O homem da cafeteria!

O homem maltrapilho surge à porta da cafeteria e se dirige às pessoas sentadas próximas à entrada. Nas mesas, as conversas prosseguem e o burburinho abafa a voz do pedinte. Olho ao redor e tenho a impressão de que os presentes sentem-se perturbados por aquele senhor, mas eles mantêm uma atitude de aparente indiferença. Talvez por autoproteção! É impossível não perceber aquele ser humano num recinto de indivíduos bem vestidos, bem alimentados e socialmente incluídos. Eles são a sociedade, ele é o pária. Tento manter a atenção pela conversa à mesa, mas observo os movimentos do homem e as reações dos demais. Discretamente, o proprietário se dirige até ele, há um diálogo rápido que não consigo ouvir e depois o pacato cidadão sai. Quem sabe, para alívio de alguns!

O homem da cafeteria me fez pensar! O que leva um ser humano a chegar a este ponto, a ter que sobreviver nestas condições de vida, sem teto, exposto às intempéries, sem condições propícias de higiene pessoal, sem família e a depender da caridade? Quais os motivos que explicam o fato de um homem se degradar dessa forma? O que dizer de uma sociedade na qual existem seres humanos como este? Qual é a responsabilidade do poder público?

Para muitos, a resposta é simples: a culpa é do indigente. A indigência é debitada ao hábito, à vagabundagem. Desconhece-se o indivíduo, sua história de vida, as motivações e causas que o empurraram a esta situação. O preconceito social caminha pari passu com a caridade. Esta, apesar de bem-intencionada e repleta de sentimentos genuínos, atua na superfície e não desce às profundezas do abismo social que produz a exclusão. Age sobre as conseqüências e não questiona as causas. Assim, termina por reforçar os fatores que corroboram para a reprodução da miserabilidade social.

Por outro lado, se pensarmos no indivíduo necessitado, ainda bem que existem os caridosos. Talvez, porém, a caridade faça mais bem a quem a pratica do que a quem a recebe. Talvez, ainda que imbuídos pelas melhores intenções e valores humanitários, não percebamos que o agir caridoso mascara a relação de superioridade, a humilhação do outro, o abrandamento da consciência culpada e o inflar do ego. Preparamos o nosso caminho para a salvação após a morte, enquanto caridosamente contribuímos para reprodução do inferno aqui na terra, ou seja, da realidade material, econômica e política que nutrem as causas da miséria e injustiças sociais.

Por coincidência, no dia em que vi aquele homem na cafeteria, cujos traços denunciavam o sofrimento acumulado com o passar dos anos, eu estava com o livro Na pior em Paris e Londres, escrito por George Orwell.* O homem maltrapilho me fez lembrar o relato deste autor sobre a vida miserável dos farrapos humanos que perambulavam pelas ruas da capital inglesa. A vida se confunde com a ficção, e vice-versa.

Sou leitor da obra orwelliana e admiro-o ainda mais após ler Na pior em Paris e Londres. Ele abriu mão do conforto para viver o cotidiano dos mendigos londrinos e como lavador de pratos em Paris. George Orwell fez uma opção pelos pobres e buscou compreender o que se passa na alma desses seres humanos desumanizados. Ele compartilha lições que contribuem para conhecermos melhor este universo e nos livrarmos dos preconceitos sociais.

Finalizo com o que George Orwell aprendeu nesta dura experiência de vida: “Nunca mais vou pensar que todos os vagabundos são patifes, bêbados, nem esperar que um mendigo se mostre agradecido quando eu lhe der uma esmola, nem ficar surpreso se homens desempregados carecem de energia (…)” (p.245). Como afirma o autor de 1984 e A revolução dos bichos, “Já é um começo”. Vale a pena ler Na pior em Paris e Londres. Aprendamos com ele…


* ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 (256p.).

13 comentários sobre “O homem da cafeteria!

  1. BOM EU SO QUERIA DIZER UMA COISA …NAO PARA ENSINAR ALGUEM MAS PARA PRATICAR O HABITO DA REFLEXAO….QUANDO JESUS MANDOU SEUS DISCIPULOS A PREDICAR A PALABRA, LHES MANDOU LEVAR A PAZ E NAO LEVAR NADA CONSIGO E COMER AQUILO QUE DESSEM PARA ELES E COMESEM O QUE TODOS COMIAM….COLOCOU OS DISCIPULOS EM PAPEL DE RECEPTORES ……SO PODIAM DAR A PALABRA E A PAZ……..DEVE TER SIDO DURO ISTO COMO É DURA A VIDA DESTE HOMEM DO CAFÉ……….

