Maya Angelou

“Mais um dia tinha se passado. Na escuridão suave, o caminhão espalhou os catadores de algodão e saiu rugindo pelo pátio como o som do peido de um gigante. Os trabalhadores andaram em círculos por alguns segundos, como se tivessem ido parar inesperadamente em um lugar desconhecido. Suas mentes estavam exaustas.

No Mercado, os rostos dos homens eram o que havia de mais sofrido para ver, mas eu parecia não ter escolha. Quando eles tentavam sorrir para afastar o cansaço como se não fosse nada, o corpo não ajudava na tentativa de disfarce da mente. Os ombros pendiam mesma quando eles riam e, quando colocavam as mãos nos quadris para demonstrar confiança, as palmas escorregavam como se a calça estivesse encerada.

“Boa noite, irmã Henderson. Voltamos para o começo, não é?”

“Sim, senhor, irmão Stewart. Voltamos para o começo, com a benção do Senhor.” Momma não deixava a menor das conquistas passar em branco. As pessoas cujas histórias e cujo futuro eram ameaçados diariamente de extinção achavam que só podiam estar vivas por intervenção divina. Acho interessante que a menor das vidas, a mais pobre das existências, seja atribuída à vontade de Deus. Mas conforme os seres humanos ficam mais abastados, conforme o padrão e o estilo de vida começam a ascender na escala material, Deus diminui a escala de responsabilidade em velocidade proporcional.

“O crédito é todo Dele. Sim, senhora. O abençoado Senhor.” Os macacões e camisas pareciam rasgados de propósito, e os fiapos de algodão e a sujeira no cabelo davam a eles a aparência de pessoas que tinham acabado de ficar grisalhas.

Os pés das mulheres tinham inchado a ponto de preencher os sapatos masculinos descartados que usavam, e elas lavavam os braços no poço para soltar sujeira e farpas que tinham penetrado nas mãos durante a colheita do dia.

Eu achava todos odiosos por se permitirem ser postos para trabalhar como touros, e ainda mais vergonhoso por tentarem fingir que as coisas não estavam tão ruins quanto estavam. Quando eles se apoiavam com força demais na bancada de doces que tinha uma porta de vidro, eu tinha vontade de mandar que se endireitassem e “assumissem postura de homem”, mas Momma me daria uma surra se eu abrisse a boca. Ela ignorava os estalos da bancada sob aquele peso e andava de um lado para o outro pegando as mercadorias solicitadas, sem parar para conversar. “Vai preparar o jantar, irmã Williams?” Bailey e eu ajudávamos Momma enquanto o tio Willie ficava sentado na varanda ouvindo o relato do dia.

“Louvado seja o Senhor, não, senhora. Tenho o suficiente da sobra de ontem. Nós vamos para casa nos limpar para irmos à reunião de renovação.”

Ir para a igreja naquela aura de cansaço? Não ir para casa pousar os ossos torturados em uma cama de penas? Passou pela minha cabeça a ideia de que o meu povo talvez fosse uma raça de masoquistas, e que não só era nosso destino viver a vida mais pobre difícil, como nós gostávamos assim.

“Sei o que você quer dizer, irmã Williams. É preciso alimentar a alma tanto quanto o corpo. Vou levar as crianças se o Senhor permitir. O Bom Livro diz: “Crie uma criança da forma como ela deve viver e ela não vai sair do caminho.”

“É isso que diz mesmo. Claro que é.””


In: ANGELOU, Maya. Eu sei porque o pássaro canta na gaiola; trad. de Regiane Winarski. Bauru (SP), Astral Cultural, 2018, p. 146-148

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