Sobre o amor pela literatura

Elisa, 22 de julho de 2019 (foto do autor)

Minha vida tinha tomado o caminho errado,
e meu contato com os homens não era mais do que um monólogo interior.
Havia descido tão baixo que,
se tivesse que escolher entre ficar apaixonado por uma mulher e ler um bom livro,
eu preferia o livro”.
(Nikos Kazantzakis) * **

 

Prefiro a literatura aos escritos sisudos, chatos e ininteligíveis dos teóricos metidos a filósofos, sociólogos e outros pertencentes à fauna das Ciências Humanas. Admiro, sobretudo, a capacidade dos que escrevem de maneira bela e inteligível sobre a complexidade da vida. Os que expressam as tragédias e alegrias humanas, com as quais, em qualquer época e lugar nos identificamos. No fundo, mudam os tempos, os costumes e os governos, mas permanecemos os mesmos. Daí a admiração em relação a estes autores que compreendem a alma humana. Seus personagens nos dizem respeito; é da vida que eles nos falam.

A literatura arrebata o espírito e nos permite um aprendizado prazeroso em todos os aspectos: histórico, político, social, cultural etc. Como não se enredar com os escritos clássicos? Seus personagens, contextos e descrições, nos fazem viajar no tempo: a imaginação vagueia saborosamente nos recônditos do ser humano e seus dilemas; em nossos devaneios, nos identificamos com os seus personagens, suas misérias e alegrias.

Como não se emocionar com o sofrimento de Anna Karênina (Tolstoi) e também com a sua coragem em enfrentar a hipócrita sociedade da época? Como passar incólume diante dos personagens de Dostoiévski, expressão dos dilemas humanos diante do mal e do bem? Como não se admirar ante a ambição desmedida de Luciano (Balzac) e Julien Sorel (Stendhal)? Como não se comover com o trágico desenlace da trajetória de ascensão e queda deste filho de camponês, que tão bem expressa as contradições sociais e os preconceitos elitistas contra os que vêm de baixo – ou mesmo o sentimento de desgarrado dos que ascendem socialmente, mas tem consciência das suas raízes sociais? Como não sentir admiração ante a luta hercúlea de Gilliatt (Victor Hugo) contra a natureza impetuosa e o preconceito? Que dizer então do relato sobre a viagem de Dante Alighieri às profundezas do inferno? Não é admirável tamanha imaginação para descrever o indescritível? Qual mente fértil poderia nos remeter para o absurdo de Gregor Samsa, metamorfoseado num inseto monstruoso, ou o processo contra J. K., senão a de um escritor criativo como Franz Kafka? E, ainda, o que dizer sobre o envolvente O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e a sua admirável simbiose entre política, religião, história e mistério? E Marguerite Duras, Milan Kundera e Vladimir Nabokov não são exemplares na arte de descrever as complexas relações homem-mulher em idades e situações tão díspares? E a capacidade dos nossos autores maiores em contextualizar a realidade socioeconômica do povo brasileiro e desvendar os liames que explicam o fosso abismal entre a opulência da elite e a miséria da população? É possível ler Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo, e não se indignar com a elite, os políticos, o bacharelismo e o doutorismo insolentes?

Amo a literatura, sou apaixonado pelos livros. Sou daqueles que preferem manusear os livros diretamente nas estantes da biblioteca à consulta tranquila e bem-acomodada diante do monitor do computador – ainda que leia obras em formato digital. Sou daqueles que se deliciam em passar horas a visitar as livrarias – o único lugar que faz valer a pena ir a um shopping – e folhear os livros; do tipo que se demora em sebos, procurando raridades e autores preferidos. Dessas visitas aos antigos e sebosos, fico com os olhos lacrimejantes e vermelhos, o corpo cansado e impregnado de pó. O esforço é imenso. Mas, suprema alegria!, descubro um livro que vale a pena ler! Como é grato e nos enche de contentamento descobrir, em meio às centenas de exemplares, um livro que nos chama a atenção, que nos convida à leitura.

Sou apaixonado pela palavra e me deleito com a beleza e criatividade manifesta na construção de uma frase e de uma descrição bem elaborada. Forma e conteúdo amalgamam-se e nos conduzem para além do nosso ser. Às vezes, no ato da leitura, detenho-me com admiração diante das palavras esculpidas no papel. Sim, trata-se mesmo de uma obra de arte! São palavras que marcam profundamente, que nos fazem refletir sobre a beleza e a simplicidade do viver.

Sou, portanto, insuspeito de não gostar dos livros, de não os querer bem ou de desestimular os leitores. Contudo, como o personagem de Nikos Kazantzakis, não quero tornar-me um “camundongo comedor de papiros” e sucumbir à realidade dos livros. Receio que a vida, em toda a sua plenitude, com o belo e o horripilante, o bem e o mal, o agradável e o execrável, as pequenas alegrias e as enormes tristezas, etc., se esvaeça e se restrinja ao mundo imaginário e fantasmagórico dos personagens e situações descritas nos livros. Com efeito, o amor excessivo pode gerar efeitos perversos, como a fuga da realidade e o culto ao livro. Mas deixemos isto para outro momento!

* Este texto é parte modificada de “Ler faz bem ou mal?!”, publicado em abril de 2004, em http://www.espacoacademico.com.br/035/35pol.htm (site desativado).

** KAZANTZAKIS, Nikos. Zorba, o grego. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978, p. 97.


Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade. 

3 comentários sobre “Sobre o amor pela literatura

  1. Ozai: dentre todos os vicios possiveis, o vicio de amar a literatura deve ser o menos perigoso. Mas em nossos dias a leitura e’ desestimulada. Ler um romance toma horas, talvez dias. Hoje, tudo tem que ter retorno imediato, e a atencao das pessoas esta’ cada vez mais curta, talvez resultado dos filmes, dos textos que nos enviamos por telefone, cheios de siglas que podem significar varias coisas, e acabam nao significando nada.

    Ler e’ um ato antisocial. Quando estamos mergulhados num livro, nao podemos estar conversando, “chateando,” olhando o facebook e outras coisas. Alias, pelo que se pode ver pelas ruas e ver o pessoal dando de cara em postes por estar olhando o telefone, nao e’ que as pessoas nao leem: elas leem mensagenzinhas curtas, zilhoes delas, com sentencas simples, sem conjuncoes, sem reflexao.

    E’ triste, mas talvez a nossa seja a ultima geracao que encontra genuino prazer em ler um romance, um livro de contos. Admiravel mundo novo, este que vem ai’. Mas nao tera’ maravilhas, ou pelo menos nao tera’ as maravilhas que nos maravinham.

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    • Bom dia. Muito obrigado por suas palavras. Adorei seu comentário e concordo. Apenas sou mais otimista. rsrsrss Penso que não seremos a última geração. Ler livros sempre foi uma atividade restrita a um pequeno grupo e penso que continuará assim. Aqui na cidade tem vários clubes de leitura e a presença de jovens é admirável. Também penso na Elisa. Ela adora que leiamos com ela e contemos as histórias. Fica superfeliz quando o livro do mês chega. Mérito da minha filha que incentiva a leitura. Por fim, sua definição da leitura como “um ato antissocial” é precisa. Não havia pensado nesta perspectiva. Você está certa. É um momento do indivíduo, voltado para si mesmo e a conexão com a leitura. Talvez por isso as pessoas estranhem quando lemos em lugares públicos. rsrsrsrs Obrigado por tudo. Abraços e ótima terça-feira

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