  2. GOSTEI DISSO!”……………..Finalizo com o que George Orwell aprendeu nesta dura experiência de vida: “Nunca mais vou pensar que todos os vagabundos são patifes, bêbados, nem esperar que um mendigo se mostre agradecido quando eu lhe der uma esmola, nem ficar surpreso se homens desempregados carecem de energia (…)” (p.245). Como afirma o autor de 1984 e A revolução dos bichos, “Já é um começo”. Vale a pena ler Na pior em Paris e Londres. Aprendamos com ele…

  3. Volto a dizer aqui , professor , que que seu texto me fez refletir e contribui para o enriquecimento e amadurecimento em mim dessas questões , vi um colega falar em Estado democrático de direito mas a moral da história não seria mudar essa lógica construída pra garantir privilégios de poucos com valores liberais ? só vejo valer a CONSTITUIÇÃO quando é pra garantir o direito de poucos , pode ser prematuro dizer pois estou estudando ainda mas hoje há a dominação de classe não há ? e a coisa muda muuuiiiittttoooo lentamente .

  4. Olá Ozaí,

    Muito bom o texto. Achei muito interessante a colocação sobre caridade implicar em um mascaramento da superioridade. Impossível julgar a situação do maltrapilho sem conhecer sua história. Mas mesmo conhecendo-a, é muito difícil saber como agir para que a situação se reverta. Ações locais, como uma esmola ou coisas do gênero, resolvem instantaneamente a situação mais precária, mas não revertem a situação geral. Na verdade acredito que é exatamente o contrário que ocorre: a situação geral é ainda mais agravada com o mascaramento da superioridade.

    Não digo com isso que a caridade deve ser evitada, mas sim que junto com ela devem haver ações sociais que estimulem a mudança de atitude dos que vivem em situação precária, colocando-as no maior grau de igualdade possível com os caridosos!

    Abraços

    • “Talvez, ainda que imbuídos pelas melhores intenções e valores humanitários, não percebamos que o agir caridoso mascara a relação de superioridade, a humilhação do outro, o abrandamento da consciência culpada e o inflar do ego.”

      Mas se assim o fosse ainda seria possível falar precisamente em “agir caridoso”?

      Uma noção qualquer de caridade que implique “a humilhação do outro, o abrandamento da consciência culpada e o inflar do ego” é uma noção que não é imune a si própria, que destrói a si mesma antes de ser ela mesma, pois onde se pensa haver a caridade, não há, antes tem-se apenas o pensamento em si próprio, o que é antagônico ao próprio significado do termo “caridade”.

  5. muito interesante o artigo. os mendigos ninguém quer ve-los por perto.chegou um indio a ser queimado no banco de uma parada de ônibis.onde osw filhinhos de papai acharam que se tratava de um mendigo.

  6. Olá, bom dia Ozaí.

    Brilhante. Orwell, era um homem de visao, preocupado com as questoes humanas e principalmente com o que o estado fazia a respeito do homem.

    Vivemos hoje, como na idade média, onde os senhores, roubavam, matavam, dominavam e imperavam durante toda a vida, e já a beira da morte, fazia doaçoes a igreja, para poder se purificar, e herdar o reino dos céus. Hoje, temos os crianças/esperança da vida.

    Mas continuamos indiferente aos nossos irmaos. Como os senhores feudais.
    Importa o EU.

  7. Oi, Ozaí!
    Sem palavras, pois você brilhantemente as colocou como eu gostaria de colocar, hoje, no sinal de trânsito em Belo Horizonte, quando uma pedinte me estendeu a mão e não consegui seguir quando o sinal abriu. A expressão de dor, me mostrando o dente todo carcomido, o jeito desamparado, a fome estampada na cara, me deixou paralisada. Milhões de flash de pensamentos cruzaram minha mente. Dar ou não dar a esmola, eis a questão? Faria bem para quem? Muitos passaram indiferentes. Estou, ainda, com um nó na garganta. Suas palavras não amenizam minha dor, mas me fizeram compreender mais este mundo. Vou comprar este livro. Sei que não vai resolver a situação da pedinte. Vou ficar mais culta. E daí? Vai fazer bem para quem? Preciso agir. Mas que tipo de ação? Filantropia? Esta implica olhar vertical de quem tem para quem não tem. Esperar que os poderes públicos ajam? Mas e a pedinte? Ela não tem sete vidas. Ela está abaixo do limiar da sobrevivência. Como posso ser feliz? Ela [a pedinte] está lá no sinal de trânsito, enfrentando muitos nãos, muitos olhares indiferentes, poucos e atomizados olhares compadecidos, que nada fazem também. E daí? O nó continua na garganta.
    Um abraço.
    M. Aparecida da Silva

