Reminiscências

Num tempo não muito longínquo éramos todos democratas. Lutávamos contra a ditadura militar, contra a violência institucionalizada e contra o dedurismo, oficializado dentro e fora das universidades. Arriscávamos nossas vidas praticando, mais do que teorizando, o bom combate pela liberdade de expressão e de organização, pelo direito de greve, pelo direito de eleger diretamente nossos governantes. Éramos contestadores da ordem.

Era um tempo em que ser preso era um risco iminente presente nas atividades políticas mais simples: um discurso numa porta de fábrica, a participação numa greve, a propaganda política com pichações e afixação de faixas e cartazes nas madrugadas adentro. Tudo poderia ser motivo para tomar um ‘chá de banco’ em alguma delegacia ou passar umas boas horas preso até que viesse o ‘socorro jurídico’.

Lembro-me de certa feita quando colávamos cartazes divulgando o Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Fomos surpreendidos, abordados por policiais militares e literalmente jogados no desconforto do compartimento da viatura. Nossa liderança, aproveitando-se da escuridão e da topografia da área e talvez por ser mais experiente, fugiu. Assustados como crianças diante do inusitado, espremidos naquele pequeno espaço do veículo, preocupávamos com o que poderia acontecer. Um amigo, mais fervoroso na fé que os demais, começou a rezar. Outro, tenso, falava sem parar. Irritado, o policial deu-lhe um tapa no rosto. Afora a tortura talvez nada seja mais truculento e afronte a dignidade humana do que sofrer uma agressão deste tipo. Embora, o desprezo a outrem constitua uma forma potencialmente agressiva.

Fomos levados à delegacia. O delegado de plantão se divertiu muito com aqueles fedelhos metidos a revolucionários: fez cara e jeito de durão, ameaçou, aterrorizou. Só queria dar uma ‘lição’: após um bom tempo ali, sem contar com qualquer ajuda externa, a autoridade nos liberou – desde que um dos nossos pais comparecesse à delegacia. Não lembro como; só sei que a certa hora da madrugada o pai de alguém chegou e fomos libertados. Nunca tocamos no assunto do ‘tapa na cara’ com o nosso companheiro. Mas isto deve tê-lo marcado, como a todos nós.

Éramos jovens sonhadores que pensavam mudar o mundo. Nem tínhamos a exata noção do que realmente era o movimento estudantil, suas tendências políticas, suas táticas e estratégias diferenciadas, a luta pelo poder. Não sabíamos o quanto éramos manipulados por nossas supostas lideranças, preocupadas na verdade em tomar o poder e o controle da direção das entidades estudantis. Em nossa quase santa ingenuidade, não tínhamos a dimensão da complexidade da política. Tínhamos apenas a certeza de que era preciso fazer alguma coisa e que pensávamos que fazíamos a coisa certa.

Que fizemos a nossa geração? Que fizeram dos nossos sonhos? Onde andarão aqueles fedelhos que o tempo transformou em homens e mulheres responsáveis e adaptados? Alguns se tornaram líderes, outros seguidores; há os que foram bem-sucedidos profissionalmente, outros nem tanto. Não sei dos outros, mas aprendi a desconfiar dos líderes, dos que precisam de discípulos a segui-los como mariposas em torno da luz – aliás, até se consideram “iluminados”. Compreendo os que necessitam de autoridades para seguir, mas prefiro os que investem na autonomia e na dúvida permanente. Se eu pudesse aconselhar os jovens de hoje, diria: Duvide de tudo, de todos e até mesmo das suas certezas, por mais absolutas que pareçam!

9 comentários sobre “Reminiscências

  1. Eduardo Meksenas é visceralmente cruel que tenhamos de deixar o magistério, ainda que verdadeiramente vocacionados e ter do que se arrepender tanto, não pelo ato em si, mais pela pratica da decisão consumada na alma, que faz doer tanto… Todavia ,este é o país no qual vivemos, sobrevivemos e insistimos em amar tanto. Deixei o magistério, há muito troquei a sala de aula pelos tribunais, mas tenho a saudade como companheira.Creio que a saudade é aquele sentimento que funciona como um pavio, ele é aceso no momento do encontro e queima durante a vida inteira, deixando seu rastro de luz e brilho intenso, só se apaga quando se resvala no esquecimento.O mais doloroso estado de existência é relembrar o futuro. Particularmente aquele que você nunca pode ter.(Soren Kierkegaard)Um abraçoSônia sonia-terra@bol.com.br

