Igualdade para os animais?

“Como é possível que alguém perca o seu tempo tratando da igualdade dos animais, quando a verdadeira igualdade é negada a tantos seres humanos?”
(Peter Singer) *

803714Colocada desta forma e descontextualizada, a questão parece disparate. Os mais apressados e aqueles cuja formação consolidou a noção da superioridade do ser humano em relação às outras espécies, fundamentada em preceitos religiosos ou mesmo filosóficos e econômicos, arriscam-se a concordar com tal indagação, dado que ela sugere uma crítica aos que preocupam-se com os animais não-humanos em detrimento dos animais humanos. Nesta senda, há o risco de desconsiderar que “a” não exclui “b”, mas que complementam-se. Isto é que o humano humaniza-se na relação com o outro, seja este da sua espécie ou do animal não-humano.

A argumentação do filósofo parte do princípio “no qual se fundamenta a igualdade de todos os seres humanos, é o princípio da igualdade de interesses”. Este princípio inclui todos os seres humanos, ainda que estes sejam diferentes em vários aspectos, e proporciona “uma base adequada para a igualdade humana”. Partindo desta base fundamental, o autor sugere que não devemos nos restringir a pensar a igualdade apenas em relação aos humanos. “Em outras palavras, vou sugerir que, tendo aceito o princípio de igualdade como uma sólida base moral para as relações com outros seres de nossa própria espécie, também somos obrigados a aceitá-la como uma sólida base moral para as relações com aqueles que não pertencem à nossa espécie: os animais não-humanos”, afirma Peter Singer (p. 65).

Isto pode parecer bizarro. Num mundo em que a desigualdade social, racial e de gênero, etc., persiste e reforça a discriminação contra as mulheres, os negros e negras, as pessoas LGBT, como é possível nos preocuparmos com os animais não-humanos? Se a igualdade nas relações humanas permanece sendo um desafio dos mais prementes e impõe questões morais e políticas fundamentais, exigindo concentração de esforços, de energia e atenção, não será um desvirtuamento pensar e agir em prol da igualdade para os animais não-humanos? “O bem-estar dos animais não se insere numa categoria totalmente diversa, uma história para pessoas loucas por cães e gatos? Como é possível que alguém perca o seu tempo tratando da igualdade dos animais, quando a verdadeira igualdade é negada a tantos seres humanos?” (p. 65), pergunta o autor.

A questão pode parecer provocativa. Nestes termos pode induzir à desqualificação do argumento em favor da igualdade entre animais humanos e animais não-humanos. Além, disso revela a arrogância e ignorância em relação aos interesses dos animais não-humanos, o não reconhecimento do sofrimento destes:

“Esta atitude revela um preconceito popular contra o fato de se levarem a sério os interesses dos animais – um preconceito tão infundado quanto aquele que leva os brancos a não considerarem com a devida seriedade os interesses dos escravos africanos. Para nós, é fácil criticar os preconceitos de nossos avós, dos quais os nossos pais se libertaram. É mais difícil nos distanciarmos de nossos próprios pontos de vista, de tal modo que possamos, imparcialmente, procurar preconceitos entre as crenças e valores que defendemos. O que se precisa agora, é de boa vontade para seguir os argumentos para onde eles nos levam, sem a ideia preconcebida de que o problema não é digno de nossa atenção” (p. 66).

Aceito este preceito, devemos nos perguntar sobre as razões que conferem ao animal não-humano o direito à igual consideração. Numa época em que os escravos eram tratados praticamente da mesma forma que os animais não-humanos, e considerados enquanto tais, inclusive com a anuência da Santa Madre Igreja, o filósofo inglês Jeremy Bentham, criador do utilitarismo moderno, escreveu:

“Talvez chegue o dia em que o restante da criação animal venha a adquirir os direitos dos quais jamais poderiam ter sido privados, a não ser pela mão da tirania. Os franceses já descobriram que o escuro da pele não é motivo para que um ser humano seja abandonado, irreparavelmente, aos caprichos de um torturador. É possível que algum dia se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a terminação do os sacrum são motivos igualmente insuficientes para se abandonar um ser sensível ao mesmo destino. O que mais deveria traçar a linha insuperável? A faculdade da razão, ou talvez, a capacidade de falar? Mas, para lá de toda comparação possível, um cavalo ou um cão adultos são muito mais racionais, além de bem mais sociáveis, do que um bebê de um dia, uma semana, ou até mesmo um mês. Imaginemos, porém, que as coisas não fossem assim; que importância teria tal fato? A questão não é saber se são capazes de raciocinar, ou se conseguem falar, mas, sim, se são passíveis de sofrimento” (p. 66-67).**

