Sobre sonhos e muros: a classe operária em busca do paraíso

*“A carência daquilo que sonhamos não dói menos, ao contrário. Isto, portanto, impede que se acostume com a privação. Tudo o que fere, oprime e enfraquece deve desaparecer.”

“O sonhar, sobretudo, sempre sobreviveu ao fugaz cotidiano individual”
Ernst Bloch[1]

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No filme A classe operária vai ao paraíso (dirigido por Elio Petri, Itália, 1971)[2], Lulu Massa sonha com um muro. No sonho, estava morto e encontra o operário Militina. “Arrebentemos tudo e vamos entrar. Arrebentemos tudo e vamos ocupar o paraíso”, grita Militina. “Abaixo com este muro! Abaixo com este muro! Abaixo com este muro! E o muro caiu!” O que há além do muro? Nevoeiro. Lulu Massa vê Militina, percebe-se em outro operário e identifica cada dos seus companheiros no sonho. “Estávamos todos nós!”, diz Lulu. Teria a classe operária chegado ao paraíso? Ora, mas o que este sonho significa? É simples: “Significa que havendo um muro para derrubar, ele tem de ser derrubado”.[3]

Tomemos o paraíso enquanto metáfora de uma sociedade justa, igualitária (na acepção ética-cristã) ou socialista-comunista (na acepção laica). O sonho de Lulu revela a esperança de que é possível derrubar o muro que impede o acesso ao paraíso. Mas em seu sonho, como observado, ele está morto. Será que o paraíso é uma esperança conformista e realizável apenas no post-mortem? Não é de pouca importância o fato de que milhões de indivíduos renovem cotidianamente a esperança de, após a morte, entrarem no paraíso – e sem a necessidade de derrubar muros!

“A religião é o ópio do povo”, escreveu Marx – e, desde então, muitos o repetem sem a devida reflexão. De fato, a religião historicamente legitimou os podres poderes, as inquisições, a escravidão, a opressão, as guerras “em nome de Deus”, e, sobretudo, desempenhou um papel conservador da ordem social vigente. No entanto, a mesma religião que legitima a escravidão e a exploração, também oferece argumentos aos que desejam se libertar das ilusões e almejam transformar a realidade social. A religião é também o fermento das lutas pela justiça, da resistência dos povos à opressão. O olhar atento pela história humana revela a linguagem e ações de caráter herético dos que buscam transcender a ordem real do mundo. Já no Antigo Testamento, os profetas gritam contra as injustiças. Como observa Ernst Bloch:

“Na Terra Prometida […] desenvolveram-se comércio e indústria, ricos e pobres, uma chocante oposição de classes; credores vendiam devedores ao exterior como escravos. Os dois livros dos Reis estão repletos tanto da escassez quanto do esplendor da riqueza da qual ela resulta. Por um lado: “A fome devastava então Samaria” (I Reis 18,2), por outro: “O rei Salomão fez com que a prata se tornasse tão comum em Jerusalém quanto as pedras” (I Reis, 10, 27). Em meio a essa exploração e trovejando contra ela, entraram em cena os profetas, projetando a justiça e, com o mesmo fôlego, os mais antigos esboços de utopia social.”[4]

As palavras dos profetas e o seu clamor por Justiça serão retomados posteriormente. Por exemplo, por Joaquim de Fiore, cujo propósito era construir o “reino de Deus” aqui, no âmbito terreno. Sua doutrina “não é nenhuma fuga do mundo para o céu e o além. Pelo contrário: em Joaquim o reino de Cristo pertence tão decididamente a este mundo como em nenhum outro momento desde o cristianismo primitivo. Jesus é novamente o Messias de uma nova terra e o cristianismo acontece na realidade, não apenas no culto e na consolação para mais tarde; acontece sem senhores e propriedade, numa democracia mística”, escreve Bloch.[5] Para ele, o prior calabrês representa “o espírito da utopia social cristã revolucionária”.[6]

Os princípios do cristianismo primitivo alimentaram as esperanças heréticas dos albigenses, hussitas, anabatistas e outros, cuja ousadia lhes custará a própria vida. Suas ideias, porém, sobreviveram, influenciaram e são amalgamadas aos desejos e esperanças de outras gerações que, obstinamente, se levantarão contra as injustiças e as opressões das autoridades e sistemas sociais instituídos. A Teologia da Libertação foi a expressão mais recente deste grito por justiça que ecoa pelo tempo.

