Dostoiévski, Tragtenberg e a liberdade

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski: 1821-1881

Em Os irmãos Karamazov, Dostoiévski questiona o livre arbítrio dado por Deus ao homem. Não teria sido melhor garantir-lhe pão e paz de consciência? “Consentindo no milagre dos pães, teria acalmado a eterna inquietação da humanidade – indivíduos e coletividade – isto é: “Diante de quem se inclinar”. Esse desejo de submissão é o paradoxo da liberdade: o homem livre almeja encontrar uma entidade incontestável à quem se submeta. O Grande Inquisidor critica a divindade por ela ter dotado o homem da liberdade de escolha, essa carga terrível que o esmaga: “Em lugar de te apoderares da liberdade humana, tu ainda a estendeste! Esqueceste-te, então, de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas também nada de mais doloroso”.[1]

Como nota Maurício Tragtenberg, o Grande Inquisidor se pretende o verdadeiro “amigo” do homem, já que o livrou do peso da liberdade e deu-lhe a segurança, o pão terrestre que satisfaz as suas necessidades mundanas.[2] Cristo e o Grande Inquisidor expressam o paradoxo da liberdade e necessidade. “Enquanto Cristo implicar uma mensagem de liberdade e autodeterminação, constitui fonte de angústia, sofrimento para o homem, que abre mão dessa “liberdade”, alienando-se mas mãos do Grande Inquisidor”, afirma.[3]

Dostoiévski é um homem de consciência inquieta, seus personagens expressam a intensidade da aflição humana diante da sua existência, a reflexão sobre a condição humana e todos os conflitos inerentes ao ser. Tragtenberg expressa o tipo dostoiévskiano: tem a consciência inquieta.[4] Ele viveu intensamente a angústia de ser livre, da necessidade de optar e a consciência do significado das suas escolhas. Ainda que não o desejem, os homens que amam a liberdade, parecem destinados a carregar a humanidade em suas costas e a viverem em constante busca da redenção. O homem que tem consciência da liberdade, compromete-se com o mundo e a humanidade e, inclinado a incorporar os seus pecados, sofre. É mais cômodo e menos angustiante viver pelo pão, não ter saber de, consciência de, saber-se livre para.

A consciência de ser livre, traz o sofrimento de responsabilizar-se perante si mesmo e os outros. Ao nos submetermos ao Grande Inquisidor, livramo-nos do pesado fardo que carregamos, pois, transferimos a responsabilidade dos nossos atos para ele, que, bondosamente, aceita o encargo e nos dá em troca a segurança, o pão que precisamos. E a nossa consciência se aquieta. Mas a paz de consciência tem um preço: é preciso não apenas abdicar da liberdade, é necessário submeter-se.

Maurício Tragtenberg: 1929-1998

Maurício Tragtenberg escolhe o caminho da liberdade e demonstra ter consciência do profundo sentido do “absurdo da vida”, expressado na obra de Dostoiévski. Na legenda do Grande Inquisidor, Dostoiévski desvenda o processo de burocratização da Igreja Romana e “mostra que toda ideia religiosa ou social desenvolve-se sob o signo do absurdo”. Maurício explica este processo:

Em sua fonte original a ideia é limpa e pura: o cristianismo na pessoa do Cristo. Quando, porém, ela se institucionaliza – Igreja, dogma e clero -, ela se nega a si própria. Daí o cristianismo poder findar em Inquisição, como o culto à “deusa razão” terminou no “despotismo da liberdade”, contra a tirania, de Robespierre. Se Deus não existe, tudo é permitido, então eu gozo de uma liberdade ilimitada. O máximo de liberdade consiste na prova de meu aniquilamento. Eu me mato para provar a minha liberdade e ao mesmo tempo que Deus não existe. Esse é o “absurdo” do homem que vai da liberdade ilimitada ao auto-aniquilamento.[5]


Referência conexa

SILVA, Antonio Ozaí da. Maurício Tragtenberg: militância e pedagogia libertária. Ijuí: Editora Unijuí, 2008.


[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p. 190.

[2] Maurício observa como o personagem Chigalev, na obra Os Possessos, de Dostoiévski, elabora um projeto de sociedade no qual aliena a liberdade em prol de um déspota e, dessa forma, “antecipa em muito as formas de organização de inúmeras seitas políticas da Rússia de então”. (TRAGTENBERG, Maurício. “O discurso da servidão voluntária”. In: Educação & Sociedade 21, Campinas, mai./ago. 1985, p. 39).

[3] Ibidem.

[4] “Juro-vos senhores que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para uso do cotidiano seria mais do que suficiente a consciência humana comum…”. DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo: Paulicéia, 1992, p. 68.

[5] TRAGTENBERG, Maurício. Franz Kafka – O romancista do absurdo. Separata da Revista ALFA, n. 1. Departamento de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, 1962.

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