Os animais não-humanos são seres sencientes, isto é, sensíveis e capazes de ter sensações que imaginamos próprias e restritas aos humanos. Eis o argumento central em defesa dos animais não-humanos: a capacidade de sentir o sofrimento ao qual são submetidos. Nas palavras de Peter Singer:

“Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar esse sofrimento em consideração. Seja qual for a natureza do ser, o princípio de igualdade exige que o sofrimento seja levado em conta em termos de igualdade com o sofrimento semelhante – até onde possamos fazer comparações aproximadas – de qualquer outro ser. Quando um ser não for capaz de sofrer, nem de sentir alegria ou felicidade, não haverá motivo para ser levado em consideração” (p. 67-68).

Os que atribuem maior peso à própria espécie são incapazes de reconhecer a dor e sofrimento de outros animais. Se reconhecemos isto, somos forçados a acatar transformações radicais na forma como encaramos os animais não-humanos e a nossa relação com eles. Tal reconhecimento exige mudanças consideráveis no que diz respeito “à nossa alimentação, aos métodos de cultivo da terra, aos procedimentos experimentais em muitos campos da ciência, à abordagem da vida selvagem e da caça, à captura de animais e ao uso de suas peles, às diversões como circos, rodeios e zoológicos”, afirma o filósofo (p. 71). Esta mudança de atitude tem consequências positivas em relação aos animais não-humanos: “a quantidade total de sofrimento provocado seria grandemente reduzida, tão grandemente que é difícil imaginar outra mudança de atitude moral que provocasse uma redução tão grande da soma total do sofrimento existente no universo” (p. 71).

Se aceitamos o fato de que os animais não-humanos são seres sencientes, isto é, capazes de sentir dor e de sofrerem, então devemos encarar de frente as nossas concepções e preconceitos no que diz respeito às nossas relações como os animais não-humanos. Não é apenas uma mudança de caráter sentimental relacionada à maior ou menor sensibilidade, ao apego aos nossos cães e gatos e outros animais domésticos do nosso convívio; vai muito além da pieguice, do amor egoísta e das nossas carências afetivas compensadas pela relação com os animais não-humanos. Aceitar este preceito exige uma transformação radical na forma como concebemos a nossa espécie e sua relação com os demais animais não-humanos enquanto seres com quem partilhamos o mesmo espaço chamado Planeta Terra. Talvez não estejamos à altura de enfrentarmos esta realidade; talvez não queiramos. Até porque é muito mais fácil continuarmos a pensar como nos ensinaram as autoridades versadas em assuntos econômicos, religiosos, educativos e até mesmo científicos. Então, deixa de ser contraditório amar nossos bichinhos de estimação, mas nos alimentarmos da carne de outros animais.

* O título é o mesmo do terceiro capítulo da obra “Ética prática”, de Peter Singer (São Paulo: Martins Fontes, 2002); todas as citações são do livro acima referido.

** Apud idem.

Sobre monstros e inumanos

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Há muito tempo, assisti a um filme em que a personagem fazia um discurso racista.  Poderia ser apenas mais um filme sobre a temática racial, mas a cena ficou gravada em minha memória. Não recordo uma só palavra proferida, nem mesmo lembro-me do título do filme. O que não esqueci foram as reações dos ouvintes: alguns, em êxtase, choravam. Pareciam acreditar piamente, as palavras encontravam guarida no âmago, as lágrimas que jorravam expressavam ideias, valores e crenças introjetadas. Era uma fala repleta de emoção e irracionalidade compartilhada pela audiência, que fortalecia os vínculos mútuos e reforçava valores pré-estabelecidos. A racionalidade diluía-se na onda de emotividade que nutria e consumia a todos.

Qual é a origem desta força que irmana indivíduos em torno de ideias e valores historicamente censuráveis? Por que, apesar da razão humana, do progresso e da rejeição social e institucional o racismo, a homofobia e a misoginia persistem? O que dá sustentação às manifestações desse tipo? Como é possível que alguém, em pleno século XXI e depois das trágicas experiências de regimes ditatoriais, sinta-se à vontade para elogiar torturadores e legitimar a tortura? Como é possível que ainda encontre apoio na sociedade?

A crítica e o risco de punição legal não assustam gente deste naipe. Pelo contrário, talvez se veja como herói de causas justas. Adora holofotes e quanto mais é repudiado pela maioria mais se vê como arauto de um tempo em que dominará. Sua segurança, é a nossa insegurança; seu sonho, os nossos pesadelos. O ideal de sociedade que persegue nutre-se das paixões mais horríveis que habitam o humano. Fanático de uma ordem de terror, não hesitará em aniquilar os que não se encaixam em seu modelo, em seu ideal. Semeia ódio e intolerância; pavimenta caminhos lúgubres.