O desejo humano de alcançar o “paraíso” é antigo e se manifesta em linguagem religiosa e política. Está presente na crítica dos profetas no Antigo Testamento, nas práticas dos primeiros cristãos, nas heresias que desafiaram a ordem religiosa-feudal e pregaram o retorno ao cristianismo primitivo. Fazem parte da tradição utópica, metáfora dos muros a serem derrubados – como no sonho de Lulu. São os que sonham acordados, dedicam a vida e estão dispostos a sacrificá-la pelo sonho. São os que, paradoxalmente, perseguem o “sonho real”, a realização do sonho – metáfora para o que Bloch denomina de “utopia concreta”. O sonho e a esperança são renovados a cada geração. De certa maneira, somos os herdeiros dos primeiros cristãos, dos hereges, dos pensadores utópicos, dos que ousaram sonhar e desafiar os poderes instituídos e daqueles que se dedicaram a construir suas utopias.[7]

Enquanto ideologia laica, a “utopia concreta” é denominada por marxismo, anarquismo, socialismo, comunismos e outros ismos. Nomes diferentes para o desejo humano de derrubar os muros e construir o paraíso na realidade material terrena. As contradições sociais, as injustiças, as opressões (de classe, gênero, racial, etc.) persistem. Os hereges dos tempos modernos, os irredutíveis, mantem a necessidade real de reafirmar a utopia, de sonhar e acreditar na realização do sonho. O princípio da esperança se mantem presente e é reafirmado cotidianamente pelas contradições objetivas (materiais) e pelo desejo de justiça e o sonho de alcançar o paraíso.

Nada nos garante que, dissipado o nevoeiro no paraíso, o que veremos corresponda aos nossos sonhos. A experiência do século XX nos ensina que sonhos podem se revelar pesadelos. A classe operária não alcançou o paraíso e seu sonho revelou-se um tormento. Não obstante, os que não aceitam o status quo, seja numa perspectiva religiosa ou laica, insistem em sonhar e buscam o paraíso, ou seja, realizar a “utopia concreta”. São vários os muros a derrubar e é preciso nutrir a esperança de que é possível colocá-los abaixo. É preciso derrubar todos os muros, inclusive os que nos separam e reforçam as opressões raciais e de gênero; muros que, paradoxalmente, levantamos entre nós.

* Texto elaborado a partir da participação no XXV Seminário Lutas & Resistências, organizado pelo professor Eliel Machado (UEL), a quem agradeço pelo convite, realizado em 16 de dezembro de 2015, na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Obrigado também ao professor Ronaldo Gaspar (UEL) e aos demais que nos agraciaram com a presença, comentários e questionamentos instigantes.

[1] BLOCH, Ernst. O princípio da esperança. RJ: EdUERJ: Contraponto, 2006, p. 9.

[2] Sugiro a leitura de “A classe operária não alcançou o paraíso”, escrito pela professora MARIAROSARIA FABRIS e publicado no BLOG DA REA, 16 de dezembro de 2015.

[3] Trechos do filme, disponível em https://www.youtube.com/watch?time_continue=6568&v=c7oTQIe_-fs

[4] BLOCH, op. cit., p. 52.

[5] Ibidem, p. 66.

[6] Ibidem, p. 67.

[7] Sugiro a leitura de “O Socialismo e as Igrejas”, de Rosa Luxemburgo, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/017/17roslux.htm

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