“O Óleo de Lorenzo” e “Patch Adams”: a arrogância titulada

“A sabedoria vale mais que a força;
mas a sabedoria do pobre é desprezada
e às suas palavras não se dão ouvidos.”
(Eclesiastes 9: 16) *

Imagine-se no lugar da criança submetida à arrogância professoral, do estudante sacrificado no templo dos pequenos profetas, ávidos e autoritários; imagine-se nos corredores do hospital, submetido à autoridade dos médicos e burocratas e sem outra opção a não ser esperar e esperar… Imagine que, apesar de toda a cumplicidade com as autoridades instituídas, você se encontra em uma situação desesperadora, para a qual a ciência não tem resposta?

O filme O Óleo de Lorenzo[1] ilustra bem esta situação. Trata-se da história de uma criança que tem uma doença rara e, pelos prognósticos dos doutos cientistas, não viverá muito. Logo nas primeiras cenas um fato se sobressai: o sofrimento ao qual o menino é submetido e as dificuldades da ciência em diagnosticar. A fala fria e científica do médico, ao informar o diagnóstico, contrasta com o desespero do pai e da mãe de Lorenzo. A mãe pergunta se não há uma remota possibilidade de cura, se ele tem certeza. O doutor responde, secamente: “Absoluta”. Só resta a resignação.

Em Patch Adams – o amor é contagioso[2], fica claro como se chega à objetividade científica traduzida em gestos e falas que mais se assemelham a autômatos. O filme é sobre um homem com tendência suicida que, no hospício, descobre um sentido para a vida: ajudar o próximo. Nesta busca do outro, ele decide fazer o curso de medicina. Na faculdade, entra em choque com a burocracia e, principalmente, com a filosofia de ensino defendida pelo professor-reitor. O paciente se submete à autoridade do médico, o que atesta o seu poder. Como o poder causa dano, a solução apregoada pelo reitor para evitar ou minorar as consequências é a recusa dos sentimentos e a valorização absoluta da objetividade científica. Nesta perspectiva, a tarefa dos professores é desumanizar os futuros médicos, isto é, recusar-lhes o status de humanos (com suas paixões, sonhos, fraquezas e dilemas), e transformá-los em médicos. A relação deixa de ser uma relação entre humanos e passa a ser uma relação sujeito-objeto, do médico com a doença. Os doentes são desumanizados, anulados em sua identidade e transformados num número da ficha hospitalar, num caso a ser estudado, diagnosticado e tratado.

Eis como se forma um cientista desprovido de subjetividade – como se isto fosse possível! A propósito, seria a sisudez um aspecto inerente ao ato de fazer ciência? Observa-se nestes filmes como alguns indivíduos que representam o saber científico (médico, professor, pesquisador etc.) distanciam-se dos demais seres humanos e adotam um ar de gravidade – confrontado, em Patch Adams, pelo bom humor e o jeito peculiar de encarar a profissão. O aprender transforma-se em sinônimo de desprazer, competição e inveja (como se a cretinice e a chatice fossem condições para o trabalho intelectual). A prática de Patch Adams coloca em xeque o método de ensinar-aprender tradicional. Não por acaso, o reitor defende-se dos questionamentos com um argumento tipicamente científico: “Nosso método é o resultado de séculos de experiência”.

O filme O Óleo de Lorenzo demonstra que, em sua arrogância, os guardiões do saber canônico não admitem concorrência: reflete a contradição entre o saber considerado científico e o saber não reconhecido no campus. Os pais de Lorenzo, na luta para salvar o filho, tornam-se autodidatas, rivalizando com os renomados doutos. As autoridades científicas relutam em aceitar os avanços obtidos nas pesquisas realizadas externamente ao seu controle.

Mas a resistência não é apenas dos médicos: os demais pais, cujos filhos sofrem da mesma doença de Lorenzo, não aceitam que alguém fora da academia possa atingir o saber científico. Ou seja, negam legitimidade ao saber não-diplomado. “Querem ensinar os médicos”, acusa uma mãe. Em sua opinião, o desafio ao saber estabelecido é um ato arrogante. E ela tem certa razão. Com efeito, a palavra arrogante vem do latim arrogare, que significa apropriar-se de. E de fato, o que o pai de Lorenzo faz é, por meios próprios, apropriar-se do conhecimento científico.

