Uso temerário do Facebook

edusc_amizadeOntem publiquei no Facebook algumas palavras retiradas de uma obra que li recentemente:

“No amor da mulher há iniqüidade e cegueira com relação a tudo o que ela não ama. E também no amor consciente da mulher há ainda sempre agressão, tempestade e noite, ao lado da luz” (Nietzsche)

“Por tempo demasiado na mulher se escondeu um escravo e um tirano. Por isso a mulher não é ainda capaz de amizade: gatas são ainda as mulheres, ou passarinhos. Ou, no melhor dos casos, as novilhas”. (Nietzsche)

“As mulheres odeiam a amizade. A temperatura dela é demasiado baixa: é uma região onde elas pegam resfriado” (De Croisset)

“A maioria das mulheres é pouco sensível à amizade porque é insossa quando alguém saboreou o amor” (François de La Rochefoucauld)

“A amizade repugna às mulheres justamente por aquilo que a mesma tem de constante, firme e igual” (Bonnard Abel) *

Trata-se de uma coletânea de filósofos sobre o tema Amizade. Não sabia que ilustres intelectuais, cânones da Filosofia Ocidental, nutriam tais pensamentos em relação ao gênero feminino, embora não me surpreenda. A ciência está repleta de posturas misóginas e racistas. Aos mais pacientes, sugiro que pesquisem as obras dos pensadores ocidentais canonizados. Encontrarão verdadeiras “pérolas”. Aliás, em outros textos publicados neste espaço é possível identificar alguns “exemplos”: Filósofos e pensadores contra as mulheres, A Política, de Aristóteles e O que é misoginia?, entre outros…

Fiquei surpreso com as reações dos amigos e amigas, no Facebook e na vida real. É aceitável que uma pessoa que não me conheça, nem acompanhe os meus humildes escritos, imagine que penso como os filósofos citados. Afinal, vivemos numa sociedade machista, e, neste sentido, todo homem, em maior ou menor grau, é machista. Mas fiquei perplexo ao observar que pessoas com quem convivo, e que em tese me conhecem mais profundamente, abstraíram as aspas e tomaram as citações como palavras proferidas pela minha boca. Algumas ficaram confusas, pois não esperavam ler algo assim em meu status no Facebook. E a irritação foi ainda maior pela ousadia em publicar tais vilipêndios na semana que se comemora o Dia Internacional da Mulher!

Mas a culpa não é dos amigos e amigas, virtuais e/ou reais. Na verdade, cabe a mim assumir os riscos por usar a rede social de forma tão temerária. Como muitos, utilizo o Facebook para compartilhar links, vídeos, informações que também expressam o que penso sobre a vida, o ser-no-mundo. No entanto, também uso o Facebook com o objetivo de instigar a reflexão crítica. Dessa forma, nem tudo o que publico em meu status tem a minha concordância. Confio no discernimento do outro e, a rigor, não tenho o objetivo de “fazer cabeças”. Mesmo quando concordo, respeito quem pensa diferente.

O objetivo era mostrar o quanto os pensadores clássicos e canônicos, aceitos praticamente de forma unânime, expressam posturas inaceitáveis. Uns justificam com o argumento de que eles representam a época na qual viveram. Outros fazem vista grossa, afinal é só um aspecto das obras, em geral, consideradas canônicas. Seja como for, reproduzir tais trechos sem posicionar-me constitui uma temeridade. Muitos podem me identificar com eles. Nunca sabemos o que pensa a maioria silenciosa! Mas é um risco que vale a pena! Até porque estou bem com a minha própria consciência!

Se eu publicasse apenas o que concordo, o uso do Facebook não seria tão temerário nem geraria confusões interpretativas e emotivas. “Viver é perigoso”, escreveu Guimarães Rosa! Prefiro correr riscos, pois permite a reflexão crítica, bem como conhecer melhor os amigos e amigas, virtuais e reais. Mais ainda: possibilita o autoconhecimento. O que os outros pensam sobre nós nos ensinam muito a respeito do que somos e o que não somos!


* Todas as citações são de: BALDINI, Massimo. (Org.) Amizade & Filósofos Bauru, SP: EDUSC, 2000.