Recuso-me a pronunciar seu nome! “He Who Must Not Be Named”[1] é um monstro? Inumano? De fato, é tentador inclui-lo na categoria do inumano, da monstruosidade que expressa a banalidade do mal. Assassinos sem compaixão que agem com requintes de crueldade, torturadores que perpetram atos que estão além da nossa compreensão, sob qualquer ângulo, nos parecem excluídos da condição humana. Em geral, os vemos como inumanos, monstros. Este julgamento até pode apaziguar a nossa consciência e nos colocar num patamar moral superior, mas o exclui da humanidade que compartilhamos!

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Nazistas que planejaram e executaram o extermínio de milhões de judeus eram seres humanos normais, bons e de bem. Alguns com títulos acadêmicos, intelectuais racionais. Amavam suas esposas, seus filhos; eram bons maridos e ótimos pais. Executavam ordens, acreditavam que agiam por uma boa causa; aceitavam os argumentos ideológicos, incorporavam os valores e ideias propagados pelo nazismo. Comprometiam-se, mesclavam seus interesses com o “trabalho”. Mas não duvidemos das suas “boas intenções”, não os transformemos em monstros ou alienígenas. Entre os seus, eram homens e mulheres com bondade, capazes de amar e de serem amados. Como notou Hannah Arendt, “os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam”.[2] Eram seres humanos! Haviam os de natureza sádica, mas mesmo estes podiam se revelar homens bons em suas relações familiares, entre os seus.

A natureza humana é mais complexa do que imagina a mente maniqueísta e o moralista ingênuo. Na política, o mal e o bem não são necessariamente excludentes. Na verdade, ambos compõem a natureza humana. O cerne da questão está em compreender como e porque seres humanos “normais” – bons pais, maridos, professores, etc. – revelam uma capacidade incrível de torturar ou de apoiar torturadores. Mas compreender não é perdoar!

Os que atualmente tem o atrevimento de elogiar publicamente os torturadores são seres humanos que encontram apoio na sociedade. “You Know Who” foi eleito deputado com a maior votação do Rio de Janeiro (sétimo mandato). Os eleitores deste estado e de São Paulo elegeram outros membros da família de “He Who Must Not Be Named”. O problema, portanto, não se resume a este ou àquele indivíduo que, por ocupar uma posição privilegiada institucionalmente, consegue atrair os holofotes, falar e agir como se estivesse ao abrigo da lei. Isto é preocupante! Mas, deveria preocupar-nos ainda mais o fato de “You Know Who” e outros da mesma laia serem apoiados por centenas e milhares de cidadãos e cidadãs, homens e mulheres de bem, bons pais e boas mães, bons maridos e boas esposas, capazes de amar – mas também de odiar outros seres humanos aos quais são negados a humanidade. O seu colega de trabalho, o seu parente, seu professor, seu aluno, etc., podem ser os que fortalecem e legitimam valores e ideais expressados por “He Who Must Not Be Named”.

O ego narcísico, homofóbico, racista e misógino de “You Know Who” e sua legião de seguidores beira as raias da loucura, mas não são loucos. São humanos, demasiadamente humanos, expressam o que temos de pior em nossa condição humana. Estão plenamente convictos dos fins que perseguem e não vacilarão em relação aos meios necessários para alcança-los.

Paradoxalmente, o autoritarismo encontra espaço para fortalecer-se na democracia. A defesa da tortura e a glorificação de torturadores mostra a face do horror. É o cúmulo do inaceitável numa sociedade democrática. É preciso enfrentar o problema em sua complexidade. Afinal, o Lord Voldemort da política brasileira não está só!

[1] Na literatura a expressão se refere a Lord Voldemort, tenebroso personagem da série Harry Potter escrita pela britânica J. K. Rowling. “You Know Who” é outra forma de se referir ao Lord das trevas. Agradeço à Olga Ozaí pela contribuição em relação aos aspectos referentes à obra.

[2] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 121.

O dia seguinte à votação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados

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A vida segue o seu ritmo! Os ônibus continuam lotados e o cotidiano se repete para milhares de pessoas que dirigem-se aos seus respectivos locais de trabalho. Sonolentos, com noites mal dormidas e cansados, mas com a esperança de que a vida melhore ou que, ao menos, os dias de trabalho não se alonguem e que o final de semana chegue o mais breve possível. Ganham mal, trabalham longas jornadas – apesar dos avanços das conquistas sociais, resultado de muitas lutas. Ainda que queiram, não podem subtrair-se ao ritmo que a vida lhes impõe. É a servidão moderna do trabalho assalariado. Parece-lhes que não há outro caminho senão a adaptação, mas em seus íntimos carregam a certeza e a esperança de que a vida poderia ser diferente, melhor.

