Série: Caçadores da alma (Silvio Tendler) – 01

O primeiro episódio da série Caçadores da alma abrange os fotógrafos de Natureza em seus aspectos mais profundos: a beleza da flora, o desafiador do animal, os limites da Humanidade, o Indomável e o papel de resistência da fotografia na luta contra a tragédia da poluição. Da Amazônia à África e da realidade dos vazamentos de óleo à natureza feérica dos sonhos. Nas trilhas da natureza apresenta as mais diversas paisagens desbravadas pelos fotógrafos: Antonio Saggese, Araqúem Alcântara, Christian Cravo; Custódio Coimbra, Evandro Teixeira, Izan Petterle, Ricardo Azoury e Robinson Roberto. Eles falam o que pensam a respeito dela e como (re) construíram um olhar sobre o mundo natural.

Fonte: TV Brasil

Por que se alimentar de animais?

À Maria Vitória, que me ensinou uma nova forma de viver!

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Pichação em Maringá (PR)

Em determinados contextos históricos e sociais o consumo da carne animal é uma necessidade para a sobrevivência humana (no limite, pratica-se até mesmo a antropofagia). Há situações nas quais alimentar-se de carne animal é justificável: “Os esquimós vivem, que vivem num ambiente que os coloca diante das alternativas de matar os animais para comê-los ou morrer de fome, podem ser justificados quando afirmam que o seu interesse em sobreviver sobrepõe-se ao dos animais que matam” (p.72).* Podemos vislumbrar outros exemplos nas regiões economicamente menos desenvolvidas do mundo, onde impera a miséria absoluta, nas quais a necessidade de consumir carne animal se torna imperiosa. Não obstante, como afirma Paul Singer:

“Poucos, dentre nós, poderiam defender nesses termos a sua alimentação. Os cidadãos das sociedades industrializadas podem facilmente conseguir uma alimentação adequada sem que seja preciso recorrer à carne animal. O peso avassalador do testemunho médico indica que a carne animal não é necessária para a boa saúde ou a longevidade. Além disso, a produção animal nas sociedades industrializadas não constitui uma forma eficaz de produção de alimentos, visto que a maior parte dos animais consumidos foi engordada com grãos e outros alimentos que poderíamos ter consumido diretamente” (p. 72-73).

Este raciocínio extrapola o sentimentalismo a favor dos animais. Indica consequências políticas e sociais profundas que alteram a estrutura do sistema econômico, em especial o agronegócio e a agropecuária. Por outro lado, vale destacar que o não incentivo à produção de carne animal induz à maior oferta de grãos direcionado ao consumo humano, e as terras, hoje ocupadas pela criação de animais não-humanos, poderiam ser destinadas à plantação. Como argumenta Singer (p. 73):

“Quando alimentamos esses animais com grãos, somente cerca de dez por cento do valor nutritivo permanecem em forma de carne para o consumo humano. Portanto, com exceção dos animais criados inteiramente em terras impróprias para o cultivo de legumes, frutas ou grãos, não se pode afirmar que sejam consumidos para melhorar a nossa saúde ou para aumentar a nossa provisão de alimentos. A sua carne é um luxo, e só é consumido porque as pessoas apreciam-lhe o sabor.”

Comer carne é um luxo também no sentido de ser um produto inacessível – ou raramente acessível – à boa parte da população dos países economicamente menos desenvolvidos e mesmo nos países do chamado primeiro mundo.

Esta argumentação funda-se numa perspectiva ética sobre o consumo de carne animal nas sociedades industrializadas relacionada a “uma situação na qual um interesse humano relativamente menor deve ser confrontado com as vidas e o bem-estar dos animais envolvidos” (ibidem). Em outras palavras, se é possível viver sem consumir carne, inclusive tendo uma vida mais saudável; se o consumo de carne não é imprescindível para nos manter vivos; então, o nosso interesse é inferior ao interesse do animal não-humano. Mas, este tem interesse? Sim, estamos nos referindo a animais sencientes, isto é, capazes de sentir dor, sofrimento e bem-estar. Portanto, interessados em se manter vivos e não sofrerem.