9 comentários sobre “Uso temerário do Facebook

  1. Reproduzo abaixo uma publicação que deixei em minha página do facebook
    “COMO NOSSOS PAIS
    No que estou pensando? Que preciso controlar minhas emoções para poder escrever neste momento. Estou sozinho, acometido pelo espanto revelado pela realidade: primeiro vejam “http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,apoio-do-cfm-ao-aborto-ja-enfrenta-protestos-antes-de-chegar-ao-senado-,1011804,0.htm”. Depois digam quantas mulheres têm a opinião ou suas decisões, mesmo que colegiadas, apresentadas lá. E NÃO! Não acredito que apenas homens tenham destaque no artigo por causa da “ideologia” que orienta o Estadão. O QUE ME REVOLTA É A REVELAÇÃO DE QUE AS MULHERES NÃO ESTÃO DANDO A MENOR ATENÇÃO A UM ASSUNTO QUE AS ATINGE FRONTALMENTE, E DEIXANDO AS DECISÕES E LEIS A RESPEITO DE SUAS VIDAS E DA DOS FILHOS QUE DESEJEM OU NÃO TER A CARGO DE HOMENS. Elas, muito mais que eu, claro, sabem quem arca com os riscos à saúde e à própria sobrevivência de uma gravidez que se desenvolve com problemas, com as dificuldades, cansaços e desgastes de se ter um filho quando o irresponsável que o gerou com ela deu no pé… A adolescente que engravidou em momento inapropriado de sua vida, como resultado de impulsos biológicos próprios, inexperiência, ignorância, etc.
    O senador Magno Malta, O presidente da Frente Parlamentar de Saúde, Darcísio Perondi, O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, Cristião Fernando Rosas, presidente da Comissão Nacional Especializada em Violência Sexual e Interrupção da Gestação (…), O ginecologista Thomaz Gollop, presidente do Grupo de Estudos sobre o Aborto, etc. etc. TODOS DO SEXO MASCULINO.
    Embora tenha enumerado acima alguns argumentos que poderiam ser entendidos como favoráveis ao aborto, minha intenção não é essa. Quero, isso sim, registrar minha decepção com as mulheres em geral, que se gabam de tanta consciência e sensibilidade, FICAREM DANDO TRELA A UM SUJEITINHO DA ESTIRPE DO FELICIANO, POR EXEMPLO, enquanto permanecem nos domínios do masculino e do machismo discussões, opiniões, manifestações e decisões que caberiam visceralmente a elas.”
    Publiquei hoje de madrugada, pois perdi o sono e fui ler algumas notícias no Google. Até agora (momento dessa postagem) nenhum de meus amigos ou amigas se manifestou. Será isso um tabu? Acho que me expressei temerariamente, mas tenho a consciência tranquila. Obrigado por receber minha mensagem e lê-la, mesmo que sujeito a moderação.

  2. Caro Ozaí,
    Nem sempre a leitura é feita seguida de reflexão e ás vezes na pressa é natural que ocorra mal entendidos. Considerando que, ninguém está livre da pressão do tempo, do fazer, concluir e absorver somente aquilo que lhe agrada aos olhos e ouvidos, dá-se importância para as palavras chaves e esquece do sentido principal de muitas coisas da vida. O que chama a atenção é que esse mal também acompanha os intelectuais no ämbito da nossa história, o que dizer dos pensadores?

  3. prof. Ozaí, independente do que se pensa e como se pensa, penso que esta ação de expôr temas públicos na rede social é relevante. Nós sabemos que o face é como uma rua, há de tudo. Mas, neste tudo há gente querendo saber mais, há gente querendo ouvir o outro para se encorajar e dizer o que pensa. Eu gosto muito de Gramsci, do Ordine Nuovo. Apesar de viver outra época, de certo modo, uso meu face como meu Ordine Nuovo. Politicamente tenho andado sem lenço e sem documento e sei que as redes sociais compõem a estrutra do mercado, muitos colegas preferem não se posicionarem para não se exporem publicamente. Eu, particularmente penso que no plano dos pensamentos nosso tempo tem sido tão pasmaceiro, tão insosso, portanto é sempre bom ter uma voz que instigue posições, ideias. Já li Nietzsche, conheço o machismo tão presente em sua obra, nós conhecemos a divisão sexual do trabalho inclusive na Academia, que profissões são destinadas aos homens e quais são destinadas às mulheres. Independente do fato em si, do que os autores expressam sobre a condição feminina e o quanto alguns se demonstram naturalmente confortáveis nessa posição, na semana do dia da mulher é bom trazer essa literatura para a superfície tão demarcada pelo senso comum. Eu, particularmente, gosto muito das redes sociais, ali encontramos o senso comum e podemos debater, se contrapor em busca de um bom senso. Abraço fraterno, prof. cristiane.