Outros nem mesmo podem se dar ao luxo de vender sua força de trabalho no mercado formal do emprego assalariado. Mas a sociedade reserva-lhes espaços para contribuir com o processo de produção e reprodução de valor – o que alguns intelectuais bem-intencionados chamam de “cidadania”. Nas ruas da cidade encontro a cidadã, a senhora de cabelos grisalhos que puxa o seu carrinho de lixo seletivo, ladeira abaixo e acima. De outra feita, é o senhor cidadão na mesma labuta. Ambos contribuem para reciclar o lixo produzido pela sociedade, pelos que tem poder de consumo. Lixo social, descartado e reciclado – novamente tornado mercadoria, valor de uso e valor de troca, graças ao trabalho da senhora e do senhor em cujas faces as marcas do tempo fixaram residência e os corpos resistem aos golpes da vida. Numa idade que mereciam melhor sorte, seus corpos são consumidos pela necessidade. Transformados em cidadãos, é o seu ganha pão. Afinal, a sociedade oferece oportunidade para todos, e cada um contribui de acordo com as suas possibilidades. É preciso ganhar a vida para perdê-la!

Não é muito diferente para os que caminham sobre rodas! Automóveis modernos, outros nem tanto, e muitos que mais parecem peças de museu e nos fazem lembrar o passado remoto, congestionam as avenidas e ruas principais. Indivíduos concentrados – outros nem tanto, ocupados com seus celulares – também dirigem-se aos seus locais de trabalho. Como os demais, carregam sonhos e esperanças, mas também frustrações e desespero.  Diferenças salariais ou profissionais proporcionam níveis de consumo diferenciados, maior ou menor conforto, maior ou menor produção de lixo reciclável, mas não os distinguem essencialmente. Com aqueles que vão de ônibus, a pé ou de bicicleta, e os cidadãos que vivem do lixo produzido socialmente, compartilham a mesma humanidade, estão presos à mesma realidade social que lhes impõe um modo de vida que foi naturalizado.

A vida repete-se como uma imperiosa necessidade! Mesmo o que parece inédito, apenas reafirma a permanência do humano: suas fraquezas, limites, vaidades, desejos de querer, desejos de poder e a busca insana pelo mais, por poder mais! Há os que buscam a ascensão social, há os que desejam simplesmente melhorar a vida, oferecer à nova geração o que não puderam usufruir e há os que almejam voar alto, tal qual Ícaros modernos, sob o risco de fenecer no calor das suas paixões. As tentações, a submissão ao domínio do vil metal, a ânsia pela acumulação que resiste ao passar do tempo e habita os sonhos e pesadelos humanos, corrompendo até mesmo as generosas utopias. O “querer mais” parece resumir o caminhar humano sobre a face da terra!

Desejos incontidos, ambições desmedidas. O reino do vale-tudo! O homem lobo do homem! Poderes destituídos, podres poderes elevados à virtude de sanar a podridão. Assim caminha a humanidade. E, no entanto, a vida se repete! Para milhões de seres humanos submetidos cotidianamente ao reino da necessidade, a vida segue o ciclo que parece inexorável. Na segunda-feira, independente dos resultados da grande política, não escapam ao destino compartilhado de labutarem para ganhar o pão de cada dia, o castigo que lhes foi lançado sobre o face, a tortura do trabalho alienante e extenuante.

Muitos agem como espectadores no teatro das sombras em que se desenrolam as tragicomédias da vida, cujos atores principais são os seus pretensos representantes – de fato, não se sentem representados, até enojam-se diante da lama fétida que emerge dos centros dos podres poderes. No entanto, ainda que não percebam ou não saibam, decisões políticas sempre acarretam consequências. O papel de espectador não imuniza dos efeitos, sempre há consequências.

Viver é arriscado! Só não há riscos para os mortos! Iludem-se os que se consideram protegidos em suas torres de marfim e também aqueles que, diante das turbulências da vida, imaginam encontrar abrigo nos cemitérios dos vivos! A vida continua, a luta também!

Contra o Impeachment!

