Sobre a vaidade e Montaigne

Os comentários postados no blog me fizeram lembrar do ensaio Sobre a Vaidade, de Montaigne*, que li há alguns anos. Na verdade, trata-se de um capítulo da obra de Montaigne (1533-1592), Ensaios, Livro III, Capítulo 9. Embora o título sugira, não é um livro que trata diretamente da vaidade – mas de várias questões consideradas ‘mundanas’. Mas é uma excelente reflexão…

Montaigne chama a atenção para a necessidade humana de manter as aparências:

“Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”. (p. 19)

E, mais adiante:

“Em todas as nossas vicissitudes, comparamo-nos a quem está acima de nós e olhamos para os que estão melhor; comparemo-nos ao que está abaixo: não há ninguém tão desazado que não encontre mil exemplos em que se consolar”. (p. 26)

Também Dostoiévski, em Crime e Castigo**, chama a atenção para este orgulho especial, que leva as pessoas, ainda que pobres, a “esgotarem as suas últimas forças e até o último copeque apenas com o fim de não fazerem pior que os outros e de que os outros não façam má opinião acerca deles”. Por que esta necessidade de manter as aparências? Seria o receio da desaprovação ou o auto-engano de parecer superior aos outros?

Montaigne também nos ajuda a refletir sobre outro tema demasiadamente humano, a honestidade. Ele conta a história (pp. 24-25) de Pacuvius Calavius, da cidade de Cápua. Diante das reclamações dos seus cidadãos contra os magistrados, ele encontrou uma forma de prendê-los e, convocando todo o povo para a praça, procedeu da seguinte maneira: cada um dos senadores saía do recinto em que estavam e o povo os julgava, decretando-o culpado ou inocente (os que o povo condenavam deveriam ser executados imediatamente). A única condição era que o executado fosse substituído por alguém do povo, sobre o qual não deveria pesar qualquer nódoa.

“Fez-se silêncio absoluto, pois todos sentiam empecilhos para a escolha; quando o primeiro mais atrevido disse um nome, elevaram-se todas as vozes em uníssono para recusá-lo, pois havia cem imperfeições e justas razoes para rejeitá-lo. Como essas disposições contraditórias se tornassem acaloradas, pior ainda aconteceu com o segundo senador, e com o terceiro: havia tanta discórdia para a eleição quando concórdia para a rejeição. Cansando-se com aquele tumulto, começaram, uns aqui, outros acolá, a afastar-se aos poucos da assembléia, todos levando na alma a resolução de que o velho e mais conhecido sempre é mais suportável que o mal recente e não experimentado”. (p. 25)

Isso me fez pensar se não há algo de imutável na natureza humano. Sei que esta é influenciada, e mesmo moldada, pela realidade social de cada época. Nossos valores morais e idéias correspondem aos valores e idéias predominantes na sociedade. Mas a vaidade, por exemplo, não está sempre presente?

Também fico a pensar em quanto as exigências éticas mascaram a hipocrisia. Quantos “homens e mulheres de bem” são honestos ou apenas parecem ser. Quantos dos moralistas de plantão que clamam por ética na política são realmente éticos? Quantos se abstêm de “levar vantagem”, do “jeitinho brasileiro” e das pequenas corrupções do dia a dia?

Montaigne é instigante e atual. Vale a pena ler a sua obra…

__________
* MONTAIGNE. Sobre a Vaidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
** DOSTOIÉVSKI, F. Crime e Castigo. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 351.
*** Publicado originalmente em http://antoniozai.blog.uol.com.br/, em 19.02.2007.

16 comentários sobre “Sobre a vaidade e Montaigne

  1. Belo texto Ozaí. O que nos reduz muitas vezes ao egoismo exarcebado e desumano, é quando deixamos de perceber o outro para satisfazer somente nossos desejos a qualquer custo. A falsa modestia e o falso moralismo mascara a verdadeira face das ações dos individuos na vida cotidiana. Não devemos ser tão hipócritas ao negarmos a vaidade. Afinal somos demasiadamente humanos.

  2. [Flávio Paranhos] [flavioparanhos@uol.com.br] [http://flavioparanhos.blog.uol.com.br] [Goiânia] Gostei. Me deu curiosidade quanto a Montaigne, que nunca li.23/03/2007 14:54

  3. [Felipe] [felipe_castro@ig.com.br] [Ouro Preto -MG.] Muito bom texto. Em se falando sobre a natureza humana, lembrou-me Maquiavel. Este entendia que a essência dos Homens é imutavelmente má, o que justificaria o domínio do Estado e da Lei (que não necessariamente estarão acima do bem/mal, bom/mau… nossa época, repleta de exemplos, legou-lhe tal crítica). 15/03/2007 12:12