Outro argumento a favor do não consumo de carne animal diz respeito às condições em que esta é produzida, ou seja, às condições que os animais não humanos são submetidos para atender ao objetivo imperioso de aumentar o lucro numa escala sempre crescente. Assim, tomar a defesa dos animais não humanos significa se opor aos interesses econômicos que estruturam a sociedade moderna. Como escreve Singer (ibidem):

“O arrazoado contra o uso de animais para a nossa alimentação fica mais contundente nos casos em que os animais são submetidos a vidas miseráveis para que a sua carne se torne acessível aos seres humanos ao mais baixo custo possível. As formas modernas de criação intensiva aplicam a ciência e a tecnologia de acordo com o ponto de vista segundo o qual os animais são objetos a serem usados por nós. Para que a carne chegue às mesas das pessoas a um preço acessível, a nossa sociedade tolera métodos de produção de carne que confinam animais sensíveis em condições impróprias e espaços exíguos durante toda a duração de suas vidas. Os animais são tratados como máquinas que transformam forragem em carne, e toda inovação que resulte numa maior “taxa de conversão” será muito provavelmente adotada. Como afirmou uma autoridade no assunto, “a crueldade só é admitida quando cessam os lucros.”

Se adotarmos esta perspectiva, a oposição ao consumo de carne animal torna-se uma atitude política que contraria os interesses dos que negociam a carne animal, reduzida à categoria de mercadoria. Quando nos recusamos a consumir carne animal negamos o apoio aos grandes fazendeiros, ao poder econômico e político representado por estes:

“Nosso hábito é o apoio de que necessitam os “fazendeiros industriais”. A decisão de deixar de dar-lhes esse apoio pode ser difícil, mas é menos difícil do que teria sido, para um sulista branco, opor-se às tradições de sua sociedade e libertar os seus escravos; se não mudarmos os nossos hábitos alimentares, como podemos censurar os proprietários de escravos que se recusavam a mudar o seu modo de vida?” (Ibidem).

Recusar-se a apoiar o negócio da carne animal significa também rejeitar o especismo e a naturalização de um costume amparado no hábito, na ignorância e até mesmo em argumentos religiosos dos que advogam a superioridade humana em relação aos demais animais, os quais supostamente devem ser submetidos aos nossos interesses.

De fato, a maioria dos consumidores de carne animal não tem esta reflexão, nem adota esta perspectiva. O vegetarianismo e o veganismo, via de regra, são desconsiderados, ou mesmo ridiculizados, reduzidos a hábitos excêntricos de alguns indivíduos da classe média intelectualizada. É difícil ir contra o que pensa e como age a maioria. Quem assume uma postura vegetariana – ou vegan – conhece bem esta realidade. Passei a prescindir do consumo de carne animal ao observar as dificuldades de uma adolescente em seguir um uma alimentação vegetariana. Quando ela ficou uns dias em nossa companhia, decidi seguir o seu exemplo.

Restaurante Universitário (UEM), antes da reforma
Restaurante Universitário (UEM), antes da reforma

Não foi fácil! Sempre fui carnívoro, do tipo que não recusa o convite para um churrasco, que consumia carne diariamente e era incapaz de refletir sobre as consequências deste hábito, concebido quase como natural. Um indivíduo, portanto, insensível aos argumentos a favor do não consumo de carne animal, embora extremamente sensível aos animais domésticos e incapaz de matar uma formiga ou mesmo uma barata (o que rende críticas irônica no ambiente doméstico). Alguém não disposto a parar para pensar profundamente sobre a questão, que não via qualquer problema ético ou de outra natureza em consumir carne. Mas capaz de observar o cotidiano de uma adolescente e se sensibilizar e aprender.

Hoje, não comer carne tornou-se um novo hábito. Foram superados os momentos mais difíceis – como por exemplo frequentar churrasco com os amigos e conseguir se abster do consumo. Na verdade, ainda que respeitando o modo de vida dos que não veem qualquer problema de natureza ética – ou de outro tipo – em consumir carne, perturba-me a visão da carne preparada como alimento, a qual me remete ao animal morto, ao cadáver – preparado esteticamente para se tornar atraente ao consumo humano, mas essencialmente um cadáver. Por outro lado, o respeito à quem não adota as minhas ideias, valores e hábitos, impõe uma atitude não militante – embora também respeite os vegetarianos e veganos que transformam suas opções em militância ativa.