Talvez não seja aconselhável iniciar um texto com um título taxativo que define a posição política do autor. Por um lado, há o risco de ser julgado pelos leitores apressados, cuja leitura não avança além do título. Isto não é algo que preocupe os que escrevem apenas para os convertidos, ou seja, aqueles que partilham da mesma fé, da mesma ideologia. Também não é motivo de preocupação para aqueles que defendem verdades absolutas, os panfletários e os que fazem proselitismo. Quem almeja converter e/ou reforçar convicções isola-se em seus próprios argumentos, em sua visão de mundo. Tais pessoas são afeitos à polêmica, mas na prática negam o diálogo. Como escreveu Foucault, a polêmica é uma “figura parasitária da discussão e obstáculo à busca da verdade”. Ela “define alianças, recruta partidários, produz a coalizão de interesses ou opiniões, representa um partido; faz do outro um inimigo portador de interesses opostos contra o qual é preciso lutar até o momento em que, vencido, ele nada mais terá a fazer senão se submeter ou desaparecer”.*

Em tempos de acirramentos das posições políticas e ideológicas, de definições nítidas de campos que se opõem em fronteiras rígidas, são destruídas as pontes que possibilitam a communicatione, delimitam-se trincheiras intransponíveis e são implodidas as condições para o diálogo. Quando cada um fecha-se em torno das próprias certezas, torna-se impossível ouvir a fala do outro, seus motivos e suas razões. A reflexão crítica e auto-crítica é substituída pelas dicotomias maniqueístas que apelam para a simplificação da realidade, a redução ao “nós” versus “eles”, o “bem” contra o “mal”. Neste contexto, a polêmica tende a suplantar o diálogo:

“O polemista prossegue investido dos privilégios que detém antecipadamente, e que nunca aceita recolocar em questão. Possui por princípio, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem dessa luta um empreendimento justo; não tem diante dele um parceiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que está enganado, que é perigoso e cuja própria existência constitui uma ameaça. O jogo para ele não consiste, portanto, em reconhecê-lo como sujeito com direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer diálogo possível, e seu objetivo final não será se aproximar tanto quanto possível de uma difícil verdade, mas fazer triunfar a justa causa da qual ele é, desde o início, o portador manifesto. O polemista se sustenta em uma legitimidade da qual seu adversário, por definição, está excluído.” **

Se as palavras acima tem sentido, é duvidoso que o leitor polemista tenha nos acompanhado até aqui. Mas, contemos com a sua generosidade e a esperança de que a razão seja mais forte do que os preconceitos. Continuemos!

Por outro lado, um título que anuncia posicionamento também pode resvalar para o campo da polêmica. Não é este o objetivo. Não tenho a pretensão de convencer corações e mentes da minha “verdade”. Parto do princípio de que cada um tem autonomia e esclarecimento para se posicionar diante da realidade política e responsabilizar-se pelas consequências das suas decisões. Deve ser respeitado. Afinal, somo adultos, temos maturidade para decidir e escolher nossos caminhos, somos seres racionais. E ainda que este princípio seja equivocado, não me cabe mostrar o caminho a seguir, fazer cabeças. Não quero impor a “verdade”, nem conquistar seguidores. No diálogo, o argumento contrário também é legítimo.

Contudo, legitimar o outro não significa eximir-se de assumir posição. Há momentos na vida em que a pretensão à neutralidade é tão ou mais prejudicial do que o risco de equivocar-se. Exerço o direito legítimo e democrático de tomar posição. Estou convencido de que não há legitimidade na condução do processo contra a presidenta Dilma. Concordo que a premissa da aceitação da denúncia por parte do presidente do Congresso Nacional peca pela motivação mesquinha e vingativa de um indivíduo hipócrita, comprometido até a medula com transações que atropelam as mais simples exigências do comportamento adequado ao cargo. Os que julgam estão sob julgamento.

Trata-se tão somente de um processo de cunho nitidamente político que tergiversa sobre a legalidade constitucional; uma nova modalidade de golpe que atropela a Constituição, em nome desta; uma forma de negar a democracia, parecendo afirmá-la. Não é novidade: na política a linguagem não é neutra e está sempre em disputa. Além disso, para além da parcela da população que legitimamente se opõe ao governo Dilma e aceita a tese do impeachment, é preciso levar em conta as forças sociais que se perfilam de um lado e de outro. Uma posição que tem o apoio e suporte financeiro da Fiesp, do grande empresariado e dos setores mais conservadores da sociedade – inclusive dos que não se envergonham em pedir o retorno da ditadura militar – mostra bem o seu significado político e social. Também é sintomático a forma como o vice-presidente antecipa-se aos fatos e não se envergonha de conspirar abertamente para chegar à presidência pela via indireta, uma pessoa a se temer pelo comportamento adotado na conjuntura política.

