Lições sobre a obra de Gilberto Freyre

32166_4Em “Guerra e Paz: Casa-grande e Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30” (São Paulo: Editora 34, 2ª. ed., 2005), Ricardo Benzaquen de Araújo ambiciona examinar exaustivamente a obra freyreana. Primeiro, o autor centra-se na análise dos “mais importantes argumentos significativos de Casa-grande & Senzala”. Na segunda parte, sua análise volta-se para outras obras publicadas por Gilberto Freyre, com o objetivo de “não só acompanhar as transformações sofridas pelas questões levantadas no seu exame do período colonial, mas também a de averiguar em que medida surgiram em sua obra outros pontos de vista, paralelos mas não obrigatoriamente excludentes em relação ao seu livro de estréia” (p. 22).

“Guerra e Paz”, originalmente apresentado como Tese de Doutorado, sob orientação do Prof. Dr. Otávio Velho, defendida em junho de 1993, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ), teve como banca examinadora, além do orientador: Luiz Costa Lima, Wanderley Guilherme dos Santos, Gilberto Velho e Luiz Fernando Dias. Publicada em 1995, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Ensaio. Os méritos do livro são, portanto, indiscutíveis. Sancionado pelo campo científico e premiado, não restam dúvidas quanto à sua contribuição ao debate interpretativo sobre a obra de Gilberto Freyre. Ao que tudo indica, os objetivos do autor foram atingidos.

Não tenho, portanto, o intuito de questionar o mérito da análise de Araújo, até porque há pessoas mais qualificadas para estabelecer o diálogo crítico. Minha formação acadêmica não privilegiou a Antropologia – embora tal disciplina tenha me acompanhado por quatro anos na graduação em Ciências Sociais – e não li a obra de Gilberto Freyre. Escrevo enquanto um leitor curioso, apenas interessado em aprender. É nesta posição, como mero leitor, que ouso tecer alguns comentários sobre a experiência de ler “Guerra e Paz”.

Em primeiro lugar, confesso que tive dificuldades em concluir a leitura. A impressão, a cada página, é que estava diante de um filme repleto de idas e vindas, uma obra descontínua que se arrasta em torno de si mesma, num movimento circular que parece adiar indefinidamente o final ou pode terminar a qualquer momento, sem que finalize. O estilo da escrita não foi cativante e ficou a sensação de algo inconcluso. Mas, é claro, o autor não pode ser responsabilizado pela impaciência, ignorância ou inadaptabilidade do leitor. Este é o maior responsável pela aventura do conhecimento na qual se lança.

Seja como for, valeu a pena insistir. Sempre aprendemos algo, ainda que a experiência seja desgastante. Uma forma de avaliar o impacto das leituras é a percepção de que houve acréscimo, isto é, perceber que, intelectualmente e enquanto ser humano, não somos mais os mesmos; que se operou transformações substanciais e instigantes, que nos faz pensar e dar sequencia ao processo de aprendizagem. Há trechos esclarecedores e, em seu conjunto, o livro de Araújo instiga e reforça a necessidade de ler a obra de Gilberto Freyre – uma lacuna em minha formação intelectual.

Por outro lado, isto me fez refletir sobre o dilema inerente à formação intelectual, seja do docente ou discente: ler os comentadores e intérpretes ou ir direto à obra interpretada? É certo que nem sempre há tempo e condições para nos debruçarmos sobre o estudo e análise da obra original – especialmente considerando-se o ambiente acadêmico, prazos, exigências e acúmulo de conteúdos. Então, adotamos o atalho, o desvio, o método Jack! O esforço de ler o conjunto da obra, de conhecer o corpo em sua integralidade, é substituído pelo corte e recorte do corpo, vamos por partes!

Não quero desmerecer o esforço e a contribuição dos comentadores e intérpretes. Eles nos ajudam a conhecer o corpo, mas há sempre o risco de não compreendermos em sua totalidade. O perigo maior, no entanto, é tomarmos o comentário pelo original e nos acomodarmos e aceitarmos as interpretações. Aliás, a principal lição desta experiência reside no aprimoramento da compreensão do campo científico. A leitura de “Guerra e Paz” reforçou o meu entendimento sobre o conceito de campo de Pierre Bourdieu. Além disso, deixou claro que é melhor, sempre que possível, ler o original! Até porque tendemos a cair nas armadilhas inerentes às disputas no campo intelectual sobre as múltiplas e possíveis interpretações sobre a obra clássica.

Para finalizar, registro o meu sincero agradecimento à Profa. Dra. Simone Pereira da Costa pelo estímulo à leitura e por oferecer a possibilidade de aprendizado em suas aulas sobre o Pensamento Social Brasileiro no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (DCS/UEM).

4 comentários sobre “Lições sobre a obra de Gilberto Freyre

  1. Saber que mais alguém acredita que a leitura, por mais confusa que seja, acrescenta foi um alento. Além disso, o original… Ah… O original! Desde que entendi que ler os originais não tem nada de extraordinário e que as críticas podem auxiliar no aprofundamento (ou não), tenho tipo resistência quanto a leituras de críticas e comentários por si só. Obrigada, mais uma vez pelos estímulos indiretos! Keep up!

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