Aqui jaz fulano de tal… e a sua superioridade!

Foto do autor (30/11/2019)

Para Maurício Tragtenberg (1929-1998),
que cultivou e ensinou a humildade dos sábios.
*

 

Ekatierina Ivânovna, personagem de Dostoiévski, em Crime e Castigo, é uma mulher de família relativamente próspera, mas que caiu na pobreza. Seu marido, alcoólatra, morre atropelado e, conforme o costume da época, ela oferece um repasto em memória do defunto. Mesmo na miséria, doente, com três filhos para criar, sem renda alguma e dependente de caridade, Ivânovna gasta boa parte dos vinte rublos, que recebeu como ajuda para os preparativos do funeral, para preparar o banquete cerimonial e mostrar aos seus convidados que o falecido, e também ela, não eram de classe inferior a eles, mas até mesmo superior.

Dostoiévski chama a atenção para este orgulho especial, que leva as pessoas, ainda que pobres, a “esgotarem as suas últimas forças e até o último copeque apenas com o fim de não fazerem pior que os outros e de que os outros não façam má opinião acerca deles”. (2003, p. 351) Por que esta necessidade de manter as aparências? Seria o receio da desaprovação ou o autoengano de parecer superior aos outros?

Esta necessidade é tão antiga quanto as sociedades humanas: nos impérios antigos, nas cortes e entre os burgueses, na classe média moderna ou qualquer grupo humano privilegiado, estabelecem-se costumes, comportamentos e rituais específicos que indicam distinção. No século XVI, Montaigne observou que:

Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento público. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia (1998, p. 19).

Isto produz situações interessantes. Mesmo com a decadência, certos indivíduos ainda agem como se continuassem nobres, ricos, privilegiados; ainda que imersos na miséria, sentem-se superiores aos seus companheiros de infortúnio. Tomasi de Lampedusa (1974), em O Leopardo, relata como a decadente nobreza italiana estabelece laços com a burguesia ascendente, em especial, através do subterfúgio do casamento. Como podemos observar no diálogo de don Calogero com o Príncipe Fabrizio acerca do casamento de Angelica, filha do burguês, com Tancredi, da casa Falconeri. O príncipe, homem inteligente e perspicaz, sabe que deve se render aos novos tempos e que o futuro do sobrinho depende menos da tradição dos títulos da nobreza e muito mais do dinheiro do burguês. O burguês, por seu turno, tem consciência do seu poder econômico, mas, ainda assim, se apega à moral da superioridade fundada na tradição nobiliárquica. É ridícula, e ao mesmo tempo engraçada, sua tentativa de convencer Fabrizio de que também tinha origens nobres.

Também os nossos burgueses procuravam se distinguir a partir da compra de títulos que lhes dessem o status de barões, condes, etc., ou pela aquisição dos favores da casa real. Neste contexto, o bacharelismo também se configurou em simbologia distintiva: não bastava ostentar a riqueza, era preciso ter o diploma da universidade. Assim, os senhores das famílias ricas enviavam os filhos para estudar na Europa – condição não só de prestígio, mas de possibilidade de um bom emprego na burocracia do Estado ou ascensão no mundo da política.

A literatura nos fornece exemplos da importância dada ao bacharelismo enquanto ideologia de distinção. É o caso exemplar de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis. Este, com fina ironia, narra que fora estudar na Universidade de Coimbra, onde o aguardavam “as suas matérias árduas”, estudadas “mediocremente”. Nem por isso, Brás Cubas deixou de ser diplomado e de sentir “um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, – de prolongar a Universidade pela vida adiante…” (1988, p. 30-31)

A outro dos nossos romancistas maiores, Lima Barreto, também não passou despercebido que o acesso aos títulos universitários patenteava distinção econômica e simbólica, argumento de autoridade e superioridade. Ele expõe com irônica maestria o fetiche do diploma, do título de Doutor. Em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, o rapaz, mulato e pobre, emigra para a cidade e, sofrendo as agruras da adaptação e os preconceitos racistas, sonha em ser doutor, isto é, em fazer o curso superior. Adquirir o diploma, o título de Doutor, representa o sonho de redenção da sua condição social. Em sua imaginação, ser doutor significaria resgatar o “pecado original” do seu “nascimento humilde”, abrandaria “o suplício premente, cruciante e onímodo” da sua cor. Para ele, o título de Doutor “era mágico”, com “poderes e alcances múltiplos, vários, polifórmicos”, algo como “clâmide sagrada, tecida com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se quebravam” (1995, p. 26)

A que ponto chega a vaidade humana! O título de Doutor não apenas lhe parece redentor, como o eleva acima dos demais humanos até mesmos aos olhos da divindade que distribui os dons da natureza. E, de fato, há quem imagine ser a própria divindade! De “osso, sangue e carne”, tão mortal e humano, demasiadamente humano. Qual é a origem dessa necessidade premente de sentir-se superior, sobre-humano, acima dos mortais? São os paroxismos da vaidade que acometem até mesmo os pobres e desvalidos.