  4. Olá,Mestre A. Ozaí – Saudações gaupixabas.

    Que bela herança meus Mestres me legaram: o hábito saudável de lê-lo. Sou uma pessoa muito simples, alguém do povo. Só pude ingressar na faculdade depois da aposentadoria, dos filhos criados, de tudo estabilizado, financeira e socialmente.É lucro certo, portanto, ler atentamente cada palavra que Mestre OzaÍ digitou para o meu enriquecimento pessoal. Além de impressionar muito bem, meu marido e meus filhos e noras. Eles passam e comentam: ” Ei, mama, sempre se esforçando e lendo este “cabeça” do Ozaí!’ Veja só professor, talvez nem imaginasse o bem que nos faz.
    ” E também no amor consciente da mulher há ainda sempre agressão, tempestade e noite, ao lado da luz” (Nietzsche) desta forma não somos monótonas e somos mais interessantes. Veja o que acontece com as meninas boazinhas demais….sao as eternas amiguinhas.Acho esses filósofos meio machistas para o meu gosto, mas não posso negar que há um leve pontinho de verdade em certas citações. Tenho uma discussão eterna e inacabada com alguns homens da família:(nada a ver com meus filhos) Esses homens não acreditam em amizade verdadeira, solidária e desinteressada entre um homem e uma mulher. Eu acredito piamente, minha melhor amizade, mais confiável, é masculina e são mais de trinta anos. Sempre vivi em “mundos masculinos.” Não tive irmãs, somente cinco primas. Meu pai e eu tínhamos uma grande amizade. Com minha mãe, as coisas eram sempre muito difíceis e faltava cumplicidade e confiança mútua. Acho que sou um pouco machista também. Para completar tive três filhos e nada de filha. Fui banida do mundo feminino.Um componente danoso nas amizades entre as colegas de trabalho, faculdade, etc. é que notei muita inveja entre as mulheres. Os homens já não perdem tempo com isso, simplificam e não complicam.
    Gosto muito de ler os comentários. É mais aprendizado. Gente pra lá de “cabeça” com sabedoria e cultura, para as pessoas comuns apreciarem e se deliciarrm.. Vale cada segundo o blog do Prof. Ozaí.Foi muito bom ler as Profª Modesta e Elisa. Sou muito grata a elas.
    Sobre o Facebook, achei instigante o que o Prof. Ozaí fez, porque despertou a nossa curiosidade e nos fez ler mais e mais.Métodos assim, precisam ser mais usados e estimulados. A leitura anda meio em baixa e ouvimos tanto bobagem por aí…mas, também sou otimista e acredito que a situação pode ser revertida. Já presenciei absurdos acontecerem via Internet, inclusive com gente da minha faixa etária. Para mim é a maior ajuda nos estudos, em poder me organizar em todos os sentidos, inclusive financeiramente. Preparar aulas interessantes para minhas/meus alunos de reforço escolar. É uma louvável ponte para o conhecimento. Um meio interesante e novo para estimular crianças com dificuldades de aprendizado.Entretanto, há uma tênue fronteira entre o uso racional e útil, inclusive das redes sociais e o absurdo viciante de saber o número de seguidores, “amigos(as)” irreais, paixões estranhas e malucas nascidas de “amizades coloridas” ou “amoramizades. Sei de dois casamentos de mais de vinte anos, destruídos. Tudo isso é muito absurdo para mim.Sobre o Facebook, não nos entendemos muito bem, tenho minhas reservas. Mas….posso estar velha demais para esta modernidade. A falha deve ser minha.
    Abraço Professor e Professoras.É uma honra e uma alegria lê-los. Muito obrigada.
    Vera Linden.