Obviamente, consumir carne animal expressa a anuência com a criação e engorda destinados ao matadouro. Quando os lucros estão em risco, observa-se até mesmo laivos de humanitarismo no que diz respeito às condições em que essa carne consumida é produzida e no tocante à forma como são abatidos (determinados grupos humanos exigem, por exemplo, que se siga o ritual e normas determinadas para o abate, como no caso da “carne Kosher”; o abatimento “humanizado” também é exigido quando observa-se que a forma de matar pode causar efeito na qualidade da carne e, portanto, não atender às exigências do mercado). Em suma, não há nada de humanitarismo, mas apenas observância dos interesses lucrativos. Além disso, não se trata apenas do ato de matar o animal:

“Além de tirar as suas vidas, muitas outras coisas são feitas aos animais para que eles cheguem à nossa mesa a baixo preço. A castração, a separação de mães e filhotes, a separação de rebanhos, as marcas com ferro em brasa, o transporte e, finalmente, os momentos do abate – coisas que, provavelmente, envolvem sacrifício e não levam em consideração os interesses dos animais” (p. 74).

Claro, pode-se argumentar legitimamente que os animais podem ser criados em pequena escala e, assim, reduzir ou anular o sofrimento infligido aos mesmos – menos, claro, a morte. Contudo, diante da amplitude do mercado consumidor não parece prático nem lucrativo produzir carne nestas condições. Grandes contingentes humanos aglomerados em áreas urbanas pressupõe a produção em grande escala e nas condições já assinaladas. Seja como for, a questão principal não é esta, ou seja,

“se a carne animal poderia ser produzida sem sofrimento, mas se a carne que estamos pensando em comprar foi produzida sem sofrimento. A menos que possamos estar certos de que foi, o princípio de igual consideração de interesses implica que foi errado sacrificar importantes interesses do animal para a satisfação de interesses menores nosso; por conseguinte, deveríamos boicotar o resultar final desse processo” (p. 74-75).

O argumento exposto tem fundamento ético e pressupõe uma prática ética. Dessa forma, agir eticamente implica nos perguntarmos sobre o real significado do consumo de carne, em especial no que diz respeito aos interesses e à dor e sofrimento infligindo aos animais não humanos. Não é sentimentalismo, mas uma opção por um modo de vida que respeita a vida animal. Por que, enfim, continuar reforçando uma estrutura econômica que objetiva apenas o lucro dos envolvidos na cadeia produtiva ao preço do sacrifício e do sofrimento de milhões de animais não humanos? Por que se alimentar de carne?

* Todas as citações são de: SINGER, Peter. Ética prática; tradução Jefferson Luiz Camargo – 3ª. Ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Pena de morte?!

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Hoje, ouvi um relato sobre um assalto. O ônibus retornava da cidade de Aparecida (SP) e foi interceptado por assaltantes armados com Calibre 12. Quem contou disse que o motorista foi obrigado a conduzir o ônibus até um canavial. Lá, durante um tempo que pareceu a eternidade, os passageiros foram aterrorizados com gritos, ameaça e obrigados a tirar a roupa (ficaram apenas com as roupas íntimas). Devotos e devotas de Nossa Senhora Aparecida, as vítimas rezavam fervorosamente. Longe de apaziguar ou sensibilizar os assaltantes, isto, segundo o relatado, os irritavam ainda mais. “Eles não têm Deus no coração; alguém que comete um ato desse não é de Deus”, disse. Após contar os detalhes, a pessoa, ainda visivelmente traumatizada, falou que não queria que os bandidos fossem presos, mas sim mortos. “É o que mereciam”, enfatizou. Nas circunstâncias, considerei melhor apenas ouvir. Mas fiquei a pensar: como alguém que se afirma cristão pode querer a morte de outro ser humano? A religião não ensina a perdoar?

