É possível dialogar com bolsonaristas?

Diálogo
sm
Troca de ideias, opiniões etc., que tem por finalidade a solução de problemas comuns; comunicação.

Dialogar
vtd
Procurar entender-se (com outras pessoas ou grupos) tendo em vista a superação de problemas comuns; comunicar-se.
Dicionário Michaelis

Foto do autor (04/05/2014)

A pergunta que inspirou esta reflexão surgiu a partir da realidade política e social que vivemos desde a campanha eleitoral de 2018. O passar do tempo não diluiu o fanatismo dos/as seguidores/as mais aguerridos do líder. Pelo contrário, intensificou-o. Afinal, é possível dialogar com os/as bolsonaristas? Não, não é possível. E poderíamos terminar aqui. Contudo, continuemos! Talvez contribua de alguma forma…

A resposta conclusiva não é apressada. Adotamos as eleições de 2018 como ponto de partida. A campanha eleitoral de 2018 acirrou os ânimos, intensificou a polarização político-ideológica, cindiu a sociedade brasileira e abalou os frágeis alicerces das relações humanas. Em todas as esferas, as discussões acaloradas romperam os limites da racionalidade e os liames que sustentavam as amizades e laços familiares. A impetuosidade deu lugar à agressão recíproca. As emoções exacerbadas, ensandecidas pelas opções políticas, fizerem emergir os ressentimentos e os aspectos traumáticos e mal resolvidos. O resultado foi a ruptura, muitas vezes definitiva, entre pessoas que se gostavam, se amavam. Em muitos dos casos, o diálogo e a reconciliação tornaram-se impraticáveis e foram suplantados pela decepção, dor e sofrimento recíprocos. Mesmo nas situações em que os vínculos foram reatados, ficou explícito que dificilmente seriam os mesmos de antes. Em muitos dos casos as rupturas se aprofundaram. Há quem até faça questão de manter o distanciamento.

Só existe diálogo quando existe a propensão a conversar. Dialogar é diferente de polemizar. Invariavelmente, a polêmica se impõe e tende a suplantar o diálogo. [1] Não há condições para o diálogo quando não existe a predisposição a ouvir. Seja como for, não é possível se isolar completamente dos bolsonaristas. Eles/elas estão no convívio familiar, nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nas salas de aula, etc. Muitas vezes, nos provocando. O que fazer?

Primeiro, sejamos condescendentes. Precisamos identificar graus de adesão e fidelidade ao discurso e prática bolsonarista. Há eleitores, simpatizantes e militantes. Os 57.797.847 que votaram no candidato vitorioso não são, necessariamente, bolsonaristas. As opções de voto são definidas por vários fatores, inclusive pela repulsa ao petismo. Nem todo eleitor do presidente é um seguidor devoto. Muitos se arrependeram e até mesmo políticos que aproveitaram a onda bolsonarista da época eleitoral romperam. Também isto deve ter influenciado o eleitorado.

Com efeito, o fanatismo é proporcional à maior ou menor qualidade de adesão. Ou seja, é impossível dialogar com a militância bolsonarista, mas estas pessoas são a minoria dos milhões que votaram nele. Por outro lado, é possível identificar graus de fanatismos entre os que não são militantes, indivíduos indispostos ao diálogo. Não obstante, o passar do tempo desnuda as ilusões, favorece a reflexão racional, desativa as bombas emocionais que ameaçam nos explodir e revela-se antídoto à irracionalidade. Favorece, portanto, o arrefecimento da discórdia, a reconstrução das relações humanas e a reconciliação. Em que medida isto acontece, não sabemos. De qualquer forma, é necessário nutrir a paciência, tentar compreender as motivações e causas – compreender não é concordar! – e, sobretudo, abandonar a postura de intolerância. Isto, claro, nos casos em que for observada a mínima propensão à conversa, ao diálogo.

É preciso, portanto, delinear a realidade e contextos. No plano das relações pessoais, nos locais de trabalho e ambientes familiares, a probabilidade da convivência pacífica, ainda que tensa, é maior. Há outras urgências e problemas que extrapolam as divergências políticas e ideológicas exigem a ação comum. Mas é necessário o esforço recíproco ou, no mínimo, que um dos contendores demonstre um alto grau de paciência e capacidade para não tumultuar a relação.

UEM, 10/07/2019 – Foto do autor.