  2. Boa,Roberto Vital Anau.É isso.Nossa coerência com as convicções e ideais – somada à nossa experiência de vida e instrução intelectual – deve ser empregada para suscitar o surgimento de novos líderes. Autênticos. Engajados. Honestos. Democráticos. Clarividentes. Empolgantes.A prática do magistério como vocação é atividade privilegiada para a emancipação cultural e política da juventude.É por isso que admiro você, o Antonio, e tantos outros que escolheram uma prática libertária como meio de vida, enquanto sinto uma ponta de frustração por não ter prosseguido na carreira docente.Um abraço.

  3. Ozaí, passei por coisas semelhantes. Jovem ainda, fiz uma colagem de panfletos contra a vinda de Rockefeller no tempo da ditadura e morri de medo. Pouco depois, fui deixado numa soleira a esperar uma amiga que fora entregar boletins clandestinos e a espera foi agônica, pensei que ela fora presa e não tardariam em me buscar. Perdi amigos na tortura – Alexandre Vanucchi Leme foi o mais célebre. Mais tarde, como vc sabe, fui sindicalista bancário, fundador da CUT. Preso na Greve Geral de 1983 e novamente na Greve Nacional da categoria em 1986 (Nova República!), fui demitido e tive danos profissionais, embora tenha tido a sorte de não passar por torturas.Minha militância política de 20 anos foi interrompida por motivos semelhantes aos que você relata. O “jogo” político não é do meu feitio: falo o que penso, sempre. Sou mau negociador. O oportunismo de gente que fazia discursos ultra-combativos e valentes e depois se vendeu por um prato de lentilhas me repugnou. Nem precisou se corromper diretamente. A simples atitude presunçosa e metida após a investidura em cargo público, reproduzindo o tradicional “Sabe com quem está falando?” da elite tão criticada antes, basta para enterrar muitas expectativas. E as políticas públicas que não mexem um milímetro na dominação do capital? E a concentração de renda obscena? Está começando a diminuir, a um ritmo de cágado. Era só isso que queríamos?Mas vamos devagar com o andor. Brecht, em Galileu Galilei, nos ensina: “Pobre do povo que precisa de heróis” . Líderes são necessários, sim, mas não são deuses. Os melhores entre eles são os que estimulam a participação ativa e consciente, portanto crítica. Não são muitos, é verdade. Mas devem ser construídos. A desconfiança sozinha leva ao nihilismo, que é tão negativo quanto as atitudes que criticamos. Apoiar criticamente os movimentos sociais e partidos que ainda preservam algo de transformador é necessário. Podemos, nós mais experientes, ter passado ao fundo do palco (respeito os que se mantêm à frente sem cair nos vícios criticados, são mais otimistas ou corajosos que eu). Alertemos os mais jovens, mas vamos também motivá-los a prosseguir a luta. Como disse Hobsbawm, “o mundo não vai melhorar sozinho”. E eu acrescento: está piorando, e muito! Nossa expectativa de democracia agora tem um gosto amargo: devemos defendê-la (ditadura, nunca mais!), mas quanta podridão, quanta miséria (material e moral), quanto cooptação de ex-adversários… Moçada, mãos à obra! Desconfiados, mas confiantes e ousados!

  4. wow…Show ozaí, nem sabia que você sofreu com a ditadura.Parece que todos sofreram! Ou somente agora resolveram publicizar isto…Deu até pra sentir o tapa em meu rosto…Aproveitarei o resto de sexta-feira para curtir a liberdade e a democracia que você ajudou a construir!Abraços.

  5. Ozaí, embora não da mesma época que tú, posso dizer que esse desencantamento e/ou lucidez atingiu a todos que lutaram com verdadeiras esperanças no coração. No início, começamos inocentes e não vemos as cobras que nos cercam. Foi muito triste descobrir que enquanto lutávamos para mudar o mundo havia boa parte dentre nós que nada mais queriam que mudar a própria vida, ganhar dinheiro, poder, prestígio. Isso só nos mostra o tamanho de nossa ingenuidade ppq a tarefa era bem maior que pensávamos. Não basta lutar contra os que estão ai, é preciso conseguir combater os novos opressores/exploradores que a própria luta vai criando e alimentando. Tarefa para Deuses!