Compreendo a revolta. Ninguém sai psicologicamente ileso de uma experiência como esta. A violência causa traumas irreparáveis e destrói os alicerces da ética e da humanidade. Esta pessoa desejou a morte dos bandidos, sem mesmo a prisão e julgamento. Pode ter sido apenas um desabafo, uma manifestação impensada motivada pelo trauma. “Não pensava assim antes do ocorrido” afirmou. Contudo, se esta opinião for mantida, é mais um que, muito provavelmente, será a favor da pena de morte. Relatos como este, que enfatizam a crueldade, a forma desumana de tratamento, reforçam os argumentos de quem defende a pena de morte.

Não faltam argumentos favoráveis à pena de morte. Há até mesmo quem encontre fundamentação bíblica favorável à pena de morte. A religiosidade não é necessariamente empecilho ao desejo de morte. Há quem argumente que o sistema prisional não cumpre a função de ressocialização do criminoso, não regenera. Pelo contrário, alimenta a espiral de violência e mantém a possibilidade da reincidência. Ou seja, a sociedade tem o direito de se proteger e a melhor forma de proteção é “cortar o mal pela raiz”. A morte de determinados indivíduos, considerados irrecuperáveis, seria positivo para o sistema prisional e eliminaria de vez o perigo. Além disso, a pena de morte contribuiria para diminuir a lotação dos presídios – seja pela eliminação física ou pela intimidação, os indivíduos pensariam melhor antes de cometerem crimes – e diminuiria a influência maléfica sobre os demais prisioneiros, ampliando as chances de reabilitação.

Outro argumento é que determinados indivíduos são, por natureza, incapazes de sentir remorso, de empatia, de reconhecer a humanidade no outro; são psicologicamente incuráveis. Não são humanos, mas sim monstros. Não devem, portanto, serem tratados humanamente. Se tiverem chances, inevitavelmente irão reincidir. O melhor para a sociedade é livrar-se deles de forma definitiva. Por que a sociedade deveria arcar com os custos de manter vivos tais indivíduos – ainda que condenados à prisão perpétua?

Talvez o argumento mais forte seja conceber que a pena de morte é justa, ou seja, que ela restitui a justiça à parte atingida. Trata-se de uma leitura enviesada da “lei do talião”: a dor e o sofrimento infligidos à vítima e sua família exigem a morte do assassino. Só assim é possível restaurar o equilíbrio, consolar e amenizar o sofrimento. A punição com a morte é preço cobrado pela vida que foi ceifada.

O ser humano é capaz de matar, e também capaz de encontrar argumentos e justificativas para a morte de quem matou – em nome da justiça. Façamos o esforço da compreensão, pois é demasiadamente humano. Todavia, o que aqui denomina-se de “justiça” é, de fato, vingança. Eis a motivação principal de quem defende a pena de morte: o desejo de vingança!

Igualdade para os animais?

“Como é possível que alguém perca o seu tempo tratando da igualdade dos animais, quando a verdadeira igualdade é negada a tantos seres humanos?”
(Peter Singer) *

803714Colocada desta forma e descontextualizada, a questão parece disparate. Os mais apressados e aqueles cuja formação consolidou a noção da superioridade do ser humano em relação às outras espécies, fundamentada em preceitos religiosos ou mesmo filosóficos e econômicos, arriscam-se a concordar com tal indagação, dado que ela sugere uma crítica aos que preocupam-se com os animais não-humanos em detrimento dos animais humanos. Nesta senda, há o risco de desconsiderar que “a” não exclui “b”, mas que complementam-se. Isto é que o humano humaniza-se na relação com o outro, seja este da sua espécie ou do animal não-humano.

A argumentação do filósofo parte do princípio “no qual se fundamenta a igualdade de todos os seres humanos, é o princípio da igualdade de interesses”. Este princípio inclui todos os seres humanos, ainda que estes sejam diferentes em vários aspectos, e proporciona “uma base adequada para a igualdade humana”. Partindo desta base fundamental, o autor sugere que não devemos nos restringir a pensar a igualdade apenas em relação aos humanos. “Em outras palavras, vou sugerir que, tendo aceito o princípio de igualdade como uma sólida base moral para as relações com outros seres de nossa própria espécie, também somos obrigados a aceitá-la como uma sólida base moral para as relações com aqueles que não pertencem à nossa espécie: os animais não-humanos”, afirma Peter Singer (p. 65).