Patch Adams também representa um desafio ao saber instituído, na medida em que questiona seus pressupostos e projeta uma experiência autogestionária, onde todos aprendem e ensinam mutuamente (a ideia de um hospital no qual os doentes e médicos aprendem uns com os outros e somam esforços no sentido de tornar a vida melhor).

Ambos os filmes não descartam o saber formalmente instituído. Não há contradição absoluta entre os tipos de saber: o autodidatismo do pai de Lorenzo se referencia no conhecimento científico acumulado; a crítica de Patch Adams se insere no contexto do campus. Num e noutro caso, não há a negação absoluta do saber científico, mas sim de uma determinada maneira de compreendê-lo e de agir. Tanto o pai de Lorenzo quanto Patch Adams são incorporados e assimilados pelo campo acadêmico.

Os filmes O Óleo de Lorenzo e Patch Adams, baseados em histórias reais, questionam a arrogância titulada e o intelectualismo desencantado do mundo: o saber cientificista, abstrato e sisudo, profundamente desvinculado do humano; um saber que não mergulha no mar da humanidade, um saber desumanizado. O amor pelo filho e pelo próximo alimenta a paixão pelo conhecimento. O trabalho realizado com paixão inspira e realiza; o contrário, exprime obrigação.

O saber confrontado pelas experiências relatadas nestes filmes vincula-se, via de regra, à vaidade – que, em defesa dos intelectuais, não é uma propriedade exclusiva do campus. Se todos somos vaidosos, em menor ou maior grau, o problema começa quando a vaidade se traduz em atos autoritários ou se erige em obstáculo às relações humanas (talvez, por isso, há quem prefira os animais não-humanos).

Sim, a ciência é importante. Mas talvez devamos cultivar a humildade intelectual e nutrir uma atitude crítica (quanto ao conhecimento científico) e mais flexível (em relação à sabedoria popular). Quem sabe, aprendamos a controlar a nossa arrogância e nos convençamos de que os títulos acadêmicos não nos tornam essencialmente melhores do que os nossos semelhantes não-titulados.

* Este texto é parte modificada de “Óleo de Lorenzo e Patch Adams: a arrogância titulada”, publicado em setembro de 2003, em http://www.espacoacademico.com.br/028/28pol.htm (site desativado).

[1] Direção: George Miller. 1992, 129 min.

[2] Direção: Tom Shadyac. 1998, 115 min.


Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade.

6 comentários sobre ““O Óleo de Lorenzo” e “Patch Adams”: a arrogância titulada

  1. Boa tarde, Ozai. Otimo post. Este trecho que copiei do seu texto: “‌desafio ao saber instituído, na medida em que questiona seus pressupostos e projeta uma experiência autogestionária, onde todos aprendem e ensinam mutuamente” me lembrou “The Man Who Mistook His Wife for a Hat) est un livre publié en 1985 par Oliver Sacksneurologue d’origine anglaise.” (Wikipedia), que li em francês. Faz muito tempo. Mas, em alguns dos episodios, o que se percebe, é o quanto o médico (psicuiatra, neorologista, ou o que seja) aprende da diversidade das patologias quando ele simplesmente se poe à ESCUTA.  Bom domingo, Regina

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  2. Prezado Prof. Ozaí,

    além de lúcida, acho que essa sua reflexão a respeito da posição da ciência no mundo descortina armadilhas diversas que desembocam em processos de desumanização. Penso que, nesse momento, tudo isso foi tão longe, principalmente com a tecnocracia que nos rege, que estamos em um período ainda mais grave, que na loucura de alguns se chama de “transumanismo”. Essa é uma fase em que se estabeleceu que somos determinantemente imperfeitos, que nossos corpos, assim como um objeto, podem ser manipulados em nome de um pretenso “melhoramento”, aprimoramento, quem sabe rumo à imortalidade. Essas ideias nos oprimem, fazem com que tenhamos que negar constantemente nossa corporalidade e enxergar em nossos limites não oportunidades, mas barreiras.

    Um abraço!

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