Sobre livros e leitores (2)

Caro (a) leitor (a), para evitar qualquer mal-entendido, confesso que sou apaixonado pelos livros, especialmente pela literatura. Sou daqueles que preferem manusear os livros diretamente nas estantes da biblioteca à consulta tranqüila e bem-acomodada diante do monitor do computador. Dos que se deliciam em passar horas a visitar as livrarias e a folhear os livros; do tipo que passa horas em sebos, à procura de raridades e autores preferidos. Dessas visitas aos antigos e sebosos, fico com os olhos lacrimejantes e vermelhos, o corpo cansado e impregnado de pó. O esforço é imenso. Mas, suprema alegria!, descubro um livro que vale a pena ler! Como é grato e enche de contentamento descobrir, em meio aos milhares, um livro que chama a atenção, convida à leitura ou simplesmente contribui para o engrandecimento intelectual.

Sou apaixonado pela palavra e me deleito com a beleza e criatividade manifesta na construção de uma frase e de uma descrição bem elaborada. Forma e conteúdo amalgamam-se e remetem para além do ser. Às vezes, no ato da leitura, detenho-me com admiração diante das palavras esculpidas no papel. Sim, trata-se mesmo de uma obra de arte! São palavras que marcam profundamente o ser, que me faz refletir sobre a beleza e a simplicidade do viver.

Mas não imagine o leitor que se trate de afetação ou apego ao rebuscamento da linguagem. Com efeito, o embaraço lingüístico é, em geral, um exercício de arrogância, de pose acadêmica, relacionado à necessidade do intelectual em querer firmar-se pelo status. É, usando um termo orwelliano, a soclíngua, um sociologismo que apenas atesta falta de ininteligibilidade. Como ensina Mills:

“Escrever é pretender a atenção dos leitores. (…) Escrever é também pretender para si um status pelo menos bastante para ser lido. O jovem acadêmico participa muito de ambas as pretensões, e porque sente que lhe falta uma posição pública, com freqüência coloca o status acima da atenção do leitor a quem se dirige. (…) O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais os acadêmicos escorregam, com tanta facilidade para o ininteligível”.[1]

Também o velho acadêmico, por arrogância ou falta de criatividade, procura impressionar pela erudição. É o discurso professoral em ação. Este parte do pressuposto que quanto mais incompreensível, mais inteligente parecerá. Os consumidores deste falatório sem sentido, pretensamente erudito e filosófico, são seus cúmplices. É um discurso incompreensível que se derrama na ignorância do outro e que parecerá mais imponente na proporção em que reduz este à condição de asno ou papagaio. Isso sem falar na mixórdia panfletária…

Prefiro a literatura aos escritos sisudos, chatos e ininteligíveis dos teóricos metidos a filósofos, sociólogos e outros pertencentes à fauna das Ciências Humanas. Admiro, sobretudo, a capacidade dos que escrevem de maneira bela e inteligível sobre a complexidade da vida. Os que expressam as tragédias e alegrias humanas, com as quais, em qualquer época e lugar, nos identificamos. No fundo, mudam os tempos, os costumes e os governos, mas permanecemos os mesmos. Daí a admiração em relação aos autores que compreendem a alma humana. Seus personagens nos dizem respeito; é da vida que eles nos falam.

A literatura arrebata o espírito e permite um aprendizado prazeroso em todos os aspectos: histórico, político, social, cultural, etc. Como não se enredar com os escritos dos clássicos? Seus personagens, contextos e descrições proporcionam viajar no tempo. A imaginação vagueia saborosamente nos recônditos do ser humano e seus dilemas. Em nossos devaneios, nos identificamos com os seus personagens, suas misérias e alegrias.


[1] MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p.235.

11 comentários sobre “Sobre livros e leitores (2)

  1. Prezado Professor! tanto nas estantes, como on-line, mesmo sabendo o autor, é perigoso nos dias de hoje ( como foi sempre) sermos enganados pela história ou notícia enganosa. É o que o povo brasileiro está tentando buscar incessantemente, para descobrir porque? o Brasil está de cabeça para baixo e não aparece ninguém para virá-lo.
    Abraços Fraternos
    Marilda Oliveira

  2. olá!

    parabens pelo texto !

    Sorri ao lembrar das minhas idas á sebos ,bancas de jornal , livrarias e casas de amigos.Dentre as muitas historias, lembro de qdo encontrei um exemplar de Senhor e Servo de Leon Tolstoi numa edição de 1953 ,meu coração batia forte como se tivesse achado um tesouro muito bem escondido.
    Sobre essas pessoas que falam dificil para aparentar inteligencia ou erudição ,qdo tenho oportunidade, pergunto se é possivel sintetizar ou traduzir .
    Obrigada pelas lembranças despertas!
    Saudações!

  3. Ozaí,
    Não sou como você a impregnar-me com o pó dos sebos, mas compartilho com você a ideia de quem pensa que erudição é sinônimo de inteligência, infelizmente, ainda vemos esse comportamento dentro da Academia.

    Bom ler você.

    Abraços
    Sylvia Arcuri

  4. Prezado Ozaí,

    Instigante post! Especialmente em tempos de iPad e Kindle. Espero que a indústria editorial não acabe a bibliotecas e as transformem em centros de arquivos digitais.