Isto pode parecer bizarro. Num mundo em que a desigualdade social, racial e de gênero, etc., persiste e reforça a discriminação contra as mulheres, os negros e negras, as pessoas LGBT, como é possível nos preocuparmos com os animais não-humanos? Se a igualdade nas relações humanas permanece sendo um desafio dos mais prementes e impõe questões morais e políticas fundamentais, exigindo concentração de esforços, de energia e atenção, não será um desvirtuamento pensar e agir em prol da igualdade para os animais não-humanos? “O bem-estar dos animais não se insere numa categoria totalmente diversa, uma história para pessoas loucas por cães e gatos? Como é possível que alguém perca o seu tempo tratando da igualdade dos animais, quando a verdadeira igualdade é negada a tantos seres humanos?” (p. 65), pergunta o autor.

A questão pode parecer provocativa. Nestes termos pode induzir à desqualificação do argumento em favor da igualdade entre animais humanos e animais não-humanos. Além, disso revela a arrogância e ignorância em relação aos interesses dos animais não-humanos, o não reconhecimento do sofrimento destes:

“Esta atitude revela um preconceito popular contra o fato de se levarem a sério os interesses dos animais – um preconceito tão infundado quanto aquele que leva os brancos a não considerarem com a devida seriedade os interesses dos escravos africanos. Para nós, é fácil criticar os preconceitos de nossos avós, dos quais os nossos pais se libertaram. É mais difícil nos distanciarmos de nossos próprios pontos de vista, de tal modo que possamos, imparcialmente, procurar preconceitos entre as crenças e valores que defendemos. O que se precisa agora, é de boa vontade para seguir os argumentos para onde eles nos levam, sem a ideia preconcebida de que o problema não é digno de nossa atenção” (p. 66).

Aceito este preceito, devemos nos perguntar sobre as razões que conferem ao animal não-humano o direito à igual consideração. Numa época em que os escravos eram tratados praticamente da mesma forma que os animais não-humanos, e considerados enquanto tais, inclusive com a anuência da Santa Madre Igreja, o filósofo inglês Jeremy Bentham, criador do utilitarismo moderno, escreveu:

“Talvez chegue o dia em que o restante da criação animal venha a adquirir os direitos dos quais jamais poderiam ter sido privados, a não ser pela mão da tirania. Os franceses já descobriram que o escuro da pele não é motivo para que um ser humano seja abandonado, irreparavelmente, aos caprichos de um torturador. É possível que algum dia se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a terminação do os sacrum são motivos igualmente insuficientes para se abandonar um ser sensível ao mesmo destino. O que mais deveria traçar a linha insuperável? A faculdade da razão, ou talvez, a capacidade de falar? Mas, para lá de toda comparação possível, um cavalo ou um cão adultos são muito mais racionais, além de bem mais sociáveis, do que um bebê de um dia, uma semana, ou até mesmo um mês. Imaginemos, porém, que as coisas não fossem assim; que importância teria tal fato? A questão não é saber se são capazes de raciocinar, ou se conseguem falar, mas, sim, se são passíveis de sofrimento” (p. 66-67).**

Os animais não-humanos são seres sencientes, isto é, sensíveis e capazes de ter sensações que imaginamos próprias e restritas aos humanos. Eis o argumento central em defesa dos animais não-humanos: a capacidade de sentir o sofrimento ao qual são submetidos. Nas palavras de Peter Singer:

“Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar esse sofrimento em consideração. Seja qual for a natureza do ser, o princípio de igualdade exige que o sofrimento seja levado em conta em termos de igualdade com o sofrimento semelhante – até onde possamos fazer comparações aproximadas – de qualquer outro ser. Quando um ser não for capaz de sofrer, nem de sentir alegria ou felicidade, não haverá motivo para ser levado em consideração” (p. 67-68).