  4. RESPOSTA:Re: blogCris, muito obrigado por visitar e comentar o blog. Não conhecia este autor, nem a obra. Mas é interessante que esta tese também aparece no livro “A leste do Éden”, de John Steinbeck. Na verdade, é o medo da rejeição que nos move e que explicaria a nossa busca de agradar os outros, em suma, de sermos amados. Se você desejar, posso enviar o trecho no qual é discutido este tema. Abraços e ótima semana, Ozaí

  5. [cris] [ccaiado@terra.com.br] [curitiba-pr] um filósofo cobtemporâneo (alain de botton, na obra “desejo de status”) diz que a ganância – seja por dinheiro, conhecimento, beleza ou poder – decorre da necessidade de sermos amados. em resumo, ele diz que não buscamos inteligência, reconhecimento, beleza ou dinheiro como um fim. eles são apenas meios. o fim é o amor. por isso (ele diz)a necessidade de aprovação torna-se tão importante. afinal, quem não gosta de ser amado? abraços! cris24/02/2007 13:12

  6. [Eronildes] [eron.ms@terra.com.br] Diz a Bíblia (em algum lugar): Diz-me com quem andas e te direis quem és. Atualmente as pessoas interpretam tal frase de maneira diferente: Diz-me com que carro andas e te direis quem és. Vivemos uma época de aparências.21/02/2007 08:44

  7. RESPOSTA:Re: blogCaro Waney, muito obrigado por visitar e comentar o blog. Seus argumentos são pertinentes. É verdade que buscamos a aprovação dos outros – por exemplo, como escritor quero ser lido e aprovado por meus leitores; como pai, me alegra saber que sou aprovado e até se orgulham de mim; como professor, fico feliz quando tenho retorno que atesta aprovação. O problema, a meu ver, é quando não estabelecemos limites e passamos a agir como pequenos ou grandes narcisos, cujo objetivo passa a ser apenas o sucesso, a nossa imagem diante dos outros. Não acho errado nos orgulharmos dos nossos feitos e buscarmos através disso a aceitação e aprovação dos outros. Mas, numa sociedade competitiva como a nossa, isto pode adquirir características que não nos fazem bem, nem aos outros. Aí passamos à vaidade. Costumo brincar com meus alunos que pretendem fazer mestrado, doutorado, enfim, seguir a carreira acadêmica. Há certas coisas que eles terão que fazer, mas não precisam vender a alma. Abraços e ótima semana, Ozaí

  8. [Waney Tonietti] [wtonietti@yahoo.com.br] [Maringá-PR] Penso como seria minha vida se não precisasse da aprovação e aceitação das pessoas diante da convivência social. Sim, porque preciso. O sucesso dos meus sonhos e objetivos passam necessariamente por tal aprovação. Olha, são tantas avaliações: de conhecimento, de personalidade, de aparência, de desempenho etc. A vaidade, ah, ela existe, não há como negá-la. Seria minha vida, então, medíocre? Será que meu projeto de vida não se baseia em uma causa nobre? Acredito que ainda não amadureci o suficiente para não sucumbir diante do apelo voltado à vida prática, fácil e fútil da modernidade (que sujeitinho heim!). Quem sabe não serei uma pessoa melhor quando estiver imune à vaidade, inclusive quando escrevo algo.20/02/2007 17:41

  9. RESPOSTA:Re: blogCara Eliane, a vaidade é humana. Todos, em minha opinião, temos algo dela. Farei uma analogia simplista: há os que bebem cerveja e há os que são alcoólatras; Assim ocorre com a vaidade. Sob certas circunstâncias ela se torna um problema, um vício. Também concordo que o excesso de humildade atrapalha e talvez soe falso. Abraços e ótima semana, Ozaí

  10. [Eliane Numair] [elianenumair@terra.com.br] [Novo Hamburgo – RS – Brasil] Prezado Antonio Ozaí e leitores, Me questiono um pouco sobre essa discussão sobre vaidade… Qual o sentido de fazermos algo de útil, ou bom, ou importante, se não for direcionado à vida “lá fora”? Fazermos algo que julgamos interessante e guardarmos para nós mesmos, sem interagir, não conduz ao progresso. Devemos valorizar aqueles atos que acrescentem algo à sociedade, até mesmo como forma de incentivar outras pessoas a procederem de forma elevada. Acredito que a adequada valorização de atitudes positivas agrega auto-estima e reconhecimento, incentivando a ampliação dessa corrente do bem. O que vemos hoje na mídia é a exposição constante de atitudes mal intencionadas, de volência e de corrupção. Vamos nos envaidecer da bondade, do respeito e da solidariedade. Muitas vezes o excesso de humildade nos conduz à inferioridade e à apatia diante do mau exemplo.20/02/2007 09:04

