como se so’ o que eles sabiam tinha valor. Mais tarde, quando era professora num colegio particular em Apucarana, o professor de quimica uma vez nos disse, na sala dos professores, que fora da ciencia so’ existia bobagem. E por ciencia ele colocava primeiro a quimica, depois a fisica, a matematica, e por fim a biologia, porque estas estavam :sempre certas, nao admitiam variacoes, e sempre davam a resposta incontestavel”. Quanta ignorancia. O que responder? Ele era produto de um tempo, e logicamente era simplesmente um pobre professor mal pago, numa cidadezinha do interior do Parana’, com seus proprios problemas. Eu tive o bom senso de nao lhe responder, porque diante de tal tolice, o melhor mesmo e’ manter o silencio. Continuei corrigindo as composicoes de meus alunos, e fiz bem.

    Hoje, talvez eu lhe respondesse porque depois de tantos anos, sabemos muito bem que mesmo as tais ciencias “exatas” sao muito inexatas, alem de serem racistas e sexistas. Mas qual seria o ponto? Quem sabe ele tinha um trauma qualquer com algum professor de literatura? de linguas estrangeiras? de artes? Sabe-se la’…

    Hoje eu sei, por experiencia propria que a literatura, porque nao se diz dona da verdade, pode ir alem das ciencias, expondo e incentivando algo que e’ tao ou mais importante que aquilo que existe somente no plano da materia, como voce mesmo diz: a imaginacao. E tambem a beleza. E a capacidade de reconhecer nosso lugar na sociedade, na natureza. E muito mais. Nao ha’ respostas incontestaveis na vida, da mesma forma que nao existe uma verdade unica que nao admite dialogo. Existe imposicao, sempre dos mais fortes contra os mais fracos.

    Lembrando daquele professor de quimica do passado, tao orgulhoso da sua ciencia que dava respostas a tudo, imagino o que ele diria de uma pessoa como J. K. Rowling, a autora dos romances Harry Potter (so’ pra pegar um exemplo atual), que nao estudou quimica, nem matematica, nem as “ciencias,” e que e’ uma mera escritora. Nao acho que ele conhecia Machado de Assis… ou qualquer outro grande escritor brasileiro.

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    • Bom dia!
      Sim, concordo plenamente. E a literatura pode contribuir muito para repensarmos nossas verdades e também para atravessarmos os piores momentos da vida. A propósito, como informado no blog, esta reflexão é parte de um texto maior sobre “O alienista”, de Machado de Assis. Muito obrigado. Abraços

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  3. Boa tarde!
    Imagine que seu aluno critica o livro e/ou texto que você solicitou a leitura sem ter lido ou apenas pelo título? Sabemos que isto não é tão incomum na prática docente. Você concordaria com este procedimento do seu aluno? Imagino que não! Desculpe, mas não é pedagogicamente correto, no mínimo, criticar algo sem ter lido. Se não quiser ler, não leia, Aliás, se tivesse lido talvez você se poupasse o trabalho que teve. Por outro lado, você deve saber que não estou entre os que você cita e critica em sua argumentação. Mas seu comentário pode ter uma repercussão não intencionada. Claro, eu poderia simplesmente não tê-lo aprovado, mas não é da minha índole nutrir a intolerância em relação a quem pensa diferente – ainda que você não tenha lido o que critica. Abraços

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  4. Ainda não li seu texto-ensaio. Mas neste momento em que a ciência é TERRIVELMENTE NEGADA pelos “negacionistas” made in obscurantismos e fascismos de governos (Brasil, Belarus, Nicarágua, Turkomenistão, entre outros) sinceramente, não me animo a ler. Confesso que estou com medo do movimento anticiência. Antes da pandemia ele caminhava poderoso, com milhares de seguidores, cujo foco era negar as mudanças climáticas, negar que a terra era esférica e negar que vacinas preveniam doenças… Antes, nós professores éramos xingados e agredidos, primeiramente por alunos indisciplinados, depois por pais e agentes da extrema-direita. Para eles todos os professores são “esquerdopatas”. Parece que a fita de Moebius hoje fornece uma boa metáfora que une extrema-direita e extrema-esquerda; a primeira escudada na ignorância e no fundamentalismo religioso, a segunda, escudada na suspeita de a ciência ser instrumento do capital, contaminada pelas ideiologias, de não ser suficientemente objetivista. Assim a ciência caminha sendo agredida dos dois extremos. Mesmo de lugar que deveria sustentá-la, as universidades. Hoje, as universidades particulares já são ANTICIÊNCIA, em nome da hipertecnologia e mesmo ensino-pesquisa e extensão “em nome de Deus”. As públicas ainda exite um fiapo de laicidade e razoabilidade. Enfim, SINCERAMENTE, estou tão dolorido, angustiado, em desalento, com tantas mortes pelo mundo em paradoxo coma as aparentes vitórias aos negacionistas, dos movimentos anti-vacinas, das carreatas anti-medidas de isolamento social, anti OMS, anti dados e pesquisas científicas, que NÃO ME ANIMO ler sobre críticas as ciências (ou à ciência?), que são muitas, mas lembremos que ela é um “modo de pensar sistemático” (C.Sagan), e é imperfeita porque é “demasiadamente humana”. Mas como é a democracia, não há rezas e orações para enfrentar uma pandemia, mas sim, a expectativa de uma vacina ou medicamento eficaz. Lamento, mas acho ser uma hora politicamente inadequada para criticar a ciência ou as ciências. Lamento.

    Curtido por 1 pessoa

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