Os que atribuem maior peso à própria espécie são incapazes de reconhecer a dor e sofrimento de outros animais. Se reconhecemos isto, somos forçados a acatar transformações radicais na forma como encaramos os animais não-humanos e a nossa relação com eles. Tal reconhecimento exige mudanças consideráveis no que diz respeito “à nossa alimentação, aos métodos de cultivo da terra, aos procedimentos experimentais em muitos campos da ciência, à abordagem da vida selvagem e da caça, à captura de animais e ao uso de suas peles, às diversões como circos, rodeios e zoológicos”, afirma o filósofo (p. 71). Esta mudança de atitude tem consequências positivas em relação aos animais não-humanos: “a quantidade total de sofrimento provocado seria grandemente reduzida, tão grandemente que é difícil imaginar outra mudança de atitude moral que provocasse uma redução tão grande da soma total do sofrimento existente no universo” (p. 71).

Se aceitamos o fato de que os animais não-humanos são seres sencientes, isto é, capazes de sentir dor e de sofrerem, então devemos encarar de frente as nossas concepções e preconceitos no que diz respeito às nossas relações como os animais não-humanos. Não é apenas uma mudança de caráter sentimental relacionada à maior ou menor sensibilidade, ao apego aos nossos cães e gatos e outros animais domésticos do nosso convívio; vai muito além da pieguice, do amor egoísta e das nossas carências afetivas compensadas pela relação com os animais não-humanos. Aceitar este preceito exige uma transformação radical na forma como concebemos a nossa espécie e sua relação com os demais animais não-humanos enquanto seres com quem partilhamos o mesmo espaço chamado Planeta Terra. Talvez não estejamos à altura de enfrentarmos esta realidade; talvez não queiramos. Até porque é muito mais fácil continuarmos a pensar como nos ensinaram as autoridades versadas em assuntos econômicos, religiosos, educativos e até mesmo científicos. Então, deixa de ser contraditório amar nossos bichinhos de estimação, mas nos alimentarmos da carne de outros animais.

* O título é o mesmo do terceiro capítulo da obra “Ética prática”, de Peter Singer (São Paulo: Martins Fontes, 2002); todas as citações são do livro acima referido.

** Apud idem.

Sobre monstros e inumanos

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Há muito tempo, assisti a um filme em que a personagem fazia um discurso racista.  Poderia ser apenas mais um filme sobre a temática racial, mas a cena ficou gravada em minha memória. Não recordo uma só palavra proferida, nem mesmo lembro-me do título do filme. O que não esqueci foram as reações dos ouvintes: alguns, em êxtase, choravam. Pareciam acreditar piamente, as palavras encontravam guarida no âmago, as lágrimas que jorravam expressavam ideias, valores e crenças introjetadas. Era uma fala repleta de emoção e irracionalidade compartilhada pela audiência, que fortalecia os vínculos mútuos e reforçava valores pré-estabelecidos. A racionalidade diluía-se na onda de emotividade que nutria e consumia a todos.

Qual é a origem desta força que irmana indivíduos em torno de ideias e valores historicamente censuráveis? Por que, apesar da razão humana, do progresso e da rejeição social e institucional o racismo, a homofobia e a misoginia persistem? O que dá sustentação às manifestações desse tipo? Como é possível que alguém, em pleno século XXI e depois das trágicas experiências de regimes ditatoriais, sinta-se à vontade para elogiar torturadores e legitimar a tortura? Como é possível que ainda encontre apoio na sociedade?

A crítica e o risco de punição legal não assustam gente deste naipe. Pelo contrário, talvez se veja como herói de causas justas. Adora holofotes e quanto mais é repudiado pela maioria mais se vê como arauto de um tempo em que dominará. Sua segurança, é a nossa insegurança; seu sonho, os nossos pesadelos. O ideal de sociedade que persegue nutre-se das paixões mais horríveis que habitam o humano. Fanático de uma ordem de terror, não hesitará em aniquilar os que não se encaixam em seu modelo, em seu ideal. Semeia ódio e intolerância; pavimenta caminhos lúgubres.

Recuso-me a pronunciar seu nome! “He Who Must Not Be Named”[1] é um monstro? Inumano? De fato, é tentador inclui-lo na categoria do inumano, da monstruosidade que expressa a banalidade do mal. Assassinos sem compaixão que agem com requintes de crueldade, torturadores que perpetram atos que estão além da nossa compreensão, sob qualquer ângulo, nos parecem excluídos da condição humana. Em geral, os vemos como inumanos, monstros. Este julgamento até pode apaziguar a nossa consciência e nos colocar num patamar moral superior, mas o exclui da humanidade que compartilhamos!

