Adultério, culpa e sofrimento

A_LETRA_ESCARLATE_1231453477PNathaniel Hawthorne (1804-1864), é filho de puritano. Seus antepassados enforcaram quacres e queimaram mulheres acusadas de bruxaria. Seu bisavô foi um dos juízes no julgamento das “Bruxas de Salem”. Era o ano de 1692. Na Nova Inglaterra daquela época, como relata o historiador Paul Johnson, os guardiões da moral e dos bons costumes condenavam à morte homens, e principalmente mulheres, acusados de heresias, bruxaria e adultério:

“Se aplicaram penas severas aos transgressores da moral de todo o tipo. Até 1632, o adultério era penalizado com a morte. Em 1639, outra vez em Plymouth, uma mulher adúltera foi açoitada, depois arrastada pelas ruas com as letras AD costuradas na manga do vestido, e advertida de que se removesse aquele sinal as letras seriam gravadas em seu rosto. Dois anos depois, um homem e uma mulher condenados por adultério foram chicoteados, desta vez “em um poste”, e se ordenou “costurar em lugar bem visível de suas roupas” as letras AD”.[1]

O adultério – pecado, culpa e sofrimento – é o tema central da obra clássica A Letra Escarlate, escrita por Nathaniel Hawthorne em 1850. Na Salem do século XVII,

“O adultério era seguido pela humilhação em público. As pecadoras usavam o estigma com relutância, porém usavam-no. Nas Crônicas da Colônia de New Plymouth, datadas de junho de 1671, encontramos (vide Alice Morse Earle, Curious Punishments of Bygone Days) que as rés de semelhante crime são obrigadas a “usar duas Letras Maiúculas, A. D., recortadas em pano e costuradas nas vestes exteriores, no Braço e nas Costas; e a qualquer tempo em que forem encontradas sem as letras, usadas conforme estas ordem, deverão ser imediatamente presas e chicoteadas publicamente”.[2]

No romance de Hawthorne, a adúltera Hester Prynne é condenada a usar a letra ‘A’, em escarlate. A autoridade constituída fora condescendente:

“Pois, meu caro Senhor, os nossos juízes de Massachusetts, tendo em conta que a acusada é moça e bonita, que sem dúvida foi fortemente tentada – e além de tudo, como é mais provável, o marido está no fundo do mar – não quiseram fazer pesar sobre ela todo o rigor da lei. O caso é de pena de morte. Mas, na sua grande mercê e bondade de coração, eles impuseram à Senhora Prynne o castigo de permanecer durante três horas no tablado do pelourinho e, de agora em diante, pelo resto da vida, usar no peito aquele emblema infamante”.[3]

A punição parece branda, mas será melhor viver sob tortura contínua, estigmatizada e banida do convívio social como portadora de uma espécie de doença da alma, sob o olhar acusador de todos? A coletividade decretara sua morte, ainda que permanecesse viva. Ela “experimentava sempre uma pavorosa aflição quando sentia a pupila humana voltada para o seu estigma. O lugar não calejava nunca. Ao contrário: parecia tornar-se mais sensível com o suplício cotidiano”. [4] Os olhares a culpam, ela se culpa. A consciência do pecado é a sua tragédia. Mesmo longe do olhar humano, em sua solidão, ela não pode desvencilhar-se da culpa, não pode deixar de sentir-se pecadora. O fardo que carrega, a dor da vergonha e da angústia, paradoxalmente a fortalece. Ela convive com a culpa e o sofrimento, mas não se deixa abater. Dedica-se à sua filha, o fruto do pecado, vive por ela e aprende a reagir satisfatoriamente diante das circunstâncias totalmente adversas. É uma mulher forte. O leitor aprende a admirá-la, a simpatizar com ela.

Não é o caso do Pastor Arthur Dimmesdale, seu cúmplice na culpa e no sofrimento. Ele resguarda-se no anonimato e, desde o início, atrai a antipatia do leitor, diante da covardia e fraqueza. Contudo, seu sofrimento não é menor. A culpa dilacera sua alma e ele se entrega à dor. Ele debate-se entre o que é e o que aparenta ser. Definha-se envolto na consciência solitária do pecado. “Feliz de ti, Hester, que usas abertamente no teu seio a letra escarlate. A minha arde em segredo”, diz ele. [5] Ele se consome no próprio remorso, na solidão do eu dilacerado pela culpa. Como afirma o narrador, “a ferida com que o pecado lacerou uma vez a alma humana não cicatriza mais neste mundo”. [6] Não obstante, o leitor compassivo o compreenderá e poderá compartilhar do seu sofrimento e redenção. Mais do que o leitor, Hester o compreende e as lágrimas da sua filha o redime:

“Pearl beijou-lhe os lábios. Quebrava-se um encanto. A grande cena de dor, de que a menina esquisita participara, tinha-lhe acordado todos os sentimentos. E quando as suas lágrimas rolaram para as faces do pai, eram o penhor de que ela cresceria entre a alegria e tristeza humanas, não mais para lutar contra o mundo, mas para ser uma mulher dentro dele”. [7]