Mas também estou convencido de que a polêmica em curso, que divide os lados em “contra” e a “favor” do impeachment, não corresponde à complexidade da realidade política e social. Há uma crise de legitimidade do governo canalizada politicamente. A economia é, novamente, a explicação mais plausível! Estivéssemos outro momento econômico mais favorável e dificilmente os acontecimentos teriam evoluído no sentido de votação do impeachment. É de se pensar como um governo que iniciou sua gestão à sombra de um presidente com maior aprovação nunca antes vista na história deste país, chegou a esta situação. Merece reflexão o fato de que vários dos deputados que votarão pelo afastamento da presidenta compunham sua base de sustentação e, inclusive, ocupavam postos nos ministérios e outros setores da administração pública. É de se pensar sobre a política econômica do governo, em contradição com o discurso da campanha eleitoral e na contramão dos movimentos sociais que a apoiam. Merece reflexão os estragos que a tese da governabilidade (alianças políticas com o que de pior foi produzido na política brasileira), adotada desde os governos Lula, a política econômica em curso e o envolvimento das principais lideranças do PT nas denúncias de corrupção causaram à esquerda em geral. De certa forma, Dilma, o PT e seus aliados, estão colhendo os frutos da política colocada em prática desde os mandatos do ex-presidente Lula.

Contra o impeachment, mas sem o maniqueísmo dos missionários da intolerância que agem como profetas do Apocalipse, anunciam o caos e instilam o ódio recíproco. Contra o impeachment, mas com a recusa às simplificações, às dicotomias dos que mais parecem chefes de torcidas organizadas a brandir suas verdades mutuamente excludentes. Contra o impeachment sim, mas sem a ingenuidade dos que perfilam-se em lados opostos e acreditam que seus líderes estão acima das críticas e representam a salvação. Contra o impeachment, mas com a clareza de que isto não significa apoio ao governo Dilma, nem aceitação da alternativa política representada pelos seus mais notórios opositores. Contra o impeachment, enfim, mas sem ilusões! Pois, aconteça o que acontecer, a vida impõe a continuidade da luta!

* FOUCAULT, Michel. “Polêmica, política e problematizações”, in FOUCAULT, Michel. Ética, Sexualidade, Política; Organização e seleção de textos, Manoel Barros da Mota. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. (Ditos e escritos; V), p. 226.

** Ibidem, p. 225-226.

 

[NOTAS DE LEITURA] A Renovação Carismática Católica: origens

41434_plA Renovação Carismática Católica (RCC) tem suas origens no movimento de um grupo de docentes católicos, vinculados à Universidade Duquesne, em Pittsburgh (EUA), que, em 1967, reuniram-se em retiro espiritual. Os cerca de 30 docentes reunidos na ocasião estavam insatisfeitos com o estilo de vida, as experiências acadêmicas e, sobretudo, com a vivência religiosa. Em profunda oração e discussão, eles buscavam resposta aos seus dilemas e uma renovação espiritual. Eles já haviam tido contato com diferentes grupos do avivamento protestante, um movimento que se alastrou nos Estados Unidos na década de 1950 e influenciou a juventude das igrejas protestantes. Este grupo de professores universitários,

“desejavam experimentar a transformação que o Espírito Santo podia operar nas pessoas. Sentiam que o aprofundamento da vida espiritual não podia resultar simplesmente da ação humana, o que sempre deixaria cada um sentir-se como órfão invadido pelo vazio e pelo desanimo. Acreditavam que era o Espírito Santo que renovava a face da Igreja e do mundo, através de sua ação nas pessoas. Enquanto rezavam na capela, teria ocorrido um verdadeiro Pentecostes renovado. Uns começaram a falar “em línguas”, outros receberam o dom da profecia ou do conhecimento. A experiência teria operado neles uma profunda transformação espiritual, dando-lhes uma nova consciência do amor de Deus, um profundo desejo de louvar a Deus e de ser testemunha de Cristo ressuscitado” (PRANDI, p. 32-33).

Essa experiência foi viria a influir decisivamente os rumos da Igreja Católica. A partir desta reunião, Ralfh Martin e Steve Clark criaram a comunidade Mundo de Deus, em Ann Arbor, cidade universitária localizada no estado de Michigan. Esta comunidade reunia católicos e protestantes e, em seu início, funcionou de maneira informal. Com o passar do tempo ocorreu a expansão e maior estruturação, ampliando-se as atividades para além da localidade e do tempo dedicado às orações. Seus membros passaram a visitar hospitais, prisões, etc. O passo seguinte foi difundir o movimento para outros países, inclusive o Brasil.