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Nazistas que planejaram e executaram o extermínio de milhões de judeus eram seres humanos normais, bons e de bem. Alguns com títulos acadêmicos, intelectuais racionais. Amavam suas esposas, seus filhos; eram bons maridos e ótimos pais. Executavam ordens, acreditavam que agiam por uma boa causa; aceitavam os argumentos ideológicos, incorporavam os valores e ideias propagados pelo nazismo. Comprometiam-se, mesclavam seus interesses com o “trabalho”. Mas não duvidemos das suas “boas intenções”, não os transformemos em monstros ou alienígenas. Entre os seus, eram homens e mulheres com bondade, capazes de amar e de serem amados. Como notou Hannah Arendt, “os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam”.[2] Eram seres humanos! Haviam os de natureza sádica, mas mesmo estes podiam se revelar homens bons em suas relações familiares, entre os seus.

A natureza humana é mais complexa do que imagina a mente maniqueísta e o moralista ingênuo. Na política, o mal e o bem não são necessariamente excludentes. Na verdade, ambos compõem a natureza humana. O cerne da questão está em compreender como e porque seres humanos “normais” – bons pais, maridos, professores, etc. – revelam uma capacidade incrível de torturar ou de apoiar torturadores. Mas compreender não é perdoar!

Os que atualmente tem o atrevimento de elogiar publicamente os torturadores são seres humanos que encontram apoio na sociedade. “You Know Who” foi eleito deputado com a maior votação do Rio de Janeiro (sétimo mandato). Os eleitores deste estado e de São Paulo elegeram outros membros da família de “He Who Must Not Be Named”. O problema, portanto, não se resume a este ou àquele indivíduo que, por ocupar uma posição privilegiada institucionalmente, consegue atrair os holofotes, falar e agir como se estivesse ao abrigo da lei. Isto é preocupante! Mas, deveria preocupar-nos ainda mais o fato de “You Know Who” e outros da mesma laia serem apoiados por centenas e milhares de cidadãos e cidadãs, homens e mulheres de bem, bons pais e boas mães, bons maridos e boas esposas, capazes de amar – mas também de odiar outros seres humanos aos quais são negados a humanidade. O seu colega de trabalho, o seu parente, seu professor, seu aluno, etc., podem ser os que fortalecem e legitimam valores e ideais expressados por “He Who Must Not Be Named”.

O ego narcísico, homofóbico, racista e misógino de “You Know Who” e sua legião de seguidores beira as raias da loucura, mas não são loucos. São humanos, demasiadamente humanos, expressam o que temos de pior em nossa condição humana. Estão plenamente convictos dos fins que perseguem e não vacilarão em relação aos meios necessários para alcança-los.

Paradoxalmente, o autoritarismo encontra espaço para fortalecer-se na democracia. A defesa da tortura e a glorificação de torturadores mostra a face do horror. É o cúmulo do inaceitável numa sociedade democrática. É preciso enfrentar o problema em sua complexidade. Afinal, o Lord Voldemort da política brasileira não está só!

[1] Na literatura a expressão se refere a Lord Voldemort, tenebroso personagem da série Harry Potter escrita pela britânica J. K. Rowling. “You Know Who” é outra forma de se referir ao Lord das trevas. Agradeço à Olga Ozaí pela contribuição em relação aos aspectos referentes à obra.

[2] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 121.

O dia seguinte à votação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados

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A vida segue o seu ritmo! Os ônibus continuam lotados e o cotidiano se repete para milhares de pessoas que dirigem-se aos seus respectivos locais de trabalho. Sonolentos, com noites mal dormidas e cansados, mas com a esperança de que a vida melhore ou que, ao menos, os dias de trabalho não se alonguem e que o final de semana chegue o mais breve possível. Ganham mal, trabalham longas jornadas – apesar dos avanços das conquistas sociais, resultado de muitas lutas. Ainda que queiram, não podem subtrair-se ao ritmo que a vida lhes impõe. É a servidão moderna do trabalho assalariado. Parece-lhes que não há outro caminho senão a adaptação, mas em seus íntimos carregam a certeza e a esperança de que a vida poderia ser diferente, melhor.