  8. Caro Antônio Ozaí da Silva, o que posso dizer é que a miséria maior do Brasil não é na área econômica financeira da população, é no intelecto, na cultura, na falta de formação de mão de obra qualificada, na falta de treinamento para os setores onde se pode aumentar a produtividade, com lucro também para o trabalhador, não podemos ser pessimistas, devemos ajudar sempre que possível as pessoas a pescarem e não a receberem o peixe. Claro que a caridade também é importante, mas, mais importante é preparar as pessoas para enfrentarem o mercado de trabalho, que existe em qualquer lugar do mundo, as pessoas quando estão bem preparadas, conseguem se libertar do jugo da miséria intelectual e financeira, é próprio da pessoa humana querer evoluir economicamente, e há mais oportunidades quando temos um Estado Democrático de Direito, onde o paradigma é liberdade, democracia, cultura e laser para todos aqueles que se dispuserem a fazer acontecer.
    Entendo que dando oportunidades iguais para todos estudarem, adquirindo conhecimento, todos poderão também participar, compartilhar, em igualdade de condições, a vida numa sociedade Capitalista e Democrática.
    Nunca podemos esquecer que fora da democracia, só teremos repressão, supressão das liberdades individuais, abuso de poder, falta de Justiça, o que revelou a Ditadura.
    Devemos sempre lembrar que no Estado Democrático de Direito, a vida pode ser mais amena e compartilhada com alegrias e prosperidade para todas as pessoas de boa índole, que acreditam nos sentimentos das pessoas respeitando-as, orientando-as sempre que possível.

  9. Até nem sei quando é que terei tempo para ir tao além das minhas obrigaçoes de leitura e ler Na pior em Paris e Londres.
    Mas certamente acabo de ler uma admiravel reflexao sobre a miséria que nos acompanha e que se aproxima cada vez mais de nos que temos lazeres para refletir sobre ela.
    Na Europa isso se torna cada vez mais claro: a velha crença na estabilidade de nossas sociedades tais como as conhecemos desde sempre (numa vida individual, claro), revela-se cada vez mais como uma fragil ilusao.
    Abraço e parabéns.

  10. Antonio
    Bom dia
    Ao contrario do que proclamam os arautos do pleno emprego, temos milhões de excluídos sociais no Brasil. Aqui em Caxias do Sul, RS, estimasse um cinturão de miséria que abranja algo próximo a 40.000 seres humanos, para um calculo de 500 mil habitantes.Obviamente esses excluídos o estão no todo, pois ficam fora, inclusive, dos auto denominados programas sociais. Outra situação, a prostituição, sobretudo, a noite campeia – se espraia – nas ruas centrais da cidade, o que também evidencia a exclusão social. O ‘exército’ de moradores de rua, já ocupa rotineiramente nossos poucos parques e praças, deixando-os no jargão conservador inseguros para o chamado convivio social das “pessoas de bem”. No centro não mais se vêem casais de mãos dadas andando após o fechamento do comércio de calçada. Em algumas feitorias se estabeleceu de há muito um pacto silencioso: os moradores de rua “não importunam” e num dia pré-estabelecido tacitamente, ou mesmo num horário costumeiro, recebem as sobras e com isso a paz reina. O problema é que nossas misérias não se limitam aos já totalmente excluidos, mas paulatinamente abrangem os sem alfabetização (analfabetos e analfabetos funcionais), os subempregados, (milhões que ganham menos que o salário minímo), sem carteira assinada e sem contribuir para a Previdência, sem falar do nosso pifio “salario minímo”, absolutamente inconstitucional. O certo é que o pior está por vir, sobretudo, se a crise do Capitalismo, vir a ceifar os empregos existentes no momento na terra tupiniquim. Resta aguardar para se observar os novos embustes midiaticos que os dententores do poder utilizarão, pois a vigarice da inclusão social vem mostrando rachaduras. Pode até que utilizem o fracasso do Capitalismo, para justificar nosso provavel aumento da miséria.
    Abraços e cumprimentos por abordar este tema candente.
    Pedro

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