  11. [Jovino Moreira] [jomosil@gmail.com] [Jequié/Bahia/Brasil] Amigo Ozaí: Reler Montaigne é realmente algo fascinante nestes tempos de mensalão e, quando se trata da Vaidade recordo um texto que estou construindo para um livro meu, no qual lembro de uma apreciação que fazia sobre o papel desempenhado pelas jovens modelos que chegam a morrer pelo desejo (?) de desfilar na esteira da moda, para conseguir contratos. A vaidade que leva uma pessoa a desejar ser invejada por outra representa no meu estudo um baixo índice de Maturidade Pessoal. Tudo por inveja por vaidade? Pão, Paz e Liberdade19/02/2007 22:42

  12. RESPOSTA:Re: blogCaro Márcio, obrigado. Concordo que: “Às vezes, nos envaidecemos falando das vaidades humanas e ainda criticamos, com certo rigor moral, aos moralistas”. Nas respostas aos comentários, teço alguns argumentos que também dialogam contigo. Abraços e ótima semana, Ozaí

  13. [Márcio Costa] [marciueu@gmail.com] [Guajará-Mirim/RO] Às vezes, nos envaidecemos falando das vaidades humanas e ainda criticamos, com certo rigor moral, aos moralistas. Não começo assim como uma crítica ou falo de alguém… de mim, talvez. É muito comum ouvir muitas críticas aos políticos, mas quem o faz são pessoas que preenchem o dia-a-dia de pequenos atos desonestos. E aí pergunto: com chance de cometer grandes atos, não o fariam tb? A moral parece andar sempre próxima à hipocrisia. E fica muito exigente, nesse caso, o “meio termo” aristotélico. Quanto à vaidade que lhe arrancou a pergunta: “Por que esta necessidade de manter as aparências? Seria o receio da desaprovação ou o auto-engano de parecer superior aos outros? “. Talvez isso possa ser compreendido através de Lacan que diz que o ser humano constitui-se a partir de um Outro de onde recebe seus significantes. Isto é, muito em nós tem o sentido que outros deram, desde o nosso nascimento. Talvez provenha daí essa necessidade, que percorre uma vida inteira, da aprovação de outrem.19/02/2007 22:17

  14. [Neiva Martinelli] [neivamartinelli@terra.com.br] [São Leopoldo-RS] Aquilo que cada um é para si próprio, o que o acompanha na solidão e ninguém lhe pode dar, ou tirar, é evidentemente mais importante que tudo quanto tenha ou pareça ser aos olhos de outrem. Uma criatura de espírito elevado tem, em solidão completa, magnífico entretenimento em seus próprios pensamentos e fantasias, ao passo que a contínua mudança de companhias, de exibições, de passeios e divertimentos não tem força para impedir o torturante enfado de um indivíduo medíocre. Uma pessoa de caráter bondoso, equilibrado e ameno pode sentir-se satisfeita mesmo em situação precária, enquanto que outra, insaciável, invejosa e má, não será capaz de sê-lo, com todas as riquezas (Aforismos para a Sabedoria na Vida- Schopenhauer). Ao meu ver uma bela reflexão sobre a “vaidade”. E, apelando à Sócrates, que ao ver objetos de luxo expostos à venda, exclamou: “quanta coisa há de que eu não preciso”. Realmente, já lemos há muito no “Eclesiastes”: tudo é vaidade.19/02/2007 21:40

  15. RESPOSTA:Re: blogCara Rose, muito obrigado por visitar e comentar o blog. Sua análise é importante. Porém, penso que o problema é mais profundo e não se restringe aos “políticos”. Esses políticos são parte da nossa sociedade, como nós. É esta que gera as condições para que eles atuem de maneira criticável – e não apenas eles. Abraços e ótima semana, Ozaí

  16. [Rose Palmeira] [rosepalmeira@hotmail.com] [Fortaleza] Ética, honestidade e vaidade…De fato, nos dias atuais muitos falam de ética e honestidade mascarando quão desonestos e anti-éticos são. Certamente, e há muito e muito tempo nossos políticos não sabem o verdadeiro sentido nem a prática real da ética e da honestidade, mas vivenciam constatemente suas vidas ditas em nome do povo, no palco da vaidade, onde mostram descaradamente o mimetismo que são capazes de desenvolver para permanecerem com práticas egoístas e de afronta ao verdadeiro sentido do que é ser estadista e trabalhar com e pelo povo não incutindo-lhes o comportamento doentio da passividade, do apadrinhamento e do nepotismo. De fato, professor, eles, (os políticos)esses homens que largam suas profissiões originais para buscarem “vida fácil” no seio da política – não conhecem as obras desses estudiosos que deixaram seu legado à humanidade que , para aqueles que buscam uma transformação pessoal para construir um mundo melhor é um bom começo iniciar-se na prática reflexiva.19/02/2007 16:29

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