Lições Pedagógicas!

cloud avaliaçãoPeriodicamente solicito avaliações aos alunos. Não posso reclamar, em geral as respostas são generosas, até mesmo elogiosas. “Eu deveria estar contente”, como diz a música do Raul Seixas. Mas, salvo exceções em que se atende ao objetivo da crítica, a ausência é sintomática. Isto me deixa pensativo: será que sou “tão bom assim” e me engano ao identificar limites e equívocos em minha práxis? Será receio de fazer crítica? Considerando as relações de poder introjetadas no processo de ensino-aprendizagem, compreendo. Será imaturidade em perceber erros, limitações e deixar-se hipnotizar por discursos atraentes e personalidade carismática? Então, devo ser, como se diz por aí, “bom de lábia” e tenho carisma. Será descrédito quanto às reais intenções, o que pode ser caracterizado como “procedimento demagógico”? Será falta de tempo ou uma questão de prioridade? Por que, afinal, o aluno se recusa a avaliar criticamente e, quando o faz, procede à maneira diplomática?

O elogio afaga o ego, mas sob o risco de entorpecer os sentidos e alimentar o auto-engano. A perda do senso crítico não é salutar nem aconselhável – especialmente quando se está na posição de docente. É necessário o esforço para conhecer a si mesmo. Na medida em que nos conhecemos melhor, identificamos nossas limitações, procuramos formas de superá-las e nos aperfeiçoamos. A prática ainda é o melhor critério, e não a auto-imagem ou o que os outros pensam e dizem. Como ser social, sou construído na relação com outros, tenho a influência deles e suas avaliações e opiniões me importam, na medida em que apontam aspectos impercebíveis a mim mesmo. Somos seres racionais, e cada um de nós conhece-se a si mesmo. Meu melhor avaliador sou eu mesmo! Mas, também somos seres emocionais e corremos o risco de nos cegarmos diante do próprio ego. A crítica do outro, abre os nossos olhos e nos faz ver o que inconscientemente nos recusávamos a ver.

Lição número 1: Não insista demasiadamente em ter feedback do seu aluno; sua insistência pode irritá-lo e ser interpretada equivocadamente como insegurança, perfeccionismo, demagogia, etc.

Há um tipo ideal de aluno que revela imensas dificuldades diante de uma pedagogia anti-burocrática, cuja ênfase seja a liberdade e autonomia do educando. De fato, o habitus e a cultura estudantil adquiridos no ensino formal, desde o nível fundamental, o impede de conceber algo que possa ser diferente do processo de ensino-aprendizagem fundamentado em relações hierárquicas de dependência. Este aluno tipo ideal, no sentido weberiano, recusa-se a comprometer-se enquanto participante ativo dos procedimentos pedagógicos para além do conteudismo, memorização, notas, passar de ano, etc.

Este tipo de aluno está excessivamente habituado a obedecer, a aceitar a autoridade do sistema e causa-lhe estranhamento discutir e decidir sua própria caminhada. Está “disciplinado”, concebe os estudos e aprendizagem como “a” disciplina ministrada por um professor, inserida numa grade curricular X, de responsabilidade exclusivamente docente. A expectativa é que o professor saiba, que dê conta do conteúdo, que domine os métodos de ensino-aprendizagem, que, enfim, faça uma ótima aula. O aluno centra-se no professor e esquece que também ele é sujeito desse processo. E ainda que o professor não corresponda às suas expectativas, que a aula seja péssima e seus métodos mostrem-se fracassados, o aluno mantém seu foco no julgamento do professor, mas sem questionar o sistema pedagógico e sua passividade diante do mesmo. No fundo, este tipo ideal de aluno revela imaturidade acadêmica, mentalidade e comportamento típicos do ensino secundário. Ele não está preparado para a liberdade. Ele confunde liberdade com licenciosidade e resiste a qualquer pedagogia que o desafie. Irritado, confunde princípios pedagógicos com deficiências psíquicas e comportamentais. No limite, perde a noção do devido respeito humano!

7 comentários sobre “Lições Pedagógicas!

  1. Querido Ozaí,
    Amei seu texto!!! Gostaria de reparti-lo com nossos companheiros do blog do LEAGEO-UFES. Você autoriza? Eles vão aprender mais e vão gostar.
    abraço,

    marisa valladares

    • Francisco,

      bom dia.
      Ok, obrigado. Sempre estamos aprendendo, desde que estejamos abertos às críticas e à autoreflexão. Sempre haverá novas lições, mas elas são pessoais. Não pretendo fornecer modelos ou dar conselhos, apenas compartilho. Vc é professor? Quais as suas “lições”? Abraços e tudo de bom

  2. Perguntinha chata: a avaliaçao é nominal ou anônima? Os resultados podem ser diferentes conforme seja feita a consulta aos votantes…

    • Cara Regina,

      bom dia.
      Obrigado por ler e comentar.
      Neste caso, a avaliação é nominal, pois parto do pressuposto de que faz parte do diálogo discente-docente. Mas, claro, concordo que os resultados podem ser outros no caso do anonimato – em alguns casos, noutros não; na verdade, quando o aluno compreende a proposta pedagógica ele não teme em fazer a crítica.

      Abraços e ótima semana,

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