Dom Quixote e os perigos do amor excessivo aos livros

Universidade Estadual de Londrina (UEL), 2 de agosto de 2019 (Foto do autor)

“Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou,
que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim,
do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro,
de maneira que chegou a perder o juízo.
Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros,
assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas,
requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis;
e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação
ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia,
que para ele não havia história mais certa no mundo”.
(Miguel de Saavedra de Cervantes)* *

Amo as palavras, os livros.[1] Sou leitor desde a mais tenra idade.[2] Não obstante, não me incluo entre os que fazem uma espécie de culto ao livro, sem a devida reflexão a respeito das condições materiais e contextos históricos e os riscos do amor excessivo às obras. Primeiro, devemos observar que um livro é uma mercadoria – cujo valor é inacessível para a maioria das pessoas. Segundo, o acesso aos livros via bibliotecas públicas não é uma realidade universal. Terceiro, mesmo onde a possiblidade de adquirir e/ou emprestar os livros é uma realidade, nem todos são leitores(as) – o que não significa que não leiam outros textos. Quarto, o hábito da leitura não nos torna necessariamente melhores que as pessoas que não leem livros.

Mas, nos concentremos no(a) leitor(a) das obras literárias. Conhecemos pessoas que parecem viver nos livros e pelos livros! Parecem não viver outra realidade que não caiba nos livros. Realizam o milagre da transfiguração: irradiam-se a partir dos livros. Suas vidas reais são transportadas para as obras literárias. Um exemplo: certa feita alguém comentou sobre a irmã que estava morrendo com câncer. Provavelmente, esperava uma palavra de apoio, um abraço, enfim, um afeto, ainda que silencioso. Seu interlocutor, porém, reagiu com um comentário sobre uma personagem de determinada obra que padecia da mesma doença e faleceu. Evidentemente, ele não agiu por maldade ou sadismo. Pelo contrário, talvez até tivesse a intenção de reconfortar. Simplesmente, não desceu das alturas do mundo das ideias, do universo das ficções literárias. Com efeito, um dos perigos da leitura excessiva é a tentação de fugir da realidade e substituir o concreto pela abstração das palavras. Este tipo de leitor prende-se ao mundo das ideias. Seu espírito é arrebatado à concretude da vida. Então, esquece-se de si mesmo e mergulha no mundo dos livros. Quando emerge ainda se encontra atado à ficção.

Bendito seja quem reconhece o risco do delírio causado pelo excesso de leituras ou tem um amigo que lhe adverte do mal que padece. Na pior das hipóteses, quando o leitor se desgarra da realidade mundana para viver no mundo dos livros, é preciso tentar compreender sua insanidade e agir ao modo de Sancho Pança. Os fissurados em livros nos fazem lembrar o personagem clássico criado por Miguel de Cervantes: Dom Quixote. Este, de tanto ler, enlouqueceu.

Rimos com as peripécias do Cavaleiro da Triste Figura, em seu mundo fantasioso e suas batalhas contra os moinhos de ventos e criaturas que só existem em sua cabeça, mas nos irritamos e tendemos a nos afastar dos que agem como Dom Quixote. O personagem da vida real, o Dom Quixote contemporâneo, nos enlouquece de tanto falar sobre livros e teorias. Tal qual o fanático religioso, político ou futebolístico, ele tem dificuldade de se relacionar com indivíduos que não comunguem da sua compulsão, que, em sua visão, não se encontrem preparados para conversar sobre os temas que ele considera importantes. No limite, ele despreza os que não leem livros, ou os seus livros, e não os consideram inteligentes o suficiente para entabular um diálogo profícuo. Seu mundo restringe-se aos livros e aos que compartilham da sua mania de conversar sobre os livros. Ele não percebe o quanto é vítima da bolha protetora que construiu ao seu redor. E se os outros se afastam por não suportarem a sua chatice, os seus “papos cabeça”, ele se fecha ainda mais em seu círculo imaginário. Para ele, os outros são alienados que só sabem falar sobre a pequenez da vida humana. Em seu delírio, os homens e mulheres, mortais e simples, não merecem a sua palavra. Não porque ele, necessariamente, tenha preconceitos, mas sim porque, do alto da sua inteligência, ancorada nas leituras, lhe parece que o outro nunca o compreenderá e, portanto, não vale a pena gastar o seu precioso tempo com este.

O leitor obsessivo sacraliza os livros, idolatra-os, transforma-os em código de conduta, assunto permanente, faz desta relação uma espécie de culto. Mesmo quando parece conversar sobre as coisas mundanas, na verdade estabelece um monólogo cujo referencial não é o outro, mas as suas leituras. Ao seu interlocutor resta aceitar seu dissertar ou correr o risco de confrontá-lo com o silêncio ou a objeção. Esta, desde que inserida nos termos do discurso livresco, pode ser aceita. Mas não se tente, em hipótese alguma, arrancá-lo dos seus devaneios, das suas abstrações conceituais, que lhe parecem tão imprescindíveis.