Quem conhece o campo acadêmico e tem o mínimo de sensibilidade, o suficiente para não se deixar cegar pela vaidade, saberá reconhecer o quanto as palavras de Lima Barreto expressam comportamentos atuais. Claro, o mundo mudou, mas permanece a necessidade de distinção e muitos ainda se consideram superiores, quase que imortais!

Como nota Pierre Bourdieu (1974, p. 107), os intelectuais constituem sociedades de admiração mútua. Há no campo intelectual uma propensão ao narcisismo, à pretensão da superioridade fundamentada em titulações e diplomas. Se a vaidade é natural do humano, entre os intelectuais ela é favorecida pelo caráter da sua própria atividade – o que Bourdieu denomina de circulação circulante, no sentido de que estes produzem bens simbólicos a serem consumidos por seus próprios pares e, também, por serem, simultaneamente, produtores e consumidores dos próprios bens e dos bens de outros. Assim, o status dos intelectuais depende do reconhecimento dos pares.

O artista, o escritor, o intelectual, estão submetidos à dialética da distinção. Ou seja, nas condições atuais, pela maneira como funciona o campo intelectual, este tem que, necessariamente, perseguir a distinção. Para Bourdieu, isto não constitui um defeito pessoal, um “vício da natureza” humana egoísta. Ele observa que a mesma motivação que impele o intelectual a perseguir a distinção “impõe também os limites no interior dos quais tal busca pode exercer legitimamente sua ação” (Ibidem, p. 109) Ou seja, não é o reino do vale tudo! Por outro lado, Bourdieu rompe com a hipocrisia de uma falsa humildade que nega a real necessidade de distinguir-se. Ele adverte que não jogar o jogo é o mesmo que decretar a própria morte social. (2000, p. 85)

Por que um título acadêmico – ou a simples perspectiva de adquiri-lo – alimenta comportamentos arrogantes? Não se trata da irritante superioridade própria dos espíritos preconceituosos e imbuídos de valores racistas, mas dos procedimentos comumente observáveis no cotidiano, em especial nos espaços onde as almas vaidosas transitam em maior número. Aliás, a arrogância que induz ao preconceito social caminha irmanada com o racismo.

Mais do que uma opinião, um comportamento, a afirmação da superioridade constitui em arma social e política necessária à manutenção da distinção – se não econômica, ao menos simbólica – de determinados extratos da sociedade em relação a outros. Não constitui um problema meramente individual: o indivíduo não está solto no ar; seu chão social, a família, o campo que atua, suas relações sociais, influenciam determinantemente o habitus incorporado. Isto explica porque determinados indivíduos negam, na prática social, suas origens humildes. Eles assimilam os valores do novo estrato social ao qual se inserem e passam a pensar à maneira superior, procurando distinguir-se dos de baixo e também em relação ao grupo social que se incluem.

Um comportamento peculiar nestes casos é se pautar por referências sociais e culturais dos grupos sociais hierarquicamente bem-sucedidos. Assim, a classe média economicamente remediada, perdulária e dependente do crédito bancário, age à maneira de Ekatierina Ivânovna, gastando o que não tem para manter as aparências. “Em todas as nossas vicissitudes, comparamo-nos a quem está acima de nós e olhamos para os que estão melhor; comparemo-nos ao que está abaixo: não há ninguém tão desazado que não encontre mil exemplos em que se consolar”, ensina Montaigne (1998, p. 26).

De todos os livros que li até o presente, um dos que mais me fizeram refletir sobre este tema foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Com a morte, tudo se resolve: afinal que superioridade resiste aos vermes que dilaceram o corpo? Todos os epitáfios imagináveis são incapazes de nos livrar dessa vil condição.

Enfim, a morte nos iguala. Mas este raciocínio, se aprofundado, revela-se ilusório e ingênuo. A morte não é apenas um fenômeno natural: ela é também cultural e social. A morte é a mesma, mas a maneira de morrer e de proceder com o morto são diferentes. Por exemplo, alguns mortos são enterrados em rituais de pompa, nos melhores cemitérios, nas melhores condições – se isto para o morto é indiferente, não o é para a sua família – o ritual comprova a sua superioridade. Outros são enterrados como indigentes; e há os que se endividam para garantir as condições mínimas para o funeral.

Não obstante, ainda que as diferenças persistam até mesmo na forma de tratar a morte e o morto, nada nos livrará de morrer, Todos os títulos acadêmicos, riquezas imaginárias ou reais e sentimentos de superioridade não nos livrarão do inexorável: somos mortais. Quem sabe, aqueles que se sentem superiores e agem como tais, assim o fazem apenas para desafiar esta verdade? Não seria a vaidade um artifício dos incapazes de enfrentar a consciência da finitude? Não seria o agir de maneira superior o último suspiro contra a morte?