As lágrimas da pequena Pearl anunciam um novo mundo. Apesar de tudo, a mensagem do autor é otimista. Chegará um tempo em que as pessoas não sofrerão mais pela culpa de amar. Uma época em que “uma verdade nova será revelada para estabelecer, num terreno de felicidade mútua, a relação entre o homem e a mulher”. [8] Enquanto este tempo não chega, a Letra Escarlate, ainda que invisível aos olhos humanos, queimará o peito dos que amam contra as convenções morais e sociais. O tempo do estigma gravado em tecido e exposto sobre o corpo pecaminoso é substituído pelo olhar acusador, o sentimento de culpa e o sofrimento. A culpa é ferida que não cicatriza, o autoflagelo dos que sofrem por desafiar a moral social e religiosa e, especialmente, por causar o sofrimento dos que amamos.

A Letra Escarlate é um livro envolvente, é impossível lê-lo impassivelmente. A escrita do autor é um brinde aos que amam as palavras, além de oferecer a possibilidade de aprender e enriquecer a linguagem do leitor. Embora trate de uma época de rigores puritanos, permanece atual. O humano permanece frágil e prisioneiro de seus sentimentos. A culpa continua a afligir as almas dos amantes clandestinos. A liberdade revela-se ilusória, pois embora o humano esteja solitário em sua consciência da culpa, ele não está só: vive em sociedade e é responsável pelos que o amam e são amados.

[1] JOHNSON, Paul. Estados Unidos. La historia. Buenos Aires: Javier Vergara Editor, 2004, p.51

[2] PHELPS, William Lyon. Um Estudo. In: HAWTHORNE, Nathaniel. A Letra Escarlate. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 13-14.

[3] HAWTHORNE, Nathaniel. A Letra Escarlate. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 67.

[4] Id., p. 85.

[5] Id., p. 170.

[6] Id., p. 177.

[7] Id., p. 219.

[8] Id., p. 224.

2 comentários sobre “Adultério, culpa e sofrimento

  1. Antônio
    Bom dia
    A humilhação pública (capela de chifres/Capela de Cornos), o desterro, o açoite, eram regra corrente em Portugal e Algarves, aos que se atreviam amar fora das normas do Reino. Paradoxalmente os que determinavam – faziam – estas regras eram os primeiros “a garantir o mau exemplo”. A queixa dos Bispos ao Rei e as altas autoridades com relação ao “aborregamento” dos clérigos e mesmo das religiosas (idêntica situação para a nobreza), eram uma constante.
    A necessidade de ocupar de gentes submissas e pagadoras de impostos pode ter tornado os relacionamentos de toda ordem um tanto mais flexíveis nas colônias portugueses, situação obviamente marcada por contradições e conflitos. Os adúlteros em Portugal, colocados em diferentes Capitanias no Brasil, obviamente “produziram” mais súditos pagantes e trabalhadores de canaviais, produtores de açúcar, extratores de minerais e vegetais, charqueadores, coureiros, etc. com visível lucro para as Cortes.
    A constituição de múltiplas famílias contrariando a moral e os bons costumes pode ter sido mais flexível no mundo português, do que no Britânico, não obstante os conflitos estiveram sempre presentes. Por outro lado sociedades ditas conservadoras e protestantes, por exemplo, assimilaram há mais tempo a figura do divórcio do que as de orientação católica.
    A situação da dupla união, da constituição de mais de uma família ao mesmo tempo, quando percorre os caminhos da institucionalidade, na busca de bens e valores, tem sido motivo de contendas e intermináveis querelas jurídicas que perpassam os limites estabelecidos pela moral e bons costumes. O terreno embora todos os avanços sociais, morais e legais, segue sendo controverso haja vista que muito dos ranços do pretérito a toda hora ressurgem.
    Pedro
    Caxias do Sul, 10 de agosto de 2014.

  2. O Ocidente é o responsável pelas práticas fundamentalistas de punição e vigia contra a mulher. Isto está na obra de Nathaniel Hawthorne ao mostrar, o pensamento conservador e intolerante do meio masculino de mentalidade Judaico-Cristã de nossa civilização. É importante sempre buscarmos na história, principalmente, nas obras literárias de séculos anteriores ao XXI, para refletir as antiga práticas e comportamentos sociais. Não apenas como algo a ser comparado, mas mostrar o quanto uma obra artística tem a nos dizer sobre nós mesmos. Os conflitos e a busca pela mudança nos valores sociais que ainda estão vinculados ao ser humano, mesmo com a passagem do tempo. Sempre encontramos as angústias e paixões de indivíduos vividos em séculos anteriores, que são semelhantes aos nossos nos dias de hoje. Mesmo que as práticas não sejam vistas da mesma forma, porém com base nas ideias originais, elas ainda permanecem. Os clássicos são os nossos indicativos de nossas ações no tempo e no espaço.

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