Segundo, precisamos aceitar o fato de que a ignorância está presente em todas as áreas e grupos sociais. Desconhecer, não saber, ignorar, enfim, não é exclusividade, nem se define pela postura política e ideológica. Todos ignoramos algo até aprendermos; então, a cada aprendizado, descobrimos que somos ignorantes em relação a outras questões. A vida é complexa e o conhecimento infinito. Portanto, não contribui para o diálogo rotular os demais de ignorantes quando a questão é política. De fato, não se trata de tirá-los da ignorância porque o que fundamenta a sua posição não é o desconhecimento, mas sim a crença. Contra crenças que se fundam em verdades absolutas, o saber se revela inócuo. Observem que isto acomete qualquer pessoa, independentemente do nível de educação formal. Assim, é ingenuidade imaginar que o conhecimento histórico tem o poder de libertar o indivíduo da sua caverna.[2] Até porque a história está sempre em disputa e, portanto, passível de interpretações diferentes e até mesmo antagônicas.

Terceiro, o fanatismo não é exclusivo das hostes bolsonaristas. O fanático se faz presente nos diversos contextos históricos e culturais. Seu fundamento é a irracionalidade, a crença cega e o ódio a tudo o que questiona suas certezas e/ou não cabe na sua mente. Infelizmente, esta é uma das características humanas – é melhor reconhecê-la do que adotar o princípio do avestruz. O fanático é capaz de ferir e matar o outro pelo simples motivo de que este torce para o time rival, por ser de outra denominação religiosa – embora acredite no mesmo Deus, por pensar diferente dele, etc. A intolerância está presente nas relações humanas, mas no fanático ela é o meio de extrapolar o ódio, torna-se incontrolável. O fanatismo tem um cunho irracional religioso do qual não estão isentas nem mesmo as ideologias seculares.

Portanto, não pode haver diálogo enquanto uma espécie de intolerância se contrapõe a outra; quando um fanático se opõe a outro. Reconhecer isso, nos leva a admitir que também temos os nossos fanáticos e intolerantes, os quais, a bem da verdade, dificultam e impossibilitam a conversa em nosso próprio campo, entre nós, entre os nossos. Imagine, então, quando o outro é bolsonarista! Nestas circunstâncias, a possibilidade de dialogar encontra-se reciprocamente interditada. Crenças que se opõem radicalmente se excluem mutuamente.

Isto é ainda mais agravado pelo fato de que o irracional não o é para aquele que crê. Em outras palavras, a fé também tem um aspecto que se pretende racional – ainda que o seu oponente a considere própria do irracionalismo.[3] O crente acredita no absurdo, mas o absurdo é concebido racionalmente. Se o sono da razão produz monstros, como dizia Francisco Goya, a razão não está isenta de produzir e nutrir monstruosidades e pesadelos dos que sonham acordados. A propósito, os monstros com corporalidade e expressão política – os racistas, homofóbicos, feminicidas, misóginos, etc. – não são inumanos. Os nazistas, fascistas, stalinistas, e outros, por exemplo, são pessoas de carne e osso, homens e mulheres de família, homens e mulheres de bem, humanos, demasiadamente humanos. É equivocado concebê-los como alheios e desprovidos de humanidade.[4] Nada mais complexo do que o ser humano!

Sejamos sinceros: inexiste entre nós uma cultura democrática consolidada. A personalidade autoritária habita não apenas os que destilam ódios e constroem muros reais e imaginários que nos separam, ela também está presente entre os pretensos democratas e outros plenos de boas intenções, autoproclamados revolucionários. Aliás, às vezes a intolerância irrompe em espaços que se pretendem essencialmente racionais e é expressa por pessoas que se consideram as melhores do mundo! Outro aspecto agravante é a tradição autoritária da nossa formação social. Entre nós, o autoritarismo não advém apenas do poder político, mas permeia as nossas relações em todas as esferas. É uma cultura presente na sala de aula, nas relações familiares, nos ambientes de trabalho e até mesmo nos espaços que exercitam a democracia – o que favorece a personalização até mesmo de uma simples eleição para a direção de uma creche, do departamento no qual você trabalha, para a reitoria da sua instituição, etc. O político se torna pessoal e a irracionalidade impera. A violência espreita e, não raramente, irrompe – seja fisicamente e/ou na agressividade verbalizada. Eis a face perversa da política!

Será possível evitar este desfecho?! Depende de vários fatores, e não apenas da nossa vontade pessoal. Seja como for, podemos agir com tolerância e compreensão, tentando construir pontes em vez de muros e, talvez, consigamos estabelecer regras de convivência civilizada no cotidiano. Porém, não existe receita infalível para uma convivência minimamente civilizada. Nem tudo é tolerável: não podemos tolerar o racismo, a homofobia, o feminicídio, os ataques à democracia, as injustiças e a desigualdade social, etc. Há momentos e espaços em que a impossibilidade de dialogar se impõe.