Muitos se recusam a admitir a própria morte. Não adianta: nada a evitará. Talvez, então, seja aconselhável encarar a vida com mais simplicidade e humildade: viveremos melhor, morreremos melhor… “A morte nos liberta de tudo: de toda hipocrisia”, escreve Machado de Assis (1988, p. 34). De qualquer forma, a vaidade e sentimento de superioridade serão enterrados – ou incinerados – com o nosso corpo. “Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia”, afirma o personagem machadiano. (Ibidem).

 

Referências

BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1995.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.

__________. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. São Paulo: Nova Cultural, 2003.

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi di. O Leopardo. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Clássicos Modernos, 5)

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias póstumas de Brás Cubas. Santiago (Chile), Editora América do Sul LDA, 1988. (Biblioteca de Ouro da Literatura Universal)

MONTAIGNE, Michel de.  Sobre a Vaidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

* Texto modificado e adaptado, publicado originalmente na íntegra na REA, n. 30, novembro de 2003, em http://www.espacoacademico.com.br/030/30eaoz.htm (site desativado).


Este texto foi lido por um grupo de interlocutores(as), pessoas que considero especiais e que nutro muito apreço. Muito obrigado pela leitura crítica, correções e os comentários instigantes. Claro, os possíveis equívocos são da minha inteira responsabilidade.

10 comentários sobre “Aqui jaz fulano de tal… e a sua superioridade!

  1. Esta discussão é muito pertinente. Gosto muito dela. Já circulei entre doutores e sábio analfabetos e, por incrível que pareça, gosto mais dos últimos.

    É interessante que tenhamos tanta necessidade de distinção. Tudo sempre foi muito assim. Entendo que o futuro será na conexão. Mas ainda teremos uma longa trajetória, até que as pessoas entendam que usar títulos como distinção é um escudo social e uma fuga da essência do eu, no caso, reduzido ao ego.

    Estas pessoas também poderiam por no túmulo “Aqui jaz uma pessoa engessada”.

    🙂

    Gratidão, Ozaí.

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  2. Somos mortais a ponto de nos angustiarmos e temermos quanto vem a mente a palavra “morte”. Cada suspiro dessa vida é uma energia que devolvemos para a terra…

    Seu texto é tão elucidativo que é impossível não ser afetado com tantas realidades visíveis no presentismo.
    Afinal, esse desejo (distinção) é o palco de varias profissões. O ego inflado além de ser hostil ao diálogo entre as diferenças de percepções, procuram sempre estarem nas suas razões. Vã razôes…

    No final, todos nós nos igualamos como humanos com a única certeza que tem em vida: a morte. Entretanto, ao ler seu texto fiquei a refletir que a impressão disso tudo é que esse demasiado desejo parece que objetiva imortalizar seus nomes enquanto sofistas de um determinado campo nessa seara da pós-modernidade.

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  3. Texto primoroso Ozaí, Você consegue reunir de forma objetiva e resumida autores do quilate de Dostoiévski, Montaigne, Bourdieu e nosso brilhante Machado de Assis.

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  4. Triste mas verdadeiro. Nao importa quantos titulos e nem quanto dinheiro possamos ter, nunca nos livramos da morte. A verdade e’ que nao temos muitos modelos de academicos humildes como o seu inspirador antigo mestre, Maurício Tragtenberg. A maioria dos exemplos que temos e’ ruim, e todos nos temos historias mais ou menos aterradoras de encontros com “sumidades” que reluziam em desprezar e menosprezar as pessoas abaixo delas.

    Por outro lado, esta necessidade de “auto-importancia” talvez seja tambem uma maneira de nos protegermos do clima hostil contra intelectuais no nosso tempo presente. Com o aumento da incivilidade e da falta de inteligencia na nossa cultura, qualquer pessoa com um computador ou um telefone se diz “autor” e escritor. O indice de besteira inventada que se ve hoje em dia nas redes sociais e’ assustador. E o pior e’ que uma grande parte da populacao nao sabe a diferenca entre um “doutor de internet” e uma pessoa que passou anos estudando, labutando, fazendo experiencias em laboratorios, anotando, etc. Nao e’ surpresa que a industria de fake news tomou conta do mundo, e muita gente prefere se consultar com o “doutor Google” e tomar remedios passados nas redes de WhatsApp. Aqui tambem todos nos sabemos de varias experiencias mais ou menos tragicas.

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    • Boa tarde.
      Obrigado por ler e comentar.
      Concordo com as suas palavras. Observo, porém, que escrevi este texto em outro contexto. Se na conjuntura atual o sentimento de “auto-importância” é fortalecido enquanto uma estratégia defensiva, penso que apenas confirma a necessidade de distinção (e superioridade) apontados. Embora compreenda, penso que reforçar isto acentua o distanciamento.
      Abraços e tudo de bom,

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