Muitos dos que amam excessivamente os livros sofrem muito se os separam deles – quem sabe até mais do que se os afastam dos amigos ou familiares. Em seu êxtase, os livros se tornam o mais importante, o essencial, e as relações humanas reais, apêndices. Tal qual o Cavaleiro Andante, vive as aventuras imaginárias e é nestas que busca argumentos para se contrapor ao real; suas batalhas são fictícias. A vida real lhe aparece como uma teoria a ser desvendada, um argumento a ser abstratamente construído e expresso em palavras. Sua loucura é racionalizada, pois que se fundamenta na realidade dos livros. Porém, ao contrário do personagem de Cervantes, seu mundo se restringe ao seu escritório e à sua relação amorosa com os livros. Dom Quixote abandonou a casa e os livros e foi viver a sua fantasia em andanças pelo mundo real. Em suas aventuras, ele se mostra mais virtuoso do que o melhor leitor isolado em sua torre de marfim. A este é fácil o combate, pois lhe parece que, à frente dos seus livros e do teclado do computador, ele derrotará todos os que ousam se insurgir contra as suas verdades. Eis uma enorme diferença: ainda que louco, Dom Quixote correu riscos reais para defender a sua loucura. Simbolicamente, ele expressa a luta dos que combatem, sob o risco da própria vida, os moinhos de ventos, isto é, realidades que estão diante dos nossos olhos e poucos conseguem enxergá-las. O Dom Quixote contemporâneo é um chato, comprometido apenas com ideias abstratas, quando muito efetivadas em debates inférteis e insuportáveis.

O Dom Quixote moderno adora dançar o “balé dos conceitos”.[3] Seu gozo consiste em falar, falar e falar… Ele se realiza em conversas literárias. Acredita que a obra literária é incondicionada, “que existe em si e por si, agindo sobre nós graças a uma força própria que dispensa explicações”. Elitista, imagina que o escritor é uma espécie de gênio da humanidade, cuja originalidade decorre de uma “virtude criadora” e “misteriosamente pessoal”.[4] Ele romantiza a literatura, desvincula-a do contexto histórico, das condições que influenciam mutuamente escritor e leitor. No fundo, ele se imagina um gênio em potencial.

Ler é essencial, prazeroso e nos faz bem. Porém, pode fazer muito mal. Depende da nossa capacidade de interagir com a realidade que nos cerca, de não nos deixarmos cair na tentação elitista e desconsiderar o mundo e a cultura não erudita. Afinal, por mais que nos envolvamos com a literatura, o real é mais cruel do que as crueldades encontradas nos livros; e a miséria humana não se restringe às palavras e conceitos. Triste do leitor que se deixa extasiar a ponto de se transplantar para um mundo abstrato e imaginário. Triste de quem prefere lidar com as palavras a lidar com os homens e mulheres que pronunciam as palavras – ainda que estas não sejam agradáveis aos ouvidos. Afinal, como diria o filósofo Zorba, de que nos serve todos os livros se permanecemos sem respostas para os dilemas mais simples que dizem respeito à vida e à morte?

Ler pode fazer mal! E faz, mas depende do leitor, da leitora. Em geral, a leitura faz bem e é fundamental em nossa formação humana e intelectual. Leia, se permita viajar pelo mundo da imaginação. Mas não se iluda, não perca a noção dos limites entre a realidade e a representação desta. Sobretudo, não substitua a vida real pelos livros. Viver é muito mais complexo e enriquecedor. A leitura é parte da vida, mas viver não se resume a ler e a conversar sobre livros.

* CERVANTES, Miguel de Saavedra de. Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 30.

* Este texto é parte modificada de “Ler faz bem ou mal?!”, publicado em abril de 2004, em http://www.espacoacademico.com.br/035/35pol.htm (site desativado).

[1] Ver: “Sobre o amor pela literatura”, 24 de maio de 2020, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2020/05/24/sobre-o-amor-pela-literatura/

[2] Ver: “Inventário de leituras (1)”, 09 de fevereiro de 2008, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2008/02/09/inventario-de-leituras-1/ ; e “Inventário de leituras – De volta às origens (2)”, 23 de maio de 2009, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2009/05/23/inventario-de-leituras-de-volta-as-origens-2/

[3] Esta expressão, utilizada por Paulo Freire e Ira Shor (1986, p. 131), refere-se ao típico intelectual que tende a separar a palavra do mundo, o conceito da realidade. Nele, as palavras dissociam-se da vida real, das contradições, sofrimentos e esperanças. “Em última análise, tornamo-nos excelentes especialistas, num jogo intelectual muito interessante – o jogo dos conceitos! É um “balé de conceitos” afirmam. In: FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 131.

[4] CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo: T. A. Queiroz; Publifolha, 2000, p. 67.


Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade. 

2 comentários sobre “Dom Quixote e os perigos do amor excessivo aos livros

  1. Quem também faz uma que pode entrar nessa polêmica é Schopenhauer. Para ele, quem lê muito perde a capacidade de pensar por si mesmo. Independente de concordar com ele, acho interessante citar: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis.” (Sobre a leitura e os livros. In: A arte de escrever)

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