  5. Mestre Ozaí.
    No “Canto do amigo” Nietzsche se serviu de Zarastustra para julgar a mulher politicamente, e de maneira bem tradicional. Você colocou apenas a frase do personagem. Enfim, para Zarastustra as mulheres simplesmente procriam. Após as assertivas sobre o sexo feminino Nietzsche inverte tudo e faz com que Zarastrusta se rebele. Aos homens é lançada sua rebeldia. Ele diz: “A mulher ainda não é capaz de amizade. Mas vós, homens, dizei-me quem de vós é capaz de amizade?” E depois: “ … quanta pobreza há em vós, homens, e quanta avareza de alma! …”. Para Zarastustra “a incapacidade de um sentimento amistoso é comum aos gêneros”, por causa da falta de generosidade. De acordo com muitas pesquisas e leituras, estudiosos chegaram à conclusão de que Nietzsche macula o falo e borra amizades viris ao tornar ambos os sexos sem capacidade para a verdadeira amizade.
    Foram as mulheres, no início do século XIX que teceram vínculos, costuraram a colcha da amizade, mostraram as ricas relações femininas, as relações de afeto, para armarem lutas em prol de seus anseios. Portanto, Ozaí, você deixou no Face uma ou duas citações do personagem de Nietzsche, mas escondeu as demais. Deixou que as pessoas que o lessem acreditassem em uma fala arrancada de um rico contexto. Talvez tenha sido proposital, não podemos afirmar. Não se pode dizer que um autor é preconceituoso sem ler todas as considerações, apenas observando citações. Não tomei suas palavras como as de Zarastutra. Fiquei furiosa pelo corte abrupto, sem delongas. Furiosa, também, por um autor (do livro que você ora lê) apresentar uma citação e não apresentar abaixo a que procede e o que vem a seguir. O filólogo era preconceituoso?! Nesse caso, apenas em relação a todas as amizades, talvez. Porém, quanto mais o leio digo “não sei”, mesmo porque sua história de vida o faz muitas vezes cruel. Contudo, é necessário separar personagens diferentes do autor, senão incorremos em erro. Nem todos os personagens são autobiográficos, você sabe disto.
    Abraços dessa professora aposentada que ainda tem a capacidade de se indignar com o mau uso de redes sociais. Pelo menos para esse fato você chamou atenção. Modesta Trindade Theodoro.

  6. Caro

    Se no Brasil, segundo o INEP 75% dos professores lem no mais que um livro por ano, ests esperando demais do pblico do Facebook.

    saudaes

    Giovani

    Em 6 de maro de 2013 12:25, “blog do oza”

  7. Professor, gosto muito de ler seus comentários em seu blog. Sobre esse seu comentário me senti compelida a dizer que temo que esta rede social, e outras como ela, esteja produzindo uma onda de mentes preguiçosas e viciadas em imagens. Eu temo que o uso exacerbado (como tem sido até agora) dessas redes virtuais de relacionamentos superficiais e/ou irreais – relacionamentos que se dão através de máquinas – e que utilizam, fundamentalmente, de imagens como ferramenta principal para estabelecer a comunicação entre seus membros, esteja prejudicando consideravelmente as relações sociais – aquelas que são feitas entre pessoas e não através de máquinas. Além disso, me preocupa o tipo de auto-imagem que os usuários dessas redes virtuais têm construído. O impacto avassalador desse intermediário virtual – principalmente o Facebook – nas relações entre pessoas não deixará de causar sequelas devastadoras tanto na construção da identidade e na relação dos indivíduos consigo mesmos quanto nos agentes sociais pertencentes a um grupo (casal, família, amigos, etc.). As mudanças nestes âmbitos já têm escalas astronômicas dentro de um período tão curto que se deu a partir do início da popularização da internet. E essas mudanças ainda estão em um curso acelerado. Em minha opinião mais otimista, as consequências serão tão terríveis que, além das perdas irreparáveis como a capacidade para leitura e imaginação, as próximas gerações serão marcadas pelos sujeitos mais intelectualmente incapazes, pelos solitários com uma rede infinita de ‘amigos’ e pelos mais alegres depressivos se jogando de prédios.

  8. Querido Ozaí,
    Saudações cordiais!
    Há muitos leitores apressados que não valorizam reflexões postas em blogs, pelos simples fato de sua materialidade ainda não ser canônica. Assim, acabam mostrando que não valorizam os posts pelo simples fato de não darem a eles a atenção devida, mais atenta e esforçadamente decifratória, que dariam a um ‘capa’ consagrado em página de papel, mesmo quando escreve merda… e muitos temem em dizer ao ‘capa’ que escreveu merda… Vejo nisso covardia intelectual e moral, além de preguiça intelectual de experimentar, qualitativamente, novos autores e novas vias de acesso à informação.
    Se a leitura que fizeram de vc não foi burra ou apressada, foi, no mínimo, mal intencionada, pois suas marcas de leitura eram bem claras para um leitor atento ao que se escreve e a como se escreve… No entanto, é insuportável para mim – porque espelho – saber que houve reações adversas de pessoas que “conheciam vc”, mas que facilmente ligaram a “máquina da inquisição acadêmica” sem ponderar nada além de um suposto momento de ‘equívoco’.
    Neste caso, lamento muito, pois pior do que ser xingado por um desconhecido é ser simplificado por colegas/amigos supostamente próximos… Prova de que não são seus leitores/amigos/colegas e que estão mais focados em inventariar erros para ligar a “máquina da inquisição” (que não teriam coragem de usar com os ‘capas’) do que em dialogar de fato com vc e com sua escrita… A tais criaturas reservo apenas esquecimento…
    Fica bem, caríssimo!
    Abraços, Alexander

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