    Um abraço,

    Francisco Giovanni Vieira

  5. Caro Ozai:

    Compartilho com você esta paixão pelos livros. Me faz lembrar de uma piada que circulou a algum tempo , por ocasião das eleições para governador de Minas Gerais, que contava sobre um atentado cometido contra um dos candidatos: colocaram um livro aberto no carro dele.

  6. Amigo Ozai
    Sou uma Maria do outro lado do Mar,mas tal facto não invalida o facto de esta distância poder compartilhar no seu blog-é um halo novo que vem revitalizar o pensamento .
    Obrigada por permitir eu estar por aqui .
    Não perca a pedalada.
    Lembre-se do que Fernando Pessoa nos deixou:”Tudo vale a pena qdo a alma não é pequena”
    um abraço da Maria do otro lado do Mar

  7. Caro Professor Ozaí, BOM DIA!!!

    Bendita-a-hora que, já faz tempo, descobrí o Teu Blog…
    Quisera eu ter “este-faro-afiado” para a leitura!… Mas, estou na luta!

    Continue, e… continue. Estamos ‘a postos’ para acompanhar-Te.

    Gde Abraço,

    Zeberto

  8. Oi, Ozaí: compartilho seu apreço pelos livros.
    Mais ainda pelo manuseio dos mesmos. Eles sempre estiveram na minha vida, ainda que nem sempre eu os tenha lido. Tenho vários (é uma espécie de compulsão) e muitas vezes, eles me esperam pacientemente na estante: são livros técnicos, não técnicos, de todo tipo.
    À medida que o tempo está passando, percebo que se tornaram uma paixão, em função de seu conteúdo, que muitas vezes nos tiram da solidão. Seja porque podemos manuseá-los (é uma forma de companhia, não é?) quanto porque podemos nos identificar com o que lemos e temos a oportunidade de verificar que nossos desejos, receios, expectativas, percepções não são apenas nossos. Outros, em outros lugares, estão numa ‘mesma sintonia’. Fantástico viajar nas palavras dos outros, penetrar em lugares, situações, por meio das palavras.
    Mais recentemente tenho me encantado especialmente com a forma. É maravilhoso ver que a concepção de um livro também é a realização de uma ‘pequena’ obra de arte. A textura do papel, a concepção da capa, suas cores, o cheiro. É tão bom…
    Muito tempo atrás vi um filme que tinha a ver com a possibilidade do fim do mundo e existia um cientsta que havia guardado uma velha máquina de escrever, escondido numa caverna. Foi muito útil num mundo que tinha entrado em colapso e onde nada mais funcionava, pois tudo era eletrônico. Guardo até hoje meus vinis, na esperança de encontrar pelo caminho um toca-discos que me permita ouvi-los novamente.
    Acho que o mesmo acontecerá com os livros. Enquanto houver espaço, estarão comigo…

  9. Estimado Antonio
    Boa noite
    No que tange a leitura estou entre os privilegiados. Fui motivado por meu falecido pai a ler desde os 9 anos. Estava alfabetizado aos 6 anos, mas tinha dificuldade com a leitura. Um dia papai falou da lenda de Romulo e Remo, eis que menciono que possuia livro com essa “estória”. Com o interesse desperto, iniciei a ler o livro de nosso amigo Monteiro Lobato, História do Mundo para as Crianças e nunca mais abandonei os livros. Leio simplesmente por que gosto.Em minhas leituras nunca tive preocupação academica, embora possua três graduações! Destaco tb que sempre tive em consideração as sugestões e opiniões dos Professores, dos Colegas de aula e sobretudo dos amigos. Já o acesso a leitura ainda é precário em nosso Brasil. Dezenas de Escolas públicas tem sequer sanitários o que dizer de Bibliotecas. Os acervos públicos também são insuficientes e os livros em regra de alto custo em relação ao miserável salário percebido pelos que trabalham. Infelizmente a leitura ainda é um privilégio. Os trabalhadores e os Sindicatos livres no inicio do Século XX tinham seus acervos, não é de graça que foram reprimidos e destruídos.
    Um abraço
    Pedro

  10. Prezado Ozaí,

    Seu blog é um alento, em tempos de mediocridade e vazio de pensamento.

  11. Hoje ler é um achado arquiológico e muito menos um passatempo para preencher
    o vazio que a vida actual impõe .Passa-se pelas letras como um puzle .Lê-se por ler.Dá estatuto aos demais.
    Os programas do ensino actual centram-se em levar os alunos lerem as obras impostas pelas curriculas -Se uma sociedade que se desdobriu não ter apanhado o comboio das tecnologias ,há que dar diplomas á la hate -um papel que nem sequer lhes abre as portas do mercado de trabalho -Ler?para quê?a net é mais prática com os seus resuminhos .
    Ler vale a pena -as vogais e consoantes de braço dado convidam-nos a saborear um passado ou presente por detrás dos mesmos estão condicionantes morais,religiosas,sociais ,económicas,políticas e filosóficas que permitem subleituras com gaudio e sentir que afinal a literatura não é um fóssil.

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