Embora tenha surgido exteriormente à instituição eclesiástica, a RCC, desde o início, adotou uma estratégia que se mostraria eficiente e explica, em grande parte, o seu contínuo e rápido crescimento: sua ação consistia em aproximar-se das autoridades eclesiástica e conseguir o seu apoio; dessa forma, logo passou a influenciar decisivamente e controlar paróquias, bem como, bispados:

“Em junho de 1971, a paróquia de Saint Patrick, em Rhode Island, Estados Unidos, foi confiada a leigos carismáticos pelo bispo, consolidando-se assim a fundação da Renovação como movimento organizado católico que deveria atuar no interior das paróquias, portanto, em justaposição com a organização eclesiástica” (Ibidem, p. 33-34).

Seu crescimento foi surpreendente. No ano seguinte, realizou o primeiro congresso internacional. Em 1974, com a participação de mais trinta mil pessoas, vindas de 35 países, a RCC realizaria o seu segundo congresso internacional.

O contexto histórico

Na década de 1960, a Igreja Católica se via diante da necessidade de responder aos anseios de mudanças influenciadas pelos dilemas da modernidade e seus efeitos sociais. O Concilio Vaticano II, realizado em 1968, foi a expressão dos anseios por uma teologia e uma igreja mais voltada aos problemas sociais. De um lado, fermentava-se o catolicismo politicamente à esquerda e, internamente, abria-se a perspectiva de mudanças institucionais no corpo da Igreja. Este processo de reforma da Igreja gerou tanto as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), fundamentadas na Teologia da Libertação, quanto a Renovação Carismática Católica; ambos reivindicam a legitimidade do Concílio Vaticano II. Se as CEBS, pelo menos no Brasil e em outros países do chamado Terceiro Mundo, influenciou decisivamente a Igreja progressista da década de 1970, foram os carismáticos que passaram a ocupar a cena a partir da eleição de João Paulo II. A perseguição papal aos teólogos e líderes da Igreja Popular e o crescente apoio à RCC por parte da hierarquia católica, com aval papal, contribuíram para o enfraquecimento das CEBs e a preponderância da RCC.

Ao papa parecia descabido e perigoso o envolvimento das CEBs com as questões sociais e ele pressionou para que a Igreja se voltasse para a sua missão de cunho essencialmente religioso. Neste sentido, adotou uma política que objetivava diminuir a influência da Igreja Popular e barrar os seus passos: “Seminários vigiados, teólogos desautorizados, livros censurados, troca de bispos, divisão de grandes e progressistas dioceses e paróquias” (Ibidem, p. 31)

Porém, o enfraquecimento das CEBs e da Teologia da Libertação também está vinculado à mudança do contexto social, isto é, ao processo de desmobilização da sociedade brasileira e/ou institucionalização do movimento social. Observe-se ainda que a Igreja Popular cumpriu um papel importante numa época em que os espaços para o exercício da democracia, da liberdade de expressão e de organização, eram constrangidos, em maior ou menor grau, pelos governos militares. Com a democratização, os partidos, sindicatos e a chamada sociedade civil tiveram os espaços de atuação ampliados – e muitos dos líderes forjados no interior da Igreja Popular tinham agora um largo campo de atuação. De qualquer forma, a mão do vaticano foi fundamental, seja no sentido de fragilizar a Igreja Popular, seja na direção do fortalecimento da RCC:

“Na mão contrária, vinha a RCC com todo apoio do Vaticano. O incentivo político de Roma e o financeiro das associações internacionais facilitavam o caminho. Na mesma época, em um dos seus discursos, o Papa insistia que na América Latina era preciso optar por uma Igreja despolitizada (…). O Papa, de fato, mostrava-se bastante alinhado às tendências carismáticas e bem distante da opção pelos pobres da Teologia da Libertação. Ainda que muitos bispos, padres e teólogos tenham se mostrado opostos à RCC, não há como negar que a Igreja oficial abraçou sim um grande projeto de mudança” (Ibidem, p. 31-32).

 

Referência bibliográfica

PRANDI, Reginaldo. Um Sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático. São Paulo: Edusp; Fapesp, 1998.

Crise política e mistificação da história!

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Nestes tempos de turbulências políticas, de analfabetismo político que desafia a sabedoria do senso comum, de ignorância titulada e doutoramentos em Ciência Política pelos meios de comunicação e redes sociais como o Facebook[1], tornou-se comum valorizar a História, a leitura e o aprendizado histórico. Memes[2] ironizam a ignorância e convidam os incautos a estudar a História do Brasil.

De fato, chega a ser trágico os argumentos dos paladinos da ética na política que defendem abertamente a intervenção militar. Isto, com o beneplácito da boa-fé, se considerarmos o balbuciar como argumentação. Em muitas falas, o que se observa é, simplesmente, o irracionalismo que nutre o ódio, o preconceito e o fanatismo anticomunista – o que mostra bem o risível e, simultaneamente, a tragicidade da demonização da cor vermelha. Então, talvez seja pedir demais o esforço pelo discernimento histórico.

