Política, Políticos e Politicagem

Para a maioria dos eleitores, a política é algo ausente do seu cotidiano. Eles vivem o dia-a-dia e ponto. Parece que a política não lhes diz respeito. Até torcem o nariz quando alguém fala deste assunto. Mas estas mesmas pessoas aparentemente indiferentes muitas vezes surpreendem. É interessante, por exemplo, como na década de 1980, milhares foram as ruas e praças públicas reivindicando democracia e liberdades políticas.

Hoje, prevalece a indiferença e apatia. Será que os indivíduos concluíram que a democratização da sociedade não mudou essencialmente as suas vidas? Como bem compreendeu Tomasi di Lampedusa, em sua obra prima Il Gattopardo: “Se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude”.

A performance dos políticos nos últimos anos fortaleceu o preconceito contra a política. Cada vez mais, esta é vista como algo por natureza imoral e antiética, relacionada ao egoísmo e aos privilégios.

Não é novidade que os políticos há muito padecem da rejeição popular. O mesmo se pode afirmar quanto às instituições políticas. Aliás, diga-se de passagem, e talvez em favor dos políticos tupiniquins, isto não se restringe ao Brasil. Em todo lugar, os políticos ‘gozam’ da antipatia e descrédito dos eleitores. A música de Cosme Diniz e Rosemberg, cantada por Bezerra da Silva, sintetiza este sentimento:

“Para tirar o Brasil dessa baderna
Só quando o morcego doar sangue
E o Saci cruzar as pernas.”

A letra ironiza os políticos e os responsabilizam pelas desgraças. Ironia à parte, os poetas populares apenas expressam o que o senso comum pensa sobre a política. Mesmo com o voto obrigatório, muitos nem comparecem às urnas e aumenta a soma dos votos nulos e brancos. Ainda que consideremos apenas os que votam, vemos que a maioria dos eleitores ‘desligam-se’ da política quase que simultaneamente à declaração dos resultados oficiais.

O eleitor comum tem razões justificáveis para negar a política. A própria atuação dos políticos contribui para a sua execração. Aliás, observe quem financiou suas campanhas eleitorais. Será que eles realmente defendem o bem comum? Ou, prioritariamente, eles defenderão interesses próprios e dos grupos econômicos que os financiam? Isso sem contar os casos onde os representantes diretos destes grupos se elegem com um discurso em favor do povo. Sempre o povo! Qual o maior interesse dos políticos em geral? Se reeleger…

Assim, não é estranho que as pessoas identifiquem política com a prática política da maioria dos políticos, ou seja, politicagem. Esta palavra, no bom Aurélio, significa: “política mesquinha, estreita, de interesses pessoais”; “o conjunto dos políticos pouco escrupulosos, desonestos”.

Mas, como dizem os bons cristãos, é preciso separar o joio do trigo. Não sejamos incrédulos a ponto de negar as exceções. Mesmo assim, a tarefa é difícil! Principalmente quando aqueles que se caracterizavam pela diferenciação, por inspirar confiança e esperança em seus eleitores, são ‘domesticados’ e jogam o mesmo jogo. É bom ter claro que em política a retórica está ao alcance de todos.

Não por acaso, a política tornou-se uma atividade profissional, um meio de ascensão econômica e social. São muitos os que aprenderam a viver exclusivamente da política. O que era um meio transformou-se no fim.

É sobretudo nos partidos que se faz política. A política passou a ter um sentido restrito, a significar simplesmente a política partidária e, portanto, a mera atividade dos políticos. Daí sua conotação negativa. De fato, a política partidária pode até ser necessária e importante, mas é somente um dos seus aspectos da atividade política em seu sentido amplo.

14 comentários sobre “Política, Políticos e Politicagem

  1. Ozai , tudo bem? Achei muito interessante o texto q na verdade é o que penso também e as vezes nós do PT nos sentimos usados por ele( PT ) pois quem manda é quem tem mais garrafas no jargão interno. Fico muito triste, e as vezes dá uma vontade de não fazer mais nada,mas e daí como foi citado a democracia não foi concluída e continuo a fazer minha parte. O Devanir é o que restou dos peões da era Lula, uns abandonaram os barcos, foram cuidar de suas vidas, outros já faleceram e resta ele no Parlamento. Eu cursei Ciências Sociais na ESP em SP e me dedico aos movimentos sociais. Vou acompanhar suas leituras garoto. Fico orgulhosa de você ! Bjo…

    • Zeneide,

      boa noite.
      Meu sincero muito obrigado por ler, comentar e pelas palavras de estímulo.
      Fico contente por compartilhar as notícias e manter contato. Espero revê-los qualquer dia destes.
      Lembranças a todos!

      Beijo e tudo de bom,

  2. Toda super estrutura que se ergue sobre a base econômica tem como tendência reafirma-la, principalmente a super estrutura política, já que políticos “profissionais” dependem de financiamentos para campanhas e para “compra de votos”. por um lado, creio, e creio mesmo, que a educação pode semear um futuro diferente, más para isso o professor deve entender seu papel como mediador e encarar uma pedagogia crítica. Por enquanto, mesmo com todas as dificuldades, ainda é possivel ao professor escolher a teoria educacional que mais se adapte à crítica dessa sociedade. Já por outro lado, fico imaginando: será que é utopia pensar a educação como vangarda da emancipação humana?