  6. Antonio,Peço autorização para publicar o texto no meu blog, eu me sinto contemplando com o que escrevestes.Um abração!

  7. Prezado Ozai, acho uma conclusao perfeita para uma experiência bem vivida. Sem duvida é uma conclusao desencantada, mas nao seria isso simplesmente uma forma de lucidez? Afinal, seguir lideres, abdicar de sua propria capacidade de julgar é um pouco estar “encantado”, de olhos fechados acreditando na perfeiçao do outro, no confiança cega e tranquila de ser conduzido sem ter de pensar. Até amadurecer, precisamos disso.Acho o conselho que você da aos jovens perfeito – mas duvido que seja possivel segui-lo. Acho que ser jovem é exatamente ser capaz de se apaixonar irracionalmente e de se gastar como uma vela por amor, por ideal, etc. “Quem nao dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou” – e sonhar é fundamental, para se poder acordar e abrir os olhos.E, afinal, é passando por isso tudo que se conquista um certo equilibrio, que a gente se “desencanta”, ou seja, perde o encanto das ilusoes.Ao fim e ao cabo, concordo em grande parte com o Eduardo Meksenas, inclusive quando fala do presente dizendo que “este estado de coisas nao é imutavel”. Mas quanto ao final da historia, esse, acho que sera sempre um eterno recomeço, embora diferente a cada luta.Um abraço,Regina

  8. Grande Antonio,São reminiscências amarguradas. Mas a amargura vem do presente, não daquele passado: hoje vemos no quê deu tudo aquilo: em nada. Ou quase nada? Ou pouco? Mas fizemos a nossa parte; a lição principal que tiro foi que valeu(e ainda vale) não conformar-se com o que está aí (seja ontem ou hoje); tínhamos ideais, não pensávamos apenas em nos “dar bem”, ou somente em “nosso futuro”. Nos desinstalamos e agimos movidos por nossas convicções, com riscos, sofrimentos, dores e perdas. Tínhamos convicções. E, por isso, somos capazes de tê-las ainda hoje.Mesmo que tenhamos sido manipulados –e na verdade nem todos fomos: havia lideranças sérias e comprometidas – fizemos o que achávamos que devia ser feito.Seríamos o que somos hoje, teríamos os ideais que temos hoje, pensaríamos e enxergaríamos o que enxergamos hoje se não tivéssemos amargado tudo aquilo?A ditadura era truculenta e explícita. Era estado de exceção política.Hoje, o estado de exceção é econômico-social. A ditadura é mais encoberta e sutil. O inimigo mudou de forma e meios. Mas nossos compromissos não devem ser abandonados.Mais do que nunca, os ideais daquele nosso tempo se mostram atuais e urgentes. E nós mudamos de meios e formas de agir para construí-los.O importante, meu amigo, é que mantenhamos o inconformismo que faz andar a história, que saibamos ser possível um mundo melhor do que este que está aí; o importante é que não achemos normal toda essa violência, impunidade, corrupção, exclusão social, discriminação econômica. Este estado de coisas não é eterno, nem imutável.Hoje os tempos são outros, e as formas de agir conforme nossas convicções são outras.Apenas as convicções não mudaram. Um país justo,livre para todos e igualitário é possível. Tem que ser possível. E somos coerentes – cada um em seu canto e em sua profissão e em suas atividades – com o que fomos um dia, coerentes com (talvez?) o melhor de nós mesmos. Por isso temos de continuar acreditando.Troque a amargura pela consciência tranqüila, velho, e continue acreditando: nós fizemos o que tinha de ser feito. Deu em quase nada, mas algum resultado houve – pelo menos a queda da ditadura, o que não foi pouco. Isso deixamos para nossos filhos e alunos.E os que se omitiram? E os que fugiram? E os que compactuaram? E os que passaram para o “outro lado”? E os tranquilos, que de nada sabiam?Um abraço, Grande Antonio, e companheiros de geração também. Sem amargura.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s