Diante deste quadro, é compreensível que receite-se o estudo dos eventos históricos enquanto tratamento intensivo para a cura da ignorância. Aliás, não é de hoje que os esclarecidos encontram no conhecimento o antídoto para promover o progresso da humanidade. Ignorar é desconhecer, não saber. Portanto, campo fértil para o desenvolvimento das superstições, da irracionalidade. A afirmação da razão, do esclarecimento, deveria livrar a humanidade desses flagelos. Afinal, como diria Goya: “O sono da razão produz monstros”.

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Não obstante, a política necessita do apelo aos instintos, aos medos e inseguranças, às paixões humanas. Ou seja, o irracional não é expulso da esfera da política. Por outro lado, a razão iluminista também se mostrou limitada. Parodiando o grande pintor espanhol: “A razão desperta também produz monstros”. [3] O século XX demonstra o quanto a razão foi instrumentalizada – vide as guerras mundiais, a máquina de extermínio nazista, as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Aliás, ainda no século XIX, Goya presenciou a barbárie perpetrada pelo exercito napoleônico, pretenso guardião da modernidade civilizatória e do progresso.

Mas, voltemos ao Brasil. Aqui, a ironia dos memes ganhou ares de seriedade. Não é incomum encontrar intelectuais bem-intencionados e esclarecidos que creditam à falta de conhecimento histórico a postura política dos ignorantes. Lições de história, comentários sérios, etc., são dirigidos aos cândidos e pretensamente desconhecedores da nossa história. Os sensatos e iluminados parecem acreditar no diagnóstico e, portanto, na terapia indicada!

Ora, desde quando o saber formal e conhecimento histórico são determinantes para a definição de posições políticas? Ensino formal tem uma relação direta com educação política? Anos de escolaridade formam cidadãos politicamente críticos? Em suma, conhecimento histórico é fator que determina posição ideológica democrática e de esquerda?

image-6-225x300Imaginar que conhecimento histórico determina a posição política, necessariamente crítica e à esquerda, é cultivar a ingenuidade. Fosse assim, e não teríamos historiadores assumidamente com posturas de direita. Conheço professores de História que não tem qualquer pudor em defender o golpe civil-militar de 1964; conheço sociólogos e pretensos cientistas políticos elitistas, meritocráticos e defensores do capitalismo. A sociologia nasce enquanto ciência legitimadora da modernidade burguesa. Como professor, observo que conteúdos críticos não interferem em habitus e opiniões cristalizadas. O discente “aprende” o conteúdo de maneira formal e sua posição política permanece inalterada. Saber histórico e sociológico não são sinônimos de posições políticas críticas.

Por outro lado, conheço semi-analfabetos, pessoas que aprenderam a ler e escrever por esforço próprio, que pouco frequentaram os bancos escolares, menos ainda a universidade, mas que são bem informados e cidadãos críticos, democratas e com opiniões políticas no campo da esquerda. Conhecimento escolar e da história do país não define se o indivíduo é de direita, esquerda.A questão é mais complexa, envolve outros fatores. Nossas escolhas políticas podem ser equivocadas ou corretas, independente do grau de escolaridade e do saber histórico.

Devemos valorizar a História, os historiadores e os nossos professores que contribuíram com a nossa formação. Em muitos casos, suas posturas reforçaram e ajudaram a desenvolver o pensamento crítico que acalentávamos. Noutros casos, despertaram a consciência e a tendência ao engajamento político. Mas, talvez na maioria das vezes, não tiveram qualquer influência sobre as escolhas políticas e os caminhos que percorremos em nossa vida. Provavelmente até tiveram a resistência de indivíduos que se contentaram em memorizar os conteúdos para “passar de ano”. Assim, não exageremos. Ainda que muitos nos irritem com sua ignorância histórica – o que nem sempre é o caso – não esperemos em demasia do conhecimento sobre a História. Neste caso, a excessiva valorização da História apenas confirma a sua mistificação!

[1] Sugiro a leitura de “Aos instantâneos Doutores em Política das redes sociais”, de WELLINGTON FONTES MENEZES. Disponível em https://espacoacademico.wordpress.com/2016/03/24/aos-instantaneos-doutores-em-politica-das-redes-sociais/

[2] O termo meme provém do grego μιμἐομαι (“mimema”, que tem a mesma raiz de mimese, e significa, portanto, “imitação”). Ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Meme

[3] Ver: “Razão e Paixão”, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2012/09/29/razao-e-paixao/