  3. Ozaí, acho que o problema maior ai é a sua limitada visão do que seja política. Ainda, a sempre posta perspectiva de padre. O âmbito da política é muito mais amplo, envolvendo a totalidade das dimensões humanas. Com esse conceito (Huxley, Orwell, Foucault, e outros) não há como atestar o inatestável: a inexistência e/ou apatia política das pessoas. Aliás, o grande drama de toda ditadura é o de ter descoberto pessoas arrojadas onde só imaginava haver cadáveres.

  4. Sobre política, é sempre bom lembrar:”O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Não sabe que tudo na sua vida depende das decisões políticas. É tão desinformado que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Desconhece que da sua ignorância política – da alienação e da omissão – nascem a prostituição, a miséria, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político corrupto, vigarista e demagogo”. Bertoldt Brecht.Qualquer hora dê uma passada lá no Verbo Feminino. Um abraço,Luciana G

  5. [Maria Lúcia] [malupedrososilva@terra.com.br] [Porto Alegre-RS] Desmitificar a questão do “ser político” é tarefa a começar na pré-escola. Estou convicta de que precisamos politizar educadores e transformar pela educação… Mas estou também consciente que isso não é tarefa fácil.22/01/2007 12:17

  6. [cris] [ccaiado@terra.com.br] [curitiba-pr] ozaí, seu texto me deixou muito feliz, pois quando eu analiso com as minhas turmas o poema “o analfabeto político” do brecht, fico pensando se estou ultrapassada….. só vc mesmo pra me fazer sentir “plugada” com o mundo contemporâneo de novo. fora a doce lembrança do enriquez, que diz que os meios justificam os fins na sociedade industrial, contradizendo de forma tão sublime o maquiavel. não sei se existe alter ego intelectual, mas, se ele existisse, sem dúvida, ele seria você! abraço grande, doutor ozaí! cris16/01/2007 16:50

  7. RESPOSTA:Flávio, obrigado. Você levanta questões importantes. Sem dúvida, a depender de como perdemos a vida para ganhá-la, é mais ou menos difícil participar. Mas isto não é um obstáculo intransponível, do contrário não haveria movimento operário. Por outro lado, há setores com todas as condições para influir e participar, mas que se fecham no seu casulo individualista e egoísta. Participar é uma questão de consciência política e social. E, a partir deste ponto, fazemos o que está ao nosso alcance – ou seja, há várias formas de participar. Abraços e tudo de bom,

  8. [Flávio dos santos silva] [fbbf@pop.com.br] [Aparecida de Goiás] Interessantes reflexões me proporcionarão este texto. Dentre elas surgiu uma pergunta:Como podemos participar ativamente para contribuir com a mudança desta conjuntura se precisamos “trabalhar” para sobreviver? Quero dizer que o buraco é mais embaixo… A questão é muito mais ampla, e até certo ponto complexa do que pensamos. O povo brasileiro é composto por vitimas.16/01/2007 13:22

  9. RESPOSTA:Prezada Maria, obrigado por visitar o blog comentar. São muitas perguntas de respostas nada fáceis. Particularmente, prefiro nao raciocinar em termos de “culpa”. As sociedades têm dinâmicas próprias, vinculadas à sua história, suas origens, etc., cujos fatores influenciam o nosso modo de pensar e, por consequente, a forma como vemos a política. E, a rigor, a participação política sempre foi restrita à minoria, a maioria participa em momentos específicos de crise social e política (nao em refiro às eleiçoes, mas aos movimentos sociais). Quanto á educaçao, já no século XIX filósofos e pensadores, como Stuart Mill, viam-na como o caminho para a formação consciente do cidadão. Ocorre que a educação não é algo isolado da sociedade e, também ela, sofre a influência desta. As vezes, por exemplo quando vejo a propaganda na TV sobre este tema, me parece que a educação é colocada como uma espécie de remédio para todos os males. Tenha certeza de que as suas palavras me fazem refletir. Obrigado. Abraços,

  10. [maria] [mariajdsrocha@yahoo.com.br] E de quem é a culpa? Do sistema educacional que nao ensina a ter senso critico , das igrejas pentecostais que condicionam , da globo ou do povo que é “conformado”? Aqueles que eu julgava convictos na luta, hoje defendem o voto nulo como arma achando que isso servira de “alerta”.Sera? Outros que se dizim com o povo e para o povo renderam-se ao sistema(afinal precisam comer),quantos aos que nao se venderam estão cada dia mais reduzidos a guetos. Sempre achei que esclarecer e educar o povo politicamente era o caminho, ainda acredito, mas nao consegui convencer nem dentro de casa, apesar dos meus argumentos meus filhos preferiram o voto gaiato. Alias eles acham “politica” um saco. e aí o que fazer ? sera que nao os convenci pq na verdade tambem ja penso igual? Politico é tudo ladrao e safado? Seus textos sempre instigantes conseguiu me levar a refletir sobre minha conduta de acomodação e estagnação. SAUDAÇÕES !!16/01/2007 08:38

  11. RESPOSTA:Betania, muito obrigado. Gostei da sua referência ao Barão de Itararé. Abraços e tudo de bom, Ozaí

  12. [Betania] [betaniadantas@hotmail.com] [São Paulo] Ozaí Bem legal o seu debate, a escolha da charge é fabulosa e a frase de Bezerra da Silva igualmente. Apesar de considerar que este governo me desanimou em algumas coisas, mas também fez outras tantas que gostei, não posso esquecer-me da frase de décadas e décadas atrás do Barão de Itararé: Quer conhecer o Inácio? Coloque-o no Palácio. Barão de Itararé16/01/2007 02:03

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