Outros nem mesmo podem se dar ao luxo de vender sua força de trabalho no mercado formal do emprego assalariado. Mas a sociedade reserva-lhes espaços para contribuir com o processo de produção e reprodução de valor – o que alguns intelectuais bem-intencionados chamam de “cidadania”. Nas ruas da cidade encontro a cidadã, a senhora de cabelos grisalhos que puxa o seu carrinho de lixo seletivo, ladeira abaixo e acima. De outra feita, é o senhor cidadão na mesma labuta. Ambos contribuem para reciclar o lixo produzido pela sociedade, pelos que tem poder de consumo. Lixo social, descartado e reciclado – novamente tornado mercadoria, valor de uso e valor de troca, graças ao trabalho da senhora e do senhor em cujas faces as marcas do tempo fixaram residência e os corpos resistem aos golpes da vida. Numa idade que mereciam melhor sorte, seus corpos são consumidos pela necessidade. Transformados em cidadãos, é o seu ganha pão. Afinal, a sociedade oferece oportunidade para todos, e cada um contribui de acordo com as suas possibilidades. É preciso ganhar a vida para perdê-la!

Não é muito diferente para os que caminham sobre rodas! Automóveis modernos, outros nem tanto, e muitos que mais parecem peças de museu e nos fazem lembrar o passado remoto, congestionam as avenidas e ruas principais. Indivíduos concentrados – outros nem tanto, ocupados com seus celulares – também dirigem-se aos seus locais de trabalho. Como os demais, carregam sonhos e esperanças, mas também frustrações e desespero.  Diferenças salariais ou profissionais proporcionam níveis de consumo diferenciados, maior ou menor conforto, maior ou menor produção de lixo reciclável, mas não os distinguem essencialmente. Com aqueles que vão de ônibus, a pé ou de bicicleta, e os cidadãos que vivem do lixo produzido socialmente, compartilham a mesma humanidade, estão presos à mesma realidade social que lhes impõe um modo de vida que foi naturalizado.

A vida repete-se como uma imperiosa necessidade! Mesmo o que parece inédito, apenas reafirma a permanência do humano: suas fraquezas, limites, vaidades, desejos de querer, desejos de poder e a busca insana pelo mais, por poder mais! Há os que buscam a ascensão social, há os que desejam simplesmente melhorar a vida, oferecer à nova geração o que não puderam usufruir e há os que almejam voar alto, tal qual Ícaros modernos, sob o risco de fenecer no calor das suas paixões. As tentações, a submissão ao domínio do vil metal, a ânsia pela acumulação que resiste ao passar do tempo e habita os sonhos e pesadelos humanos, corrompendo até mesmo as generosas utopias. O “querer mais” parece resumir o caminhar humano sobre a face da terra!

Desejos incontidos, ambições desmedidas. O reino do vale-tudo! O homem lobo do homem! Poderes destituídos, podres poderes elevados à virtude de sanar a podridão. Assim caminha a humanidade. E, no entanto, a vida se repete! Para milhões de seres humanos submetidos cotidianamente ao reino da necessidade, a vida segue o ciclo que parece inexorável. Na segunda-feira, independente dos resultados da grande política, não escapam ao destino compartilhado de labutarem para ganhar o pão de cada dia, o castigo que lhes foi lançado sobre o face, a tortura do trabalho alienante e extenuante.

Muitos agem como espectadores no teatro das sombras em que se desenrolam as tragicomédias da vida, cujos atores principais são os seus pretensos representantes – de fato, não se sentem representados, até enojam-se diante da lama fétida que emerge dos centros dos podres poderes. No entanto, ainda que não percebam ou não saibam, decisões políticas sempre acarretam consequências. O papel de espectador não imuniza dos efeitos, sempre há consequências.

Viver é arriscado! Só não há riscos para os mortos! Iludem-se os que se consideram protegidos em suas torres de marfim e também aqueles que, diante das turbulências da vida, imaginam encontrar abrigo nos cemitérios dos vivos! A vida continua, a luta também!