Quando o outro é concebido como o inimigo, quando o ódio e o fanatismo imperam não há diálogo possível, não existe espaço para a argumentação. Nestas circunstâncias, só nos resta o distanciamento e a resistência. Contra a força da violência não há argumento racional que possa freá-la. Só nos resta preparar a defesa! Se conseguirmos estabelecer o diálogo com os não-fanáticos, ainda que bolsonaristas, nossas chances de não sucumbirmos à truculência da tropa de choque militante será maior. Não obstante, em política o decisivo é a organização e a mobilização. Este é o caminho da resistência!

 

Referências

FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1975.

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


[1] Esta questão foi tema da minha reflexão em “Sobre o elogio, a crítica e a polêmica” (22/09/2012) e “Vale a pena polemizar?” (15/10/2011), disponíveis em https://antoniozai.wordpress.com/2012/09/22/sobre-o-elogio-a-critica-e-a-polemica/ e https://antoniozai.wordpress.com/2011/10/15/vale-a-pena-polemizar/

[2] Ver “Crise política e mistificação da história!”, 27/03/2016, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2016/03/27/crise-politica-e-mistificacao-da-historia/

[3] Max Weber (2004, p. 175) chamou a atenção para este aspecto: “Nunca uma coisa é “irracional” em si, mas sempre de um determinado ponto de vista “racional”. Para quem é irreligioso, toda conduta de vida religiosa é “irracional”, assim como para o hedonista é irracional toda conduta de vida ascética, por mais que, levando-se em conta o valor último de cada qual, se trate de uma “racionalização”. Ou, nas palavras de Julien Freund (1975, p. 105-106): “Com efeito, acontece tratarmos como irracional uma atividade em razão de um ponto de vista exterior mais racional, embora ela comporte em si mesmo uma racionalização. A um ser irreligioso toda conduta religiosa parece irracional, da mesma forma que o ascetismo passa por irracional aos olhos do hedonista puro. O inverso é igualmente verdadeiro. Em suma, em geral a discriminação entre o racional e o irracional se faz em nome de certos valores que preferimos a outros, quando no fundo toda ideia de valor repousa sobre um momento subjetivo e irracional”.

[4] Sugiro a leitura de “Sobre monstros e inumanos”, 25/04/2016, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2016/04/25/sobre-monstros-e-inumanos/


Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade.

10 comentários sobre “É possível dialogar com bolsonaristas?

  1. Ozaí, muito valorosa a sua colocação sobre o autoritarismo nosso de cada dia. E a sociedade brasileira é autoritária em genero, número e grau. E o contexto do ressentimento nos pequenos espaços é que promove esses monstros que temos aí. Creio que a saída para mossos tempos passa sim, como falas, por construir pontes ao inves de muros. Só que, para isso, é necessário a volta – se é que podemos considerar que algum dia houve – da honestidade política, bem como de uma construção de consciência social em ampla escala. Mas, lutar pela equidade nunca foi tão difícil em nossa geração. Abraços,

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  2. Ainda nos melhores tempos sempre e’ muito dificil a gente dialogar… Talvez antes fosse ainda possivel, mas esta figura do inominavel e’ um divisor de aguas. Seria como tentar dialogar com gente que defende a destruicao dos indigenas, que faz piada do virus, que nao respeita mulheres, que far “arminha” com a mao… pera ai’! Isso mesmo e’ que o inominavel faz!

    Entao, em resumo: eu ainda perdoo quem votou no inominavel por tolice, por ter sido hipnotizado pelos trolls do Facebook e da midia da direita rabida, mas depois se arrependeu.

    O que nao e’ possivel e’ gente que pensavamos que tinha pelo menos dois neuronios na cabeca, votaram no coiso, e agora AINDA continuam defendendo o inominavel! Ah, nao. Temos que nos poupar. Eu me recuso a falar com gente assim, do mesmo jeito que me recuso a considerar que outros monstros da historia da humanidade tinham “suas razoes” para fazerem o que fizeram. Nao tem razao que explique (e muito menos perdoe) este mentecapto e seus seguidores estarem agora sujando o palacio do Alvorada.

    Haja agua sanitaria pra desinfetar aquilo quando ele sair…

    Dia vira’!

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  3. O processo de disputa ainda se encontra cevado. A democracia carece de uma ferramenta eficaz no combate ao estilo fascista e insano. Difícil o diálogo com o bolsonarista. Mas concordo, se não rompermos barreiras ficará impraticável